quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Clarissas no Brasil



As Clarissas encontram em Santa Clara de Assis (1194-1253) a sua mãe, mestra e fundadora. Seus escritos e suas palavras são uma herança riquíssima, um tesouro vivido e transmitido através dos séculos, em inúmeras fundações, e que possuem uma indiscutível atualidade. A marcante espiritualidade clariana exerce uma força de atração significativa em todos os continentes. Através da mística clariana e de seu caminho de espiritualidade compreendemos nossa missão como um serviço à Igreja. Somos “colaboradoras do próprio Deus e sustentáculo dos membros vacilantes de seu inefável Corpo”. Nossa vida claustral clariana continua o empenho de irradiar o testemunho da Pobreza, da vida orante e contemplativa, da sororidade e da clausura. Foi o que Clara, em seu tempo, irradiou com uma claridade nítida e visível. Nestes quatro elementos fundantes se articula toda a experiência humana e espiritual da Clarissa, hoje e sempre. A caminhada profético-mística de Clara lança luz e matizes sobre o caminho de espiritualidade da Clarissa, para o nosso hoje histórico, pleno de desafios rumo ao futuro. Temos consciência de que a vida contemplativa é vital para a Igreja e para a humanidade. A vocação contemplativa clariana se move dentro desta perspectiva de certeza e de fé. Uma fé que se sente responsável por fazer contínuas retomadas de seu vigor fontal, de sua raiz batismal e de sua caminhada no decorrer da história. Há momentos propícios para essa revisão enriquecedora, esse olhar retrospectivo, que pode ajudar a iluminar o que vem adiante. Quando comemoramos os 500 anos da presença franciscana no Brasil, as Clarissas, que são chamadas de II Ordem Franciscana, encontram seu espaço para dizer algo de seu fecundo avanço histórico e presença no Brasil. Além disso, para expressar a essência de sua caminhada e espiritualidade hoje. Tentaremos fazer a exposição, embora brevíssima, desses temas em duas partes. Primeiro, uma visão geral da presença e da história das Clarissas no Brasil. Em seguida, a espiritualidade clariana como fator de renovação, empenho e essencialidade na vida claustral da Clarissa hoje.

1. Uma visão histórica da presença clariana no Brasil
As Clarissas, desde a fundação da Ordem em 1211, possuem uma interessante característica missionária de estabelecer-se em lugares de fronteira e de vanguarda. Assim ocorreu já nos inícios, com fundações em territórios próximos dos muçulmanos, no Oriente Médio, onde muitas morreram martirizadas. No século XVI, com a descoberta das Américas, houve um intenso desejo de estabelecerem fundações neste “Novo Mundo” recém encontrado pelos europeus. A primeira fundação de Clarissas ocorreu nas Antilhas, em 1552, na Ilha de Santo Domingo. Em seguida nasceram outros mosteiros de fundação espanhola no Peru, México e Colômbia. Mais fundações acompanharam o processo de colonização nos séculos seguintes. Algumas, com fatos muito originais, como uma na cidade do México em 1724, que foi realizada por iniciativa de um Cacique indígena, somente para acolher nativas indígenas e negras, em contraposição aos demais mosteiros que não as aceitavam. Isto representa um belíssimo momento de dignificação da psicologia indígena e negra, que eram vítimas de preconceito na época da colonização.Dentre as várias fundações clarianas na América Latina nestes séculos, o Brasil acolhe a sua primeira fundação em 1677.
