sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O PERFUME QUE VEM DE ASSIS

Certa vez, um autor escreveu que alguém já nasce franciscano. Não creio que seja assim. As pessoas vão se tornando franciscanas ao longo do tempo. Não é quando entramos para a fraternidade, nem mesmo quando fazemos a profissão que atingimos o ideal. Temos a vida toda para aspirar o perfume que vem de Assis.  Há incontáveis pessoas que sem nunca terem ingressado num dos ramos da Ordem transpiram o perfume que deixou na terra o Pobrezinho de Assis.

        Os  cristãos franciscanos são pessoas caracterizadas por uma amplitude e largueza de coração.  Não são mesquinhos. Não usam medidores para dizer que vão até aqui e não até ali. Essa generosidade se manifesta numa grande compreensão pela fragilidade humana, num voto de confiança no outro, na capacidade de perdoar aquilo que objetivamente está errado, mas que nasce da fragilidade.  Os franciscanos se sentem tão cumulados de bens e graças pelo  Altíssimo e Bom Senhor que olham o mundo com compreensão generosa.

        O franciscano não envelhece. Está sempre se surpreendendo  com as visitas e iniciativas de Deus. Hoje o Senhor se manifesta no filho que nasce, no irmão que chega, no médico dedicado, no vizinho  que entra trazendo um pacote de peras junto com seu largo sorriso.  O franciscano está sempre em estado de maravilhamento diante de tudo. Por isso nunca envelhece.

        Os cristãos que se deixam guiar por São Francisco são pessoas capazes de amor precisamente porque têm um coração generoso. Amam a Deus, amam as pessoas, amam a natureza. Escondem-se no mistério de Deus na oração, são corteses para com os que encontram e sabem preservar a pureza da água, admirar o irmão sol e proteger o verde. São generosos no amor.

        Os franciscanos gostam de cantar, mesmo aqueles que não são muito afinados. Francisco foi um cantor de Deus e um dançarino  diante do Altíssimo. O franciscano gosta de cantar e mesmo a mais vozes. Os conselhos e ministros de nossas fraternidades devem sempre cuidar do canto. Não apenas do canto solo, mas do canto que brota do peito alegre de todos os irmãos.  Uma fraternidade franciscana sabe cantar, até mesmo a chegada da Irmã Morte.

        Os cristãos franciscanos, com sua simplicidade de espirito, procuram ser pessoas profundamente retas e leais. Têm a preocupação de abolir tudo o que é supérfluo. Não acumulam. Não ficam preocupados em logo adquirir os últimos avanços da técnica para seu uso pessoal.  Vestem-se com bela singeleza e têm a preocupação de ser e de não apenas aparecer. Acreditam na Providência e assim não mostram rosto sombrio. Corajosamente  lançam o seu olhar para o amanhã.  Deus que esteve com eles todo o tempo no passado, não lhes faltará no futuro. Lembram-se de Francisco de Assis que, diante do bispo de  Assis, despojou-se dos bens paternos e voltou-se para o amanhã dizendo: “Pai nosso que estais nos céus...”

        Não se nasce franciscano. Na medida em que vamos convivendo com os irmãos e irmãs  verdadeiramente livres de posses e apegos,  amantes e arautos da paz e do bem, vamos aprendendo, mesmo timidamente,  a ser cristãos à maneira de Francisco.  Assim aspiramos um perfume que vem de Assis.
fonte: http://www.franciscanos.org.br/v3/almir/bau/2011/07/03.php