1.1. A primeira fundação brasileira
Ocorreu na Bahia, na cidade de Salvador e recebeu o nome de Mosteiro do Desterro. Existe por detrás desta fundação um contexto social, político e econômico. As jovens nascidas na Colônia, ao serem destinadas à vida religiosa por sua opção ou por decisão familiar, eram obrigadas a ingressar em mosteiros portugueses. Numa época de crise para os senhores de engenho, com a concorrência do açúcar do Caribe, era difícil assumir as despesas necessárias para enviá-las a Portugal. Isso significava empobrecer a Colônia e, além disso, a viagem era perigosa, levando-se em consideração o assalto de piratas e os perigos de naufrágio. A Câmara de Salvador e os nobres empenharam então esforços para obter a fundação de um mosteiro feminino. O pedido foi feito à Coroa portuguesa em 1664. Depois de inúmeras vicissitudes históricas, somente em 1677, no dia 9 de maio, chegaram a Salvador quatro Clarissas Urbanistas do Mosteiro de Évora, Portugal. Por mais de setenta anos, este foi o único mosteiro reconhecido na Colônia. O objetivo das fundadoras era implantar a vida clariana no Mosteiro do Desterro, segundo a Regra de Urbano IV (1263), dar formação às noviças brasileiras e dirigir a comunidade nos primeiros anos; depois retornariam ao seu local de origem. Foi o que realmente aconteceu em 1687, dez anos depois de sua chegada. Consta que as clarissas fundadoras foram de um idealismo, santidade e vida bastante exemplares. Foi louvável seu espírito de abnegação e seu zelo. No início não puderam receber noviças, enfrentaram sérias dificuldades com a construção do mosteiro e necessidades materiais. Porém, nos anos seguintes, ingressaram muitas noviças e a fundação foi se consolidando. À partida das fundadoras, assumiu o serviço de abadessa a primeira brasileira, Irmã Marta de Cristo. Neste período, o número de irmãs chegou a cinquenta, além das vinte e cinco noviças e outras irmãs “conversas”. Segundo a mentalidade da época, o mosteiro manteve um regime de classes: coristas, conversas, recolhidas e escravas (ou servas pessoais das irmãs). Em 1764, por exemplo, havia noventa e quatro coristas, uma noviça, vinte e três recolhidas; em 1779: setenta e cinco irmãs, quatrocentas escravas e criadas. Isso fez decair enormemente a vida religiosa no mosteiro. O Bispo, nesta época, chegou a proibir o uso de ouro e prata para o adorno das escravas ou servas das irmãs. Isto tudo, apesar das determinações inicias para a fundação dadas pelo Papa Clemente IX em 1669, que limitava o número de irmãs para cinquenta e o número de criadas para quinze, ficando proibida a entrada de escravas para o serviço particular de cada irmã. Entretanto, apesar desta decadência do verdadeiro espírito cristão e clariano, do contratestemunho de pobreza evangélica, nos dois séculos de existência desta fundação destacaram-se algumas irmãs por seu exemplo de santidade. Entre elas, a Venerável Vitória da Encarnação, baiana, cujo processo de canonização está em andamento. Ela dispensou o serviço da escrava, viveu em grande despojamento e espírito de serviço, elevando a vivência espiritual do mosteiro, especialmente no período em que foi abadessa. Nos últimos dois séculos, um fenômeno social de tendências anti-religiosas, que tentava suprimir aos poucos a vida claustral, proibindo o ingresso de novos membros, veio agravar a situação da primeira fundação brasileira. Após a proibição de novos ingressos na vida religiosa, decretada para Portugal e a Colônia pelo Marquês de Pombal, o número de irmãs no Mosteiro do Desterro foi decrescendo. No início do século XX foram feitos esforços para a comunidade não se extinguir. Na época só restavam três irmãs bastante idosas, a madre era inválida e doente. Elas pediam que viessem Clarissas de outro país ou que alguma Congregação religiosa assumisse o mosteiro. Foi assim que as Irmãs da Pequena Família do Sagrado Coração consolidaram no local sua obra de assistência e educação cristã. Parte do prédio é patrimônio histórico, onde se conservam as relíquias da Venerável Madre Vitória da Encarnação, os documentos históricos e crônicas da fundação e um museu com riquíssimos objetos religiosos da época colonial, que pertenceram ao mosteiro.