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Clara Hoje

CLARA HOJE
Uma voz que não se cala
Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos foi posto no presépio! Admirável  humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela  morrer a morte mais vergonhosa (4ª. Carta a Inês de Praga).
Cada geração é salva pelo santo que a contradiz  (Chesterton).
Dou graças ao Senhor por todas as vezes que, exatamente junto a um mosteiro, desde frade jovem pude fazer a experiência de “cura” recolocando em ordem harmoniosa os valores evangélicos de minha vocação e missão, graças à ajuda das irmãs clarissas.  Muitas vezes pedi hospitalidade em seus mosteiros para dar novo tom espiritual à minha vida. Obrigado a todas vós, irmãs clarissas, por esta função “terapêutica” tão importante para a caminhada vocacional de uma pessoa consagrada (Fr.  Giacomo Bini, OFM, Ex- Ministro Geral).
1. Estamos nos preparando para celebrar em 2012 os oitocentos anos da existência da Ordem das Clarissas. Clara entrou na história ao nascer em 1193 e continua presente no até nossos dias depois de sua morte ocorrida em 1253. Celebrar o centenário das Irmãs Pobres de São Damião é ocasião de revisão da vida das irmãs hoje e tentativa de ver como o carisma de Clara e de suas primeiras companheiras pode enriquecer a vida dos frades, dos franciscanos seculares e do mundo. Constituímos uma família, uma bem-aventurada família, uma família franciscano-clariana. Laços espirituais nos unem e, na reciprocidade de nossos contatos, tornamo-nos espiritualmente mais robustos. O que Clara tem a dizer aos nossos tempos? Como as Irmãs Pobres poderão ser um grupo significativo nesses nossos tempos? Como os franciscanos seculares poderão beber  da fonte que brotou ( e continua jorrando) desse abençoado espaço que se chama São Damião, por onde circulavam Clara de Assis e suas  irmãs? O que tem Clara a dizer aos nossos tempos?
2. O carisma franciscano se completa admiravelmente no binômio Francisco-Clara. Em Carta dirigida às Clarissas por ocasião de outro jubileu da santa, o Ministro Geral dos Menores assim se exprimia: “Irmãs, minha profunda convicção é esta: necessitamo-nos reciprocamente. Mutilaríamos o carisma se caminhássemos separadamente. Não desejamos e não podemos percorrer estradas paralelas. Caminhando unidos, respeitando nossas diferenças, jogamos tudo: a fidelidade a Francisco e a Clara; a eficácia evangélica de nossa missão na Igreja e no mundo; a credibilidade diante daqueles que, hoje como ontem, estão convencidos de que Francisco e Clara são duas almas  gêmeas inseparáveis”.  Admirável e delicadamente feminino e masculino se encontram na busca ardorosa do seguimento do Cristo todo despojado.
3. Os Ministros Gerais da Primeira Ordem e da TOR publicaram Carta por ocasião do jubileu de 2012. As clarissas são as guardiãs do carisma clariano: “Chamadas pelo Espírito a seguir o Cristo pobre, crucificado e ressuscitado, vivendo o santo  Evangelho em obediência, sem nada de próprio e em castidade, vós sois as guardiãs do carisma clariano, mulheres consagradas que interagem com o mundo, contemplando os sinais que o Espírito semeia e difunde na história. Na escuta de Deus, vós falais hoje ao coração dos homens e das mulheres do nosso tempo com a linguagem do amor, cujas palavras se fundam na raiz da existência habitada por Deus” (...). As irmãs saberão conjugar as raízes do passado com a profecia do futuro: “Aos consagrados e consagradas se pede manifestar o absoluto de Deus. Vós, de um modo particular, sois chamadas a viver uma vida fundada sobre os sinais e símbolos que não remetem ao vazio de um estéril doutrinamento, ritualismo ou ativismo, mas que saibam conjugar hoje as raízes do passado e a profecia do futuro: estruturas, sinais e símbolos que simplesmente fazem ver a Deus”. Há, pois, um apelo a que, também, as clarissas sejam fiéis criativamente. O carisma de Clara não pode ser blindado a uma época. O Espirito não se deixa amarrar. Coloca-se sempre essa questão:  Como as clarissas, nesse mundo que é o nosso, saberão unir o passado e o presente?
4. Houve naquela noite do domingo de ramos a fuga noturna de Clara. Ela ouve a voz do Amado que a chama ao deserto. Ela se dá conta que um caminho se abre diante dela. A decisão podia ser tomada, mesmo que comportasse desafios. Estava na hora de sair e procurar uma terra distante como havia feito Abraão, caminhar sem mapa na mão para uma terra que Deus haveria de mostrar. Claire-Pascale Janet, numa biografia original, coloca as seguintes palavras na boca de Clara: “Está decidido. Como esperar mais ainda aquele que se entregou totalmente?  Nesse tempo da Quaresma ouço o convite que ele me faz:  'Vem, eu vou te levar ao deserto para falar ao teu coração, e tu me responderás com todo o teu ser, com todo o teu coração e com todas as tuas forças. Sinto como que uma queimadura o amor que levou Francisco de ruptura em ruptura.  Eis o que eu procuro: a pobreza de Cristo. Um caminho novo diante de meus passos”.
5. Na história de nosso seguimento de Cristo à  maneira de Francisco também deixamos para trás tudo e lançamo-nos na aventura franciscana. Uma quase menina ousa deixar a família, vender os bens, seguir um caminho que lhe é sugerido pelo Altíssimo sem maiores indicações. Acredita, tem fé no Senhor. Vislumbra em Francisco e seus irmãos a porta por onde deve passar. Cada franciscano e cada cristão à luz dessa fuga da nobre Clara iluminará sua própria vocação.  Não se pode apenas dizer-se franciscano mas ir em frente, esperar que o Senhor nos mostre seus desígnios, estar atento à loucura e insensatez do coração e à terrível tentação do desencorajamento e do desencanto. A fuga de Clara leva-nos a rever o modo como estamos vivendo a nossa aventura espiritual. Clara saindo de casa, foi à Porciúncula, depois esteve em São Paulo das Abadias e Santo Ângelo de Panzo... e  São Damião.  E ali, no exíguos espaços de uma clausura  teve um coração de forasteira e peregrina repetindo a ladainha do “queres de mim Senhor?”
6. Hoje vivemos o tempo da pós-modernidade.  Nessa era da liberdade contra as imposições, do respeito pela pessoa, do diálogo, da tolerância  assiste-se também à degradação dos valores absolutos  surgindo a era do vazio e o crepúsculo do dever, como dizem os especialistas. A sociedade dita do vazio é fraca, fragmentada, descontroladamente pluralista, que aplaude os valores como o hedonismo, o uso imediato das coisas e das pessoas,  essa era do relativismo.  Os que contemplam Clara ficam admirados de ver o  modo como ela concebeu a vida, a leitura que faz dos acontecimentos e de amá-los em Cristo.  Clara fascina pela nitidez no seguimento de Cristo e, sobretudo, na busca desse valor absoluto que é o Senhor na incansável busca de seus desígnios.
7. Pobreza  e alegria – Quando Clara escolhe seguir radicalmente o Cristo abandona realmente a tudo: segurança da família, as riquezas e os privilégios de linhagem nobre, o casamento, a possibilidade de ajudar melhor os pobres. Liberta-se de tudo e ganha um coração alegre e livre, aberto e transparente. Nenhum tipo de posse pode cobrir de nuvens sua alegria. A pobreza  de Clara e de Francisco é seguimento radical do Cristo. O caminho de Cristo em sua humilhação é o que revela a Clara  a grandeza da altíssima pobreza. Identificar-se com  Cristo pobre dá acesso à alegria do Reino e a seus tesouros. “Esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas irmãs caríssimas, herdeiras e rainhas do reino dos céus, pobres em coisas, mas sublimadas em virtudes. Seja esta a vossa porção que vos conduz à terra dos vivos” (Regra 8). Clara não canoniza a miséria e a pobreza, mas abraça a pobreza de Cristo. Num mundo que não conhece a verdadeira alegria, mas o ruído e  agitação, num mundo marcado por um consumismo devorador, num mundo insatisfação e de vazio, mundo em que o fundo dos olhos dos homens revelam desencanto Clara brilha como mulher alegre em seu despojamento. A grande maioria dos mosteiros de clarissas tem espaços de beleza na singeleza da  pobreza.  Eis aí uma grande lição!
8. Dirigindo-se às clarissas, os Ministros Gerais escrevem: “Cada fraternidade se torna sinal alternativo nos lugares de opulência e sinal de esperança  entre aqueles que vivem na precariedade, através do testemunho e da própria entrega e da confiança no Pai revelado por Jesus Cristo. Não uma pobreza ideológica ou intelectual, mas um estilo de vida que testemunha a confiança total no Pai, que toma forma no cotidiano da existência. Não faltam de fato no mundo algumas experiências de fraternidades que escolhem testemunhar uma vida extremamente sóbria, para serem solidárias com os pobres e confiarem somente na Providência, viver cada dia da Providência, na confiança de colocar-se nas mãos de Deus” (...).  “Vós nos ajudais a degustar a alegria da liberdade porque, contemplando, vedes  a Deus em cada aspecto da vida. Demonstrais que não seguis  as modas de hoje, que não estais em concorrência com o mundanismo, onde as aparências, a exageração exposição do ego, o individualismo,  a auto-referência colocam na sombra a  obra de Deus. Vós nos contais a vossa história com Deus que se nutre do silêncio, da escuta e da profundidade espiritual”.  A pobreza de Clara e de Francisco atribuem a Deus toda força e todo louvor.  Só ele é o bom, o sumo bem... Só ele é o Senhor.
9. O amor em fraternidade  -  A fraternidade é outra das marcas do carisma clariano. A pobreza brota do Amor. Amor que vem de Deus que une as irmãs, promove a estima pelos de fora, pela criação. Amar aos homens e ao mundo porque  Deus os ama. Para Clara, o sopro do Espírito do Deus-Amor é quem reúne as irmãs em fraternidade para a partilha da vida evangélica sugerida por Francisco. Cada irmã é um presente do amor do Pai e todas constituem a fraternidade para construir a unidade no mútuo amor. O amor verdadeiro é o oposto do individualismo e o egocentrismo. É amor para dar amor. Clara sabe viver o mútuo amor feito de prestações de serviço e da reciproca obediência.  Ela e suas irmãs tinham a consciência de terem sido chamadas a construir uma Igreja viva, construída do amor fraterno, vocação de ser fraternidade, porque o projeto de Deus Pai é criar uma família de filhos e irmãos. Por isso, a fraternidade para Clara será tecida de relacionamentos de  amor que unem as irmãs de um modo familiar, fraterno, materno com uma tão grande profundidade que só pode brotar do Evangelho. “Se uma mãe ama e alimenta a sua filha segundo a carne com quanto mais solicitude não deverá amar e nutrir sua irmã espiritual” (Regra 8).
10. A Fraternidade é o âmbito privilegiado em que se dá testemunho de um Deus que é comunhão na diversidade e diversidade na comunhão. Por isso, a fraternidade será sempre  um elemento irrenunciável do projeto franciscano-clariano. A fraternidade se manifesta em gestos marcados  pelo afeto que mostram uma relação transparente, sem duplicidade, baseada na simplicidade, na familiaridade e no reconhecimento dos dons que Deus deu a cada um. Corações puros como os de Francisco e de Clara são capazes de descobrir com admiração e respeito a obra do Espírito nos outros. “Se a Fraternidade é dom que se acolhe com fé e gratidão é, ao mesmo tempo, uma tarefa e, como tal deve ser construída e guardada. Por  uma lado, edificamo-la em base a relações humanas profundas, através do cultivo das qualidades requeridas em todas as relações humanas. Por outro lado, por ser a Fraternidade um tesouro que trazemos em vasos de barro é necessária guardá-la atentamente. Nesse contexto,  não nos admiramos que Clara faça suas as exortações de Francisco. Quer que as irmãs se guardem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, da detração e da murmuração, da dissenção e da divisão”  (Regra 10).  Será preciso uma colaboração entre o dom de Deus e o esforço pessoal.”.
11. O Ministro José R. Carballo observa ainda: “Para ser uma proposta de vida evangélica, a Fraternidade deve ser autêntica, concreta, íntima. Por esse motivo, ao mesmo tempo que pede às irmãs que uma manifeste à outra com confiança suas necessidades (Regra de Clara 8; cf. Regra Bulada 6), Clara as exorta a manifestar através de obras, o amor que professam: “Amando-vos umas às outras com a caridade de Cristo, demonstrai-vos por fora, por meio de boas obras, o amor que tende por dentro, para que provocadas por este exemplo, as Irmãs cresçam sempre no amor de Deus e na mútua caridade (Testamento 59-60). E se entre elas houve alguma desavença ou algum escândalo, as Irmãs não devem  deixar-se levar pela ira ou pela perturbação, mas devem manter a paz no coração  e apressar-se em perdoar para curar as feridas (cf. Regra 8; cf;. Regra Bulada 6), conscientes sempre do fato de que a unidade no amor mútuo é o vinculo da perfeição” (Regra 10) e que a fraternidade se constrói a preço da reconciliação e do perdão” (Vida Fraterna em Comunidade).  (Clara de Assis e de hoje. Um coração conquistado e seduzido pelo Senhor. No 750º  aniversário da morte de Santa Clara e da aprovação de sua Regra).
12. Vivemos numa sociedade onde impera o egoísmo, temos que reconhecer os efeitos demolidores do individualismo que nos assedia de todos os lados. O amor fraterno de Clara em fraternidade é tão atual quanto necessário. Trata-se de um espírito de família. As irmãs possuem o espírito de amoroso serviço, tentativa de converter o afã de dominação de uns sobre os outros pelo espirito de doação. “Neste mundo  dessolidarizado da pós-modernidade, em que cada um cuida de suas coisas, em que se reivindica a ambiguidade como estilo, em que o hedonismo é tido como valor, onde o homem quer o mínimo de coações e o  máximo de escolhas particulares, o mínimo de austeridade e o máximo de desejo, Clara nos oferece a mensagem do amor em fraternidade, amor solidário com todos os homens, para realizar o projeto de Deus Pai: uma família solidária que viva relacionamentos de amor, que viva o amor na fraternidade” ( El legado carismático de Clara en um mundo postmoderno, Maria del Carmen Elcid , revista  Vida Religiosa, n. 3, 1994, p. 228).
13. O valor do Absoluto - Clara é essencialmente uma grande contemplativa, toda a sua vida consistiu em amar absolutamente, em viver face a face com o Absoluto para ir conformando-se com ele cada vez mais.  Para ela, a oração vivida como um relacionamento esponsal e pessoal é como a respiração da alma, é diálogo de amor, é o querer e realizar as coisas de seu  Amado Jesus. Unida intimamente a Jesus quer apresentar ao Pai toda honra e toda a sua glória. A contemplação foi constante em sua vida. Embora ela não consistisse para ela em fenômenos extraordinários, Clara recebeu iluminações excepcionais a respeito do mistério de Deus. Compreendeu existencialmente o que quer dizer abertura à graça e docilidade ao Espírito. Para poder adorar o Pai em espírito e verdade será preciso cuidar do centro vital do espírito que conecta com o Absoluto: o coração como lugar e diálogo amoroso da frágil criatura com o Deus Altíssimo.
14. A oração é um exercício de amor.  Que as irmãs trabalhem e trabalhem diligentemente. Assim evitarão o ócio que é inimigo da alma. Mas que não percam o espírito da santa oração (cf. Regra 7). Antes de tudo a oração.  Vivendo intensamente esse relacionamento íntimo, Clara não deixou nenhum tratado sobre a oração, não sistematizou seu relacionamento pessoal com o Cristo Pobre. Através de seus escritos, no entanto, descobrimos a contemplativa, a orante por excelência que convida ao silêncio interior e exterior como espaço privilegiado para perceber e acolher o Absoluto.
15. O coração de Clara nunca se saciava. Tanto na saúde quanto na doença, entregava-se à oração. A Bula de Canonização diz que ela consagrava  à oração a maior parte do dia e da noite.  Clara se serve do vocabulário bíblico para descrever a união com Cristo, seu amor esponsal: “Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!  Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês).
16. O que é a contemplação?  Frei José Rodriguez Carballo assim fala sobre o assunto: “Partamos de um texto da virgem Clara. A Santa escreve para Inês com o intuito de ensinar-lhe a contemplar. Não lhe pede que fale, cante ou reflita, mas somente que ponha a sua mente, sua alma e seu coração em  Jesus Cristo: “Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma no esplendor da gloria. Ponha o coração na substância da figura divina e transforme-se inteira pela contemplação, na imagem da divindade” (3ª. Carta a Inês  12-13).  Nisso consiste a contemplação: pôr, colocar, ordenar a mente, a alma e o coração que estejam  constantemente “voltados para o Senhor”, como diz São Francisco. Ele, e só Ele, deve ser o centro da capacidade de compreensão (a mente), o centro da capacidade de amar ( o coração) e o centro da capacidade de viver no mundo de Deus ( a alma). Desse modo, a contemplação abarca toda a pessoa” (Carta às Clarissas do  ano de 2006).
17. Pela contemplação de Cristo, Clara se tornou imagem da divindade e com todas as veias de seu coração escrevia a Inês de Praga: “Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei Celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor: Arrasta-me atrás de ti. Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!  Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz e me dês o beijo mais feliz de tua boca” (4ª. Carta a Inês, 27-32). Em seus escritos e suas cartas, Clara levanta o véu de sua contemplação marcada pelo ardor do desejo e o experimentar a doçura escondida que Deus revela aos que o amam.
18. Essa centralidade do Absoluto em Clara está em contradição com a época pós-moderna em que busca coisas e satisfações fragmentadas.  Não existe a história, mas acontecimentos isolados. Não existe o absoluto, mas o relativo. Tudo é provisório.  Tudo é parcial.  A vida de oração e, sobretudo de contemplação, é uma contribuição de Clara para os nossos tempos. Essa imersão no Amado lança luz sobre nossa oração tão separada de nossa vida e de nosso projeto de vida, oração tão mecânica e tão pobre. Somos convidados a rever nossa vida de busca do Absoluto. Clara grita aos nossos ouvidos.
Concluindo
A. Clara viveu a aventura de Deus. Entregou-se nas mãos do Senhor. Saiu de casa sem o mapa do caminho.  Entregou-se sem reservas à maneira de Abraão. Ele quer que hoje  questionemos  o “nosso ponto” de partida, a vivência de nossa vocação que haverá de fazer numa entrega irrestrita ao Senhor dentro das condições de seculares que são os terceiros franciscanos e de religiosos que são os frades.  Por sua vida, Clara grita esse testemunho.  Não somos donos de nós. Que o Senhor possa fazer uma obra de arte em cada um de nós! As coisas não estão acabadas.