1.2. No século XX, um fecundo reflorescer
Após a extinção do Mosteiro do Desterro, as Clarissas iriam consolidar novamente a sua presença em terras brasileiras, somente em 1928, através da fundação do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, no Rio de Janeiro. As irmãs fundadoras, em número de oito, provinham do Mosteiro de Düsseldorf, Alemanha. Em sua história, tem marcado uma presença fecunda em novas fundações. Somente mais de vinte anos depois desta nova implantação clariana, é que iria surgir, em 1950, o Mosteiro de Santa Clara de Campina Grande, Paraíba, com irmãs de Cleveland - EUA. No mesmo ano, o Mosteiro do Rio de Janeiro realizava a sua primeira fundação em Belo Horizonte. Poucos anos depois, Clarissas de Gand, Bélgica, realizam uma nova fundação em Porto Alegre (1953). Dez anos se passaram, até o surgimento da quinta fundação deste século. As Clarissas fundadoras provinham da Federação Santíssimo Nome, dos Estados Unidos, e ocorreu em Anápolis, Goiás. Está fundação foi assumida e continuada a partir de 1987 pelas irmãs do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos e é, atualmente, um dos mosteiros do Brasil onde há maior ingresso de vocacionadas, vindas sobretudo de Brasília. Em 1964, é a vez da segunda fundação filial do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, que implanta o primeiro mosteiro contemplativo em Santa Catarina, na diocese de Tubarão, em Forquilhinha. Em 1977 esta fundação seria transferida, por diversos fatores, para a cidade de Lages, no planalto catarinense. O Mosteiro Santa Clara, de Belo Horizonte, em 1970, realizou sua primeira fundação em Araruama, no Rio de Janeiro, que foi posteriormente assumida pelas Clarissas de Campina Grande (1984). Em 1977, chegaram ao Brasil as primeiras Clarissas Capuchinhas, provenientes de alguns mosteiros da Itália, sobretudo de Veneza-Mestre. A fundação tornou-se realidade na região serrana do Rio Grande do sul, em Flores da Cunha. A terceira fundação do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos ocorreu em 1984, no interior do sertão nordestino, em Caicó, Rio Grande do Norte. Ali já ingressaram muitas jovens irmãs no decorrer desses anos. Em 1985, foi fundado o Mosteiro Monte Alverne, em Uberlândia, Minas Gerais, pela comunidade de Clarissas de Belo Horizonte. E no ano seguinte (1986) as Clarissas portuguesas da Ilha da Madeira realizam a fundação do Mosteiro Santa Clara de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. As duas mais recentes fundações ocorreram nesta década de 90. Trata-se do Mosteiro Santíssima Trindade, fundado em Colatina, Espírito Santo, pelas Clarissas de Belo Horizonte, em sua terceira experiência de fundação. E a última, realizada na cidade de Canindé, Ceará, durante o ano comemorativo do 8º centenário de nascimento de Santa Clara (1994), com Clarissas de Campina Grande, que já inauguraram o seu mosteiro definitivo. Destaca-se especialmente que todas as fundações clarianas implantadas neste século no Brasil, têm a Regra própria de Santa Clara como base de sua vivência e possuem as mesmas Constituições Gerais aprovadas por João Paulo II em 1988, com exceção das Clarissas Capuchinhas, que observam Constituições próprias. Todos os mosteiros, exceto o de Capuchinhas (que pertence a uma federação italiana) são federados desde 1989. As federações de mosteiros tem por objetivo a ajuda recíproca, material e espiritual, especialmente na formação, o intercâmbio de experiências e de vida. A Federação Sagrada Família de Clarissas no Brasil é representada atualmente por Madre Maria Coleta, Abadessa Federal, residente no Mosteiro São Damião de Porto Alegre, já em seu segundo sexênio de serviço às Clarissas. O número de vocações tem aumentado consideravelmente nos últimos vinte anos, de modo particular em algumas regiões, como o nordeste, centro e sudeste. O sul tem tido menos número de ingressos. Entretanto, as fundações manifestam um reflorescer fecundo da vida clariana, com sinais evidentes e irradiantes de experiências vitais, que desejam ao máximo aproximar-se da vivência fontal de Clara e das primeiras Clarissas do Mosteiro de São Damião, de Assis.