B. Os franciscanos, sejam eles quais forem, são pessoas despojadas, sem trunfos, sem exigências, sem reivindicações na linha do poder, do prestígio, do ter. Clara e as irmãs de São Damião viviam em total simplicidade e modéstia, viviam de esmolas e, nos começos, as pessoas não eram generosas nas esmolas. Casa modesta, cama modesta, comida modesta,  muitas vezes vida de penúria. Clara ensina os franciscanos da Ordem 1ª a levar a sério o compromisso de pobreza evangélica. Sugere que as Fraternidades Seculares sejam constituídas de pessoas simples, sem pose, sem pompas. Gente que não dá importância às aparências, aos aplausos e todo tipo de superioridade, gente com um estilo de vida pobre. Muitas irmãs clarissas, em nossos dias, vivem realmente a pobreza e espelham a alegria de terem pouca bagagem na caminhada da vida.

C. Ser franciscano é ser cultivador da fraternidade. Desafio constante. Nunca matamos completamente o Caim que existe em nós. Vemos Clara cuidando das irmãs, cobrindo-as no tempo do inverno, acolhendo com carinho as que saíam para esmolar, sendo mãe e irmã. Tudo se passa no exíguo espaço dos lugares de São Damião. O nome verdadeiro das clarissas é o de irmãs pobres. O exemplo de Clara e as observações de sua Regra pedem que nos interessemos mais uns pelos outros, que preparemos cuidadosamente nossos encontros fraternos. Os franciscanos seculares, no momento atual, estão empenhados e rever a qualidade de sua vida fraterna e, de modo particular, a maneira como realizam os encontros fraternos. Clara grita que precisamos  viver o bem-querer concreto.

D. A grande atividade de Clara e de suas irmãs era a da oração: ofício, missa, longas horas de meditação, contemplação da Paixão de Jesus e do Crucifixo bizantino. Clara, como Francisco, pede que as irmãs, no meio de seus trabalhos, não venham a perder o espírito da santa oração. As cartas dirigidas a Inês de Praga nos falam de uma oração de união. Os franciscanos, tanto os seculares quanto os da Ordem 1ª, gostam de passar um tempo junto ao mosteiro das clarissas. Clara está gritando que toda esse nossa correria, esses discursos e essa nossa fala pouco adiantam.  Sentimos que precisamos rever a qualidade de nossa oração.  Não é possível  viver sem saudades do Senhor. Precisa haver lugar em nossas agendas a tentativa, nem sempre fácil, de buscar  o Esposo que não quer partes de nós mas a inteireza de nosso ser.

E. Os Mosteiros de clarissas serão cada vez mais próximos das pessoas, sem que percam o essencial o carisma. Suas liturgias serão eloquentes. Momentos de oração e tarde de retiro podem ser feitos em nossos Mosteiros. Franciscano seculares poderiam melhor haurir as riquezas desses Mosteiros.

F. De toda nossa reflexão ficou claro que os franciscanos e as clarissas precisarão descobrir caminhos novos a serem trilhados.  Não cansamos de repetir que se torna urgente uma fidelidade criativa. Renovar ou morrer.

G. “Hoje somos vítimas de tensões, do “stress”  e da depressão que ameaçam nossa ‘saúde’ espiritual. Talvez uma das tarefas de Santa Clara poderia ser a de ajudar-nos a reencontrar a harmonia dos valores franciscano-clarianos,  a gratuidade e a beleza de nossa vida, sem pretensões de eficiência.  É fácil sermos instrumentalizados  pelas necessidades imediatas e perdermos a visão de conjunto, a capacidade de discernir aquilo que é urgente, daquilo que é necessário;  preocupamo-nos com muitos projetos que programamos ou que nos são propostos pelo mundo consumista em que vivemos e corremos o risco de esquecer o compromisso primário de ser  “projeto de Deus”. Creio que seja urgente, hoje, renovar e continuar a colaboração entre Clara e Francisco para evitar toda forma de “insânia”, de “esquizofrenia”  que destrói a própria vida consagrada”  (Frei Giacomo Bini, OFM).
Clara não reivindicou  para ela e suas irmãs o direito de pregar ou ensinar, mas desejava ardentemente  continuar vivendo em simbiose com os irmãos menores e recusava a ideia de ver a sua comunidade transformar-se em um mosteiro de virgens reclusas e dotadas de rendas;  se parece não ter tido dificuldade em aceitar a estabilidade e a clausura, à semelhança das reclusas, que, aos mesmo tempo que se dedicavam à contemplação, guardavam contato como mundo que as rodeava, Clara sempre recusou ceder no capítulo da pobreza, porque o fato de viver numa precariedade permanente  constituía o ponto sobre o qual  a sua fundação podia, diferenciando-se do monarquismo beneditino clássico, permanecer fiel ao Espírito do Poverello e, através dele,  com as aspirações evangélicas que haviam animado os movimentos leigos do século XI e começos do século XIII.
André Vauchez -Santa Clara y  los movimientos religiosos femininos de su tiempo
Selleciones de Franciscanismo, 1977, vol 26, p. 452

ITINERÁRIO FRANCISCANO

Pretendemos, ao longo do ano de 2011, transcrever páginas franciscanas densas  que possam ser alimento para todos os que buscam a perfeição do Evangelho através do carisma franciscano. A página deste número foi tirada do livro:  Itinerário da Alma Franciscana, de Frei Leão Veuthey, OFMConv.. traduzido do italiano e publicado  pelos franciscanos de Montariol-Braga em 1948. Tiramos uma página do fundo do baú! Que não se estranhe o jeito “português” de escrever. Que não se critique um  certo estilo antigo de falar das coisas. Há, quem sabe, aqui ou ali, uma concepção de espiritualidade meio superada. Cada um leia o texto com senso crítico. Os círculos ou grupos  vocacionais franciscanos poderão, com proveito,  refletir sobre este tema. 
1. Itinerário de vida
Antes de empreender uma grande viagem, começa-se por organizar o itinerário: o termo que se deseja alcançar, o caminho a seguir, e os diversos meios necessários e apropriados para chegar ao fim.  Ora, o homem é um viageiro sobre a terra; vai passando por um tempo muito breve, sempre a caminho da eternidade, para onde o impele  uma força irresistível, uma necessidade insuperável.

O que será para mim essa eternidade, esse abismo em que tenho que cair inevitavelmente, depois da carreira veloz da vida? Como será essa eternidade: feliz ou infeliz? E se eu posso escolher a felicidade ou  a infelicidade sem fim: não será de importância suprema estabelecer bem o itinerário  que conduz à felicidade, evitando assim a infelicidade eterna?

A vida presente termina com a morte, e com a morte começa a eternidade: como será para mim essa eternidade? Eis a questão que se põe a todo homem, ainda que não queira!  Todos desejam naturalmente a felicidade eterna: mas, qual será  caminho?  Muitos o ignoram. Todavia, o cristão o conhece, conhece o caminho da felicidade.  Foi Jesus quem disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.  Só Jesus pode indicar o caminho a seguir, porque só é Ele é o caminho; só Jesus pode conduzir ao termo, porque só Ele é a verdade; só Jesus pode levar-nos a esse termo, porque é sobrenatural, porque só Ele pode comunicar-nos a sua vida sobrenatural, que nos fará participante da vida divina e da divina eternidade à qual somos chamados.
2. Diversas espiritualidades
Jesus indicou a todos os seus discípulos o itinerário da felicidade:  Jesus é, pois, o caminho a seguir. Entretanto, são diversos os modos de seguir a Jesus:  alguns, abandonando tudo por seu amor, consagram-se ao seu serviço, mediante os três votos de pobreza, obediência e castidade; outros, porém, o seguem no mundo, sem abandonarem os próprios bens, sem se ligarem com voto de obediência a um superior, vivendo no matrimônio. O itinerário é diferente, no entanto, uns e outros, com maior ou menor facilidade, com maior ou menor segurança, poderão alcançar o termo.

Esta diferença de itinerário é, sobretudo, material e exterior, e  na escolha de um itinerário pode haver uma diferença interior e espiritual que se chama precisamente espiritualidade.

Assim, há na Igreja de Cristo: uma espiritualidade beneditina, uma espiritualidade dominicana, uma espiritualidade inaciana, uma espiritualidade franciscana, etc.; cada qual é boa e santa e logra as suas vantagens e têm produzido os seus santos.

Uma espiritualidade não se distingue doutra em razão da doutrina fundamental, que é a mesma em todas: a doutrina de Cristo, a doutrina do Evangelho; no entanto existe um modo e uma maneira de seguir a Cristo; na identidade da doutrina pode haver uma variedade de interpretação, uma variedade de espírito; é isso que constitui a espiritualidade particular.

A espiritualidade franciscana terá, pois, muitos pontos comuns com as outras espiritualidades cristãs, pelo fato de todas professarem a mesma doutrina, mas distinguir-se-á das outras em razão de seu espírito, e da importância que atribui este ou àquele ponto da mesma doutrina. Enquanto que as outras espiritualidades atribuem particular importância ao esforço pessoal para chegar à união com Deus, a espiritualidade franciscana busca, acima de tudo, aquela união com Deus no amor, e desta união tira toda sua atividade; enquanto que aquelas tendem primeiramente ao desenvolvimento das atividades e das possibilidades naturais, para chegar depois à perfeição sobrenatural, esta renúncia à natureza, logo de início, e entrega-se toda, inteiramente, à ação sobrenatural de Deus, sob a qual somente pretende agir e da qual somente espera toda perfeição natural e sobrenatural. E, assim, enquanto que as outras espiritualidades são principalmente ativas,  a espiritualidade franciscana é caracteristicamente passiva, unicamente sobrenatural, fora de todo dualismo de vida natural e  vida sobrenatural; a espiritualidade franciscana é mística, inteiramente  e por princípio, quer dizer, sobrenatural, porquanto inteiramente por princípio pretende desenvolver-se pela ação sobrenatural ou mística do amor divino.

Por isso, enquanto as outras espiritualidades assentam na base do espírito espiritual a obediência, o silêncio, a especulação e o esforço pessoal, a espiritualidade franciscana fundamenta-se na pobreza, considerada em toda a sua profundidade mística de renúncia, desapego de tudo, desapego pessoal, a fim de que a alma, despojada completamente  e aniquilada em Deus, permita que Deus venha viver e operar em si. Desta pobreza, procederá a obediência, pois a alma vazia de si mesma, já não tem vontade própria. A especulação , sendo atividade demasiado pessoal e humana, cederá ao amor  que é dom de si mesmo, é passividade mística sob o império do Amado.

Ora, o Amado é Jesus que, pela espiritualidade franciscana concreta, constitui toda a perfeição: portanto, nada de virtudes abstratas a conquistar, uma após outra, com a  meditação e a vontade própria:  mas conquistar Jesus, concretização de toda virtude, amando-o, contemplando-o e imitando-o!  Quer dizer:  será perfeito quem se transformar no objeto amado, como exige a lei do amor. “O amor transforma o amante no Amnado” (São Boaventura, III S., 26; III, 270). “Pela força do amor, serás transformado naquilo que amares”, diz nosso Doutor Seráfico (Sermo  XI, Vig. Nat. IX, 98).
3. Espiritualidade franciscana
A espiritualidade franciscana – mística, concreta e afetiva – não conhece outra regra de perfeição, que não seja observar  Jesus, amá-lo de afeto e de fato, e assim transformar-se nele até poder dizer com São Paulo:  “Já não sou eu quem vivo, mas Jesus que vive em mim” (Gálatas 2,10). Para  São Francisco, todas as coisas eram intuitivas, obra espontânea do amor;  contudo, ajudará o crescimento de nossa vida espiritual investigar a profundidade de doutrina que se esconde sob esta simples intuição de amor: toda a doutrina do aniquilamento próprio e transformação em Cristo, visa a nossa incorporação  no seu  Corpo Místico.

O aniquilamento é obra da pobreza, levada às suas últimas consequências de renúncia e desapego absoluto, conforme o ideal de São Francisco; a transformação e a incorporação é obra do amor  de Jesus, e Jesus crucificado, fundamento e centro de espiritualidade franciscana, fonte da sua pobreza e do seu amor; ou mais simplesmente: fonte do amor à pobreza, que é o amor a Jesus crucificado. São  Francisco encontrou o seu caminho, quando o Crucificado lhe apareceu na solidão: “Ante aquela visão, a sua alma ficou inundada de amor;  a lembrança da paixão de Cristo imprimiu-se-lhe no coração de tal modo que nunca mais pode pensar em Cristo e na sua cruz, sem se desfazer em lágrimas e suspiros” ).
Foi a cruz que inspirou a São Francisco o amor da pobreza, da humildade, do aniquilamento; tendo estabelecido o vácuo dentro de sua alma, o mesmo amor de Cristo o transformara, comunicando-lhe as virtudes e a própria vida de Cristo, vida humano-divina, que é toda a perfeição sobrenatural  a que devemos aspirar.

Deste amor sobrenatural por Jesus procedem todas as outras características da espiritualidade franciscana: o amor de Maria, inseparável do amor de Jesus; mas um amor filial, íntimo, profundo, porquanto na identificação com Jesus deve-se amar Maria com o mesmo amor de Jesus, para quem Maria não é simples mãe adotiva, mas vida de sua vida e sangue de seu sangue.
O amor às criaturas é também consequência do amor a Cristo, o Verbo encarnado para quem e em quem tudo foi criado e cuja imagem anda impressa em todas as coisas; o amor de São Francisco pelos homens é o seu amor por Cristo em cujo Corpo místico todos formam ou devem formar um só Cristo.
Todavia, o amor de São Francisco não se detém em Cristo; tornado um com ele, São Francisco  participa de seu amor inefável pelo Pai, ao qual devem regressar todas as criaturas, pelo Verbo encarnado, em um dar-se contínuo de amor no Espírito Santo. São  Francisco sentiu a primeira centelha de amor, quando foi repelido por seu pai; então pôde dizer, com o enlevo que depois havia de ir crescendo por toda a vida e que seria o seu respirar profundo: “Pai nosso que estais nos céus...!”