2. Espiritualidade e vida das clarissas hoje
Atualmente, as Clarissas brasileiras empenham-se no sentido de aprofundar a sua vivência e espiritualidade clariana. É um esforço conjunto de mais de uma centena de irmãs, cada mosteiro ao seu modo, para avançar num caminho de renovação, de retorno às fontes, de aprofundamento da originalidade da contemplação e da mística clariana. Os mosteiros apresentam-se como “sinal forte” que atrai, que questiona, que fascina. As pessoas das cidades e mesmo das regiões onde se encontram os mosteiros, comumente os frequentam como um oásis de paz e de oração. Costumam interessar-se pela vida das irmãs, vir rezar com elas, divulgar seu estilo de vida. A Clarissa busca, através de sua formação e de sua vivência, aprender a ser verdadeiramente humana e cristã. O ponto de partida de nossa espiritualidade é o encontro pessoal com a humanidade de Jesus Cristo “Pobre e Crucificado”. Fazendo do Jesus histórico e do Evangelho o “espelho” do seguimento, colocamo-nos na estrada dura e concreta de um cristianismo encarnado, na dimensão do discipulado e do seguimento. Tentaremos expor, embora de forma breve, os aspectos essenciais da espiritualidade clariana, que fundamentam e caracterizam toda a vida das Clarissas em seu caminho de renovação e de resposta evangélica ao chamado de Deus.
2.1. Vida orante e contemplativa
As Clarissas, no seio da Igreja, têm a missão de ser a pulsação orante da vida eclesial e, em vista disso, se empenham para dar solidez ao caminho de oração e contemplação, através do contínuo confronto com a pessoa de Jesus Cristo. Um mosteiro clariano irradia sempre um forte clima de espiritualidade e oração. Hoje, sobretudo, os jovens têm sede de boa espiritualidade e precisam ser acolhidos e instruídos. As vocacionadas recebem um acompanhamento especial. As Clarissas fazem a experiência de deixar-se amar por Deus no cotidiano de sua vida simples e despojada. A meditação, o deixar-se iluminar pelo Evangelho, pela Igreja, por Clara e Francisco, vão firmando a linha de espiritualidade que dá às irmãs a prontidão para responder à graça. É através do “olha, considera e contempla, deseja seguir e imitar” que a Clarissa se volta inteiramente ao Cristo Pobre e Crucificado, penetrando no mistério da contemplação e da mística. Há elementos fundamentais de renovação nas comunidades, entre eles, a sincera e autêntica busca da dimensão contemplativa numa fundamentada preparação teológica, bíblica e mística. A liturgia, como lugar e modo de celebração, onde as pessoas possam ter a condição de acompanhar e participar; a espiritualidade e a experiência contemplativa como uma força e uma maneira de irradiar o nosso carisma e a experiência da contemplação de Cristo no monte.
2.2. A sororidade
Outro elemento fundamental de renovação atualmente é o próprio estilo de vida sororal (= de irmãs) nos mosteiros. Há tentativa de aproximar-se sempre mais de Clara e de Francisco, que se caracterizam por um modo cortês típico de relacionar-se com as irmãs e os irmãos. Cortês no relacionamento, na pedagogia, no educar e corrigir, no serviço, na solicitude, no respeito. Uma sororidade clariana realmente autêntica procura ser reflexo da comunhão que é a Igreja, por sua vez reflexo da própria comunhão trinitária. A sororidade é graça e bênção, onde se expandem os dons da simplicidade, alegria, amor e doação, humildade e solidariedade.
2.3. Pobreza e liberdade
A Pobreza, no caminho espiritual de Clara, é um elemento essencial e significa seguir o Filho de Deus que se fez pobre. É uma pobreza que liberta, despoja do supérfluo e do não essencial, abre para Deus. É uma pobreza fecunda, porque lança na fé e na confiança. A pobreza de clara conduz a um esvaziamento que é plenitude , pois abre espaço para acolher e gerar Cristo para o mundo.É também uma característica original e profética, na dimensão do nada possuir materialmente, que questiona continuamente e coloca as Clarissas no caminho de uma mística de “peregrinas e estrangeiras”, em ardente busca do Deus vivo.