Se Jesus é o fundamento e centro de toda  a espiritualidade franciscana, o termo derradeiro do seu itinerário é o Pai, no oceano infinito do amor da Santíssima Trindade que a franciscana Santa Verônica de Giuliani cantou com profunda elevação:  “Parece que a alma se encontra como que nadando em Deus!  Lida, lida sem parar e sempre se encontra em Deus; lida para encontrar Deus, conquanto sinta que está em Deus, busca a Deus no próprio Deus, e buscando-o em si o encontra” (Diário, 21, VIII, 1705: VI, 762)."Tudo isto se passa no íntimo de minha alma, a qual se encontrava naquele mar imenso e infinito de Deus, que não é compreendido e de quem não se pode compreender a grandeza e imensidade.  Deus possui em si a alma que se perde nele, e nele está nadando como o peixe n'água e não encontra vida senão em Deus, para Deus, e com Deus. O coração amoroso comunica então à alma o seu próprio amor, desprende-a e tudo, e nela quer operar sozinho”  (Diário 5, V, 1715; VI, 805).
Qual é o  homem que não sente vibrar o coração, perante a simples narrativa destas experiências de amor a que ele próprio é chamado? O homem foi criado para o amor, e o amor é a razão do seu ser e de toda a sua atividade. O Itinerário  franciscano conduz  a esse amor, pelo caminho de renúncia da santa pobreza, a qual despoja de tudo para dar Tudo, isto é, para dar o Amor:  Meu Deus e meu Tudo!

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Uma visão franciscana da economia.

Frei Celso Márcio Teixeira
Introdução
À primeira vista, tendo-se presente que a pobreza se tornou ao longo da história quase que uma carteira de identidade dos franciscanos, o título desta reflexão parece conter um paradoxo ou talvez causar a expectativa de uma visão radicalmente negativa da economia. Pode o franciscano pelo menos pensar em economia, já que o próprio Francisco proíbe severa e terminantemente que os frades recebam dinheiro, comparando-o a uma pedra ou ao pó que se calca com os pés (cf. RnB 8,4.6)(1)? Haveria algum espaço para se falar em economia, quando se defende a pobreza radical do nada possuir (cf. RB 6,1)? Embora as aparências possam sugerir uma irreconciliável contradição entre espiritualidade franciscana e economia, ousamos afirmar que o próprio Francisco de Assis nos deixou o que poderíamos chamar de “modelo econômico alternativo”. E os franciscanos, ao longo da história, não somente elaboraram um pensamento sobre a economia, mas propuseram novos modelos econômicos na tentativa de diminuir a distância existente entre ricos e pobres.
1. Conceito de economia no pensamento e na práxis de São Francisco
Evidentemente, não vamos encontrar nos escritos de Francisco nem no conjunto todo das Fontes Franciscanas um conceito definido de economia. Mas vamos descobri-lo nas entrelinhas do que está escrito e na práxis de Francisco e de seus companheiros.
É necessário, antes de tudo, não identificar economia com possuir, acumular bens (dinheiro, propriedades) e gerir capital. Pelo menos não é este o conceito que ele tem de economia. Mas, se lermos atentamente as fontes franciscanas, verificaremos que, para ele, a economia consiste em gerir as necessidades vitais dos irmãos (gerir a vida). De fato, a grande preocupação dele com relação aos frades é cuidar deles em suas necessidades vitais. Embora a proposta franciscana seja de uma vida sóbria – devemos estar contentes, quando temos com que nos cobrir e com que nos alimentar (cf. RnB 9,1b) – no entanto, a economia que deve reger a vida dos frades será pautada pelo cuidado dos irmãos em suas necessidades, um princípio explícito na Regra Bulada:
Os ministros e custódios exerçam diligente cuidado, através de amigos espirituais, para com as necessidades dos enfermos e para vestir os demais irmãos de acordo com os lugares, tempos e regiões frias, como virem que seja conveniente à necessidade; salvo sempre que, como foi dito, não recebam moedas ou dinheiro (RB 4,3-4).
O conceito que ele tem de economia, portanto, não se situa no nível do possuir, do acumular ou gerir bens, mas no nível do cuidar das necessidades vitais e de gerir a vida.
2. Modelo econômico alternativo
Partindo do conceito de economia como cuidado dos irmãos em suas necessidades vitais, nós nos perguntamos se, de fato, se criou um modelo econômico para fazer frente a essas necessidades. Nossa busca neste sentido aponta para uma resposta afirmativa. Alguns elementos são bastante evidentes, permitindo-nos concluir categoricamente que se criou realmente um modelo alternativo.
a) Um modelo baseado no trabalho
O trabalho como base da economia franciscana já estava explícito na Regra não Bulada:
E os irmãos que sabem trabalhar trabalhem e exerçam a mesma arte que conhecerem... Pois diz o profeta: “Comerás do trabalho de tuas mãos”... E pelo trabalho possam receber todas as coisas necessárias, exceto dinheiro (RnB 7,3.4.7).
Pode-se dizer que o trabalho constitui o primeiro artigo do estatuto da economia franciscana. O meio de suprir as necessidades vitais dos frades, portanto, não consiste em rendas fixas nem na acumulação e capitalização de bens, mas no trabalho.

Este artigo contém um parágrafo: “E, quando for necessário, vão pedir esmola como os outros pobres” (RnB 7,8). Este parágrafo, no entanto, não significa que o meio normal de suprir as necessidades seja a esmola, como posteriormente na história foi interpretado, especialmente quando foi concedido aos frades menores poderem viver das esmolas dos fiéis e quando eles ficaram conhecidos com outros grupos como mendicantes. O parágrafo não vem substituir o artigo, mas apenas acrescentar uma cláusula para um caso especial, como o próprio Francisco chega a precisar no Testamento: “E quando não nos for dado o salário, recorramos à mesa do Senhor, pedindo esmolas de porta em porta” (Test 20b.21a.22).
b) A socialização dos bens pela partilha
Outro elemento que, a nosso ver, constituía um artigo importante do modelo econômico de Francisco é a partilha dos bens adquiridos pelo trabalho. A Regra é inequivocamente clara: “Quanto ao salário do trabalho, recebam para si e para seus irmãos as coisas necessárias ao corpo, exceto moedas e dinheiro” (RB 5,4).

Os bens adquiridos pelo trabalho são sempre “as coisas necessárias”. E a repetida proibição de que se receba dinheiro mostra com muita evidência que o modelo econômico proposto como alternativo não se baseia no dinheiro. Este artigo, porém, evidencia que os bens adquiridos não pertencem nem são destinados unicamente a quem trabalhou, mas ao conjunto dos irmãos: “para si e para seus irmãos”.