2.4. Clausura, lugar da revelação de deus
A clausura é para as Clarissas o lugar da revelação de Deus, a terra prometida onde entram na posse da herança: viver com o Senhor, ser dele, relacionar-se face a face com Ele. O chamado a entrar num claustro clariano é um convite a penetrar no terreno da revelação de Deus, no “Jardim fechado” (Ct 4,12) onde Ele se manifesta na experiência místico-contemplativa. As relações normais que as Clarissas mantêm com o exterior do mosteiro, através da correspondência, do telefone e locutório, o contato com padres e religiosos, com grupos da paróquia e com pessoas diversas alarga a irradiação silenciosa da vida contemplativa e atrai outros ao seguimento de Jesus Cristo. O serviço do locutório é um serviço de escuta e misericórdia, acolhimento solícito, acompanhamento e orientação. A experiência da revelação de Deus se expande na solicitude de uma abertura ampla, eclesial. A Clarissa, em sua clausura, abraça o mundo. “O nosso claustro é o mundo”, dizia São Francisco.
Conclusão
Para estas colocações seria necessário alongar-se ainda muito. O objetivo não permite realmente ir adiante. São estas , portanto, como que linhas gerais, apenas pinceladas sobre a história das Clarissas no Brasil e seu empenho de vida hoje. O importante mesmo é perceber a dinâmica ação do Espírito Santo na vida das Clarissas, característica de toda a sua história, nestes quase oito séculos de fundação. Atuação que nos faz assumir sempre mais conscientes a nossa missão específica no seio da Igreja, na história deste continente latino-americano e neste país. A Clarissa é chamada, acima de tudo, a viver o amor de unidade e a prestar o serviço da oração e da intercessão, como uma irradiação que salva e recria, a partir de seu ser em Deus. Os mosteiros são sementeiras de vida espiritual, que oferecem o vigor de rebentos novos e renovados de vivência no Espírito. As Clarissas desejam permanecer abertas ao diálogo, à renovação, à reconstrução da dimensão contemplativa. Desejam viver o seu primeiro e fundamental apostolado, o de ser Igreja, de viver e ser comunhão na Igreja, de realizar sua missão na Igreja.
fonte: http://clarissasclarissas.blogspot.com.br/2010/10/clarissas-no-brasil.html

sábado, 19 de janeiro de 2013

Silêncio e contemplação em Clara de Assis

Na esteira da comemoração dos oitocentos anos do carisma clariano, continuamos a refletir sobre a figura ímpar desta notável fundadora de um estilo original de vida evangélica e contemplativa na Igreja.  Apoiados no texto da Irmã Angela Emmanuela  Scandella, OSC,  Chiara ‘Alta donna di contemplazione’, Sette parole per il nostro ‘oggi’, in  Italia Francescana 2012/1, p. 17ss,  vamos refletir sobre o silêncio e a contemplação. Limitar-nos-emos a citar os elementos evidenciados pela autora.

Silêncio

Pensar em Clara é pensar numa  mulher envolvida pelo silêncio, não um silêncio ritual e forçado, mas buscado, cultivado, alimentado. Pode-se dizer que ela foi “habitada pelo silêncio”. Não podemos deixar de pensar, é claro, no silêncio exterior amplamente documentado pelas Fontes, mas, sobretudo, pensamos naquele silêncio interior, feito de solidão e de escuta, tecido do harmonioso equilíbrio entre o silêncio e a palavra. Bento XVI em sua Mensagem para a Jornada  Mundial da Comunicação  Social  (2012), recordando uma homilia sua de 2006, dizia: “Na loquacidade de nosso tempo, na inflação das palavras, urge tornar presente a Palavra, a Palavra que vem de Deus, a Palavra que é Deus”.  Isto só é possível com uma purificação de nosso pensar. Será urgente um trabalho de burilar  nossas palavras.  Necessitamos de um silêncio que se torne contemplação. Ora, a vida de silêncio das Irmãs Pobres de São Damião tinha, e tem, essa finalidade: permitir que o Deus-Palavra possa dirigir-se  ao fundo do coração dos que o ouvem. Não se trata, como foi dito, de um mero silêncio exterior, mas desta organização existencial de tal sorte que as antenas mais profundas da pessoa não estejam ligadas  a coisas, por vezes, tão desnecessárias, tão “desarrumadoras” da paz interior.  O silêncio exterior ajuda à amada do Amado a não se “distrair”. Respirando em casa um clima de recolhimento exterior, o coração começa a viver harmonia que é terra mais propícia para a contemplação.
Michel  Hubaut, refletindo sobre o tema do silêncio interior, lembra que quem quer fazer silêncio para ouvir a Deus  e unificar sua existência, aprende a descer até o  deserto interior de seu coração, onde o Espírito marca encontro. Aos poucos, o ouvinte do silêncio vai se dessolidarizando do que é fugaz e sem valor verdadeiro. Não despreza nada, mas tudo relativiza. Os santos  “profundamente presentes  à vida de seus contemporâneos são cidadãos de uma pátria invisível, mais real, no entanto, que qualquer realidade  humana. A experiência nos leva a  dizer que somente a graça de Deus  pode fazer da solidão um espaço de silêncio interior que abre a fechadura  da vida íntima do homem onde o Espírito murmura e Deus fala”.

Contemplação

Mais uma palavra de Clara para os tempos de ontem e de hoje: vida contemplativa como vigília, uma longa vigília que dura a vida inteira, esperando aquele que está para vir, esse alguém que feito de desejo, deixando ressoar em nós o desejo por ele como eco de seu desejo por nós.
Entrelaçam-se aqui os temas da vigília, do desejo que desemboca num estado de vida contemplativo. As Fontes  fazem alusão às vigílias noturnas de Clara, longas vigílias, longas e solitárias “vigilante e incansável”  segundo a Legenda (n. 19), para recolher o veio do sussurro  furtivo (cf  Jó 4, 12) que  Gregório Magno interpreta como o falar do Espírito. “É a experiência da presença e da ação  do Espírito que, em nós, nada mais faz do que repetir, desde o dia de nosso Batismo, aquele Verbum absconditum, para mencionar ainda aquele versículo de Jó,  Verbum que é Jesus Cristo”. Silêncio, Verbum e contemplação.  A Legenda continua: Clara “parecia sempre ter o seu Jesus entre as mãos”, porque o  Senhor é Espírito, recorda São Paulo (2Cor 3,17).  Trata-se do tema dos esponsórios que Francisco aborda  na Carta aos Fieis (1, 5-8).  A experiência espiritual de Clara é uma viva exegese de Francisco. Deus em nós pela presença e ação do Espírito.  Não se trata de uma atualíssima palavra  para nós que vivemos derramados nas coisas  como que vivendo exilados de Deus? Irmã Angela escreve:  “Nossos mosteiros, com sua pobreza  e  fragilidade, continuam sendo aquelas casas  (domus), mesmo deterioradas, mas consagradas à interioridade. Lugares em que restaurando o coração se restaura, tenaz e  humildemente, a Igreja, a Domus Dei em ruína”. Bento XVI, em visita às clarissas  por ocasião de sua visita a Assis, em 17 de junho de 2007, dizia: “Vós nos precedeis no caminho da conversão”. Quando a conversão é verdadeira, não faz barulho. Muitas vezes faz sorrir que  certamente é mais proveitoso do que ficar choramingando pelas contrariedades de cada dia. A ação do Espírito do Senhor purifica, ilumina, transforma  e aponta os  passos a serem seguidos para que seja bem percorrido o caminho da conversão.  Aqui ainda uma palavra atual e para o hoje: uma vida que se enfrenta o risco de  expor-se a Deus numa cultura que não quer correr  risco.
fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=29213
Frei Almir Ribeiro Guimarães