Infelizmente, ao longo da história, as intermináveis discussões sobre a pobreza nunca deram valor a este elemento que, a nosso ver, mostra o verdadeiro significado da pobreza franciscana: a pobreza significa não apenas não acumular, mas antes de tudo partilhar o pouco que se tem ou se adquire (2). Tudo em vista do cuidado (bem comum) da fraternidade. Este cuidado, princípio fundamental de todo o estatuto, por sua vez, dá a cada frade a liberdade de manifestar ao outro suas necessidades: “E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade” (RB 6,9).
c) Além da lei do supérfluo
Chamamos aqui “lei do supérfluo” aquela frase incandescente de São Basílio Magno em uma de suas homilias:

Pertence ao faminto o pão que tu reténs. Ao que está nu pertence o manto que guardas. Ao descalço, o calçado que irá apodrecer em tua casa. É do necessitado o dinheiro que tens enterrado (3).
Resumindo numa máxima a exortação de São Basílio: o supérfluo pertence aos pobres.

Embora Francisco não tenha escrito sobre a partilha com os demais pobres, sua práxis é profusamente atestada pelos hagiógrafos. Ele queria que os frades partilhassem com os necessitados não apenas o que lhes era supérfluo, mas também o que estava destinado às suas próprias necessidades. Ao encontrar alguém mais necessitado do que ele, não tendo supérfluo, dava aquilo que lhe era absolutamente necessário. Dizia:
Recebemo-lo de empréstimo até acontecer que encontremos alguém mais pobre... Não quero ser ladrão; ser-nos-ia imputado como furto, se não o dermos ao mais necessitado (2Cel 87; CA 32).
Exemplos claros disso são as várias vezes em que ele deu seu próprio manto a algum pobre (cf. 2Cel 86; 87; 88; 92) ou, quando já não tinha o manto, cortava um pedaço do próprio hábito (cf. 2Cel 90) ou dava como esmola os ornamentos do altar (cf. 2Cel 67) e até mesmo o livro do Evangelho usado na liturgia (cf. 2Cel 91).
Resumindo o pensamento de Francisco sobre economia, pode-se dizer que, tendo como princípio o cuidado dos irmãos, ele realmente desenvolve um modelo econômico alternativo, baseado no trabalho, na partilha entre os irmãos e na partilha (não só do supérfluo) com os demais pobres.
3. O conceito de propriedade privada no pensamento franciscano
A tese comum defendida na Idade Média, inclusive por teólogos do porte de Santo Tomás de Aquino (4), era a da justificação da propriedade privada pela lei natural. Na linha aristotélica, Tomás de Aquino defende que o dominium (o termo indica poder de uns sobre os outros e propriedade sobre as coisas) remonta ao estado original, não é consequência do pecado.

A escola franciscana, possivelmente influenciada por uma compreensão evangélica da pobreza (Cristo quis ser e fez-se pobre), elaborou um pensamento alternativo. Teólogos franciscanos que abordaram o tema: Alexandre de Hales, Boaventura, Mateus de Aquasparta, Pedro João Olivi, Duns Scotus e Ockham. Já com Alexandre de Hales (5), passando por Boaventura (6), a formulação adquire uma clareza incontestável. Segundo Alexandre de Hales, deve-se distinguir entre status innocentiae (o estado do ser humano antes do pecado) e status naturae lapsae (estado depois do pecado). Em seu estado de inocência foi dada ao ser humano a lex naturae simpliciter; em seu estado de natureza caída, foi-lhe dada a lex positiva, esta última com a finalidade de coibir a vontade dos mais fortes de submeter e explorar os mais fracos. Deste modo, em seu estado original, havia a potestas utendi, o commune solatium rerum (provisão ou uso comum das coisas). Com o pecado, irrompem a avareza, a tendência à apropriação, a separação entre o meu e o teu, a concupiscência da posse e da acumulação. Por isso, a necessidade de uma lei positiva (lei da sociedade), que, no entanto, não deve ser absolutizada nem divinizada como se fosse o projeto eterno de Deus. Ela mostra apenas a precariedade e a fragilidade da condição em que se encontra o ser humano caído. Se ela estabelece normas para proteger a propriedade particular, é porque o ser humano perdeu o senso do uso comum das coisas, que era próprio de seu estado primeiro.

Igualmente, para Duns Scotus, o ser humano não é proprietário por natureza. Como bem comenta Todisco, “os dominia não fazem parte do status innocentiae, quando tudo era comum e o uso dos bens respondia somente à lógica da necessidade de cada um. O atual desenfreamento do instinto concupiscente faz parte de nossa história, não de nossa natureza... Assim, a partir do estado de comunhão de bens se passou ao estado de distinção dos dominia para propiciar uma convivência pacífica. Nem o direito natural ou ius naturae nem o divino ou ius divinum se podem tomar legitimamente como argumento a favor da propriedade, como se esta expressasse a índole originária da natureza humana” (7) .
E Guilherme de Ockham sublinha que, depois do pecado, o ser humano não está em condições de gozar os bens em comum, motivo pelo qual precisa regular o poder de apropriar-se das coisas, de acordo com a condição humana atual (8).
4. O modelo econômico dos Montepios
A crescente monetarização acontecida já na época de São Francisco despertou muitos homens ricos à prática da usura. Devido aos seus lucros exorbitantes e à espoliação dos pobres causada pelos juros altos dos usurários, esta prática, comparada em gravidade à simonia e à avareza, era severamente condenada pela teologia moral. Santo Antônio de Lisboa, por exemplo, tornou-se um grande pregador contra a usura, pelo fato de esta prática miserar muitas famílias já pobres. Com comparações contundentes, ele clamava:
Um povo maldito de usurários, forte e inumerável, cresceu sobre a terra. Os seus dentes são como os dentes de leão... seus dentes cheiram mal, por motivo de existir sempre na sua boca o estrume da pecúnia e o esterco da usura. Os seus queixais são como leõezinhos, porque arrebatam, mastigam e devoram os bens dos pobres, dos órfãos e das viúvas” (9).
Com o passar do tempo, os frades menores, compreendendo que o uso do dinheiro fazia parte da vida cotidiana do povo, perceberam que não bastava anatematizar o dinheiro. A usura ainda dizimava muitas vidas e dignidades. Participando das angústias dos cidadãos, especialmente dos mais pobres, e conscientes da força do capital que movia a sociedade – sem deixar de arruinar muitas vidas –, os frades começaram a refletir também sobre esta realidade de maneira realista, chegando a elaborar um pensamento sobre economia. Exemplos disso são os tratados de Pedro João Olivi, intitulados Tractatus de emptione et venditione e Tractatus de contractibus usurariis et de restitutionibus. Este teólogo trilha o caminho do preço justo dos bens produzidos, levando em conta não apenas o trabalho do artesão, mas também as dificuldades e trabalho do mercador, as situações de escassez e de abundância, etc., que acabam incidindo legitimamente na valorização da mercadoria. Posteriormente, Bernardino de Sena estabelecerá os elementos a serem levados em conta no preço dos bens produzidos: o valor natural da coisa produzida (realis bonitas naturae) e a utilidade (utilitas rei, pois o uso acrescenta valor à coisa); acrescentem-se a estes a virtuositas (qualidade), a raritas (escassez) e a complacibilitas (a satisfação que o produto dá ao que o compra) (10).

A contribuição franciscana em assuntos de economia, porém, não ficou no nível do pensamento. A iniciativa dos montepios foi a maneira concreta encontrada para levar a sociedade ao bom uso do dinheiro, isto é, a produzir bens de consumo sem produzir miséria. Bernardino de Sena (1380-1444) e Bernardino de Feltre (1439-1494), entre muitos outros pregadores, foram os incentivadores deste modelo de economia. O sistema consistia em levar os ricos a substituírem as esmolas por empréstimo a juros baixos para os que não tinham um capital e eram capazes de produzir bens de consumo. Deste modo, o pobre se sentiria valorizado em sua dignidade de poder produzir, de colaborar com a construção da vida social. Uma frase de Bernardino de Feltre, que mostra a natureza dos montepios, reza assim:
Não retenhas o supérfluo, que o supérfluo rompe a cesta... quando és rico e tens a barriga cheia e o pobre te pede emprestado e tu podes ajudar, se não o ajudas, pecas mortalmente. Portanto, se estás obrigado a dar esmola e ser generoso, quanto mais estás obrigado a dar ajuda daquilo que receberás com juro? (11).
O primeiro montepio foi fundado em 1462, em Perúgia, mas a iniciativa estendeu-se com muita rapidez pelas cidades da Itália e da Europa.
Conclusão
Quando os frades menores se põem a pensar a economia e a criar modelos econômicos alternativos, onde fica a pobreza? Estariam eles distanciando-se do carisma do fundador, afastando-se da pobreza radical? Não subsistiria, no fundo, a contradição à proposta original de Francisco?

Pelo contrário, vemos aí exatamente a superação da suposta contradição e uma até mesmo apologia da pobreza. Aos que consideravam a pobreza uma violação dos direitos fundamentais da natureza humana (entre estes o chamado direito natural à posse), a renúncia à posse dos bens mostra que a pobreza radical, pensada neste contexto, não vai contra a natureza humana, mas contra a natureza atual (caída) que se tornou egoísta. A pobreza radical (renúncia a qualquer domínio) aponta, portanto, para o status innocentiae, não viola absolutamente nenhum direito natural (lex naturae), como pretendiam os que se inspiravam numa concepção naturalista pagã, mas restaura a condição primeira. Esta visão dá ao indivíduo o pleno direito (liberdade) a renunciar a todos os direitos, e nisso consiste a radicalidade máxima da pobreza.
De outro lado, os frades não propõem o dinheiro como objeto de culto e de cobiça. Sua preocupação principal é livrar os pobres de uma pobreza que indignifica e envergonha o ser humano: a miséria. E a proposta subjacente ao modelo econômico dos montepios não era a de enriquecer os pobres, mas de permitir que eles, mesmo pobres, continuassem humanos, co-participantes da vida e da construção da cidade dos homens.
1 Os hagiógrafos são ainda mais radicais, ao atribuírem a Francisco a comparação do dinheiro com o esterco; cf. 2Cel 65,3; 66,2; CA 27,3; LTC 45,4.
2 Quem recentemente fez uma abordagem da pobreza do ponto de vista da economia foi D. Flood em seu livro Frei Francisco e o movimento franciscano, Vozes-Cefepal, Petrópolis, 1986, onde ele fala da “base econômica” (p. 42, 54, 55, 58), de “sistema econômico” (p. 49), de “organização econômica” (p. 67, 71) da vida dos frades, caracterizando-a como “economia fraterna” (p. 71), apontando, inclusive, a esmola não por razões de pobreza, mas por razões simplesmente econômicas (p. 55-56).
3 Basílio Magno, Homilia in Lc 12,16, em PG 31, c. 1752.
4 STh., I, q. 96, a. 4.
5 SH, II, q. 3, c. 2.
6 Boaventura, II Sent., d. 44, q. 2, a. 2.
7 Todisco O., “Ética e Economia”, em Merino J.A.; Fresneda F.M. (org.), Manual de Filosofia Franciscana, Petrópolis, Vozes-FFB, 2006, 261-332, p. 267; cf. Duns Scotus, Ordinatio IV, d. 15, q. 2, n. 5; sobre a questão da propriedade em Duns Scotus, cf. Bottin F., “G.D. Scoto sull’origine della proprietà”, em Rivista di Storia della Filosofia 52 (1997) 47-59.
8 Cf. Todisco O., o. c. 267.
9 Sermão da Sexagésima.
10 Bernardino de Sena, II, Sermo XXX, c. 1; obra citada por Todisco O., o. c. 324.
11 Citado por Todisco O., o. c. 327.

domingo, 31 de julho de 2011

Ecoespiritualidade na Vida Religiosa Consagrada


18/06/2011
 Ir. Mercedes Lopes MJC
 Mais do que nunca, os últimos desastres naturais sinalizam a urgência de uma mudança em nossa maneira de viver como seres humanos, como imagem e semelhança de Deus, como pessoas consagradas, discípulos e discípulas de Jesus, no hoje da história. Para isso, necessitamos uma espiritualidade mais ampla e profunda, que nos ajude a contemplar o universo como a casa de todos. Uma espiritualidade que nos possibilite a abertura necessária para poder aprender a conviver com os mais de seis bilhões de seres humanos que habitam o planeta Terra e com os dez bilhões de espécies que a compõem, sem perder o foco do discipulado de Jesus. Viver a Consagração a Deus, neste momento da história, supõe uma consciência e uma prática novas, como cuidadores e cuidadoras da sua fantástica criação.  
Nossos fracassos na colocação em prática da nova consciência que já adquirimos sobre o aquecimento global e sobre todas as questões ecológicas residem no fato de vivermos alienados em relação ao que o universo significa e representa para cada um de nós. Nas circunstâncias atuais, a VRC é desafiada a viver em reciprocidade básica com a natureza de maneira a garantir a vida de todos os seres vivos, em um processo de desenvolvimento sustentável. Daí a importância de compreender o universo como uma teia de vida e experimentar-nos como parte e participante deste misterioso e surpreendente tecido.
Desta nova postura diante da vida surge a ecoespiritualidade, como um convite para aprendermos a admirar as mais sutis complexidades do universo, que incluem tanto os eventos do nosso momento presente, como os grandes eventos do passado e os eventos que serão criados a partir da nossa postura proativa, que prevê o futuro e propõe a realização de ações em cadeia para impedir os desastres ecológicos, em vez de ficarmos apenas reagindo.
Para que isto seja possível, precisamos desenvolver a sensibilidade e a atenção para captar e escutar os gemidos da Terra e de todos os seres vivos, agindo criativamente e de forma solidária para cuidar e defender a vida do planeta. Essa atitude de intervenção do ser humano consciente e responsável no cuidado da criação é um dado da natureza. Assim como ela continuamente busca refazer-se, o ser humano necessita buscar realizar a intervenção justa de cuidado e atenção ao misterioso processo da vida, não de uma vez por todas, mas continuamente, atento ao que está acontecendo na natureza, na história e dentro de si mesmo.
Segundo Boff, “a atitude de sentir cuidado deve transformar-se em cultura e demanda. Um processo pedagógico que acontece para além da escola formal que atravessa as instituições e faz surgir um novo estado de consciência e de conexão com a Terra e com tudo o que nela existe e vive”. Este novo estado de consciência gera em nós um ritmo de vida semelhante ao próprio ritmo do universo: o ritmo da entrega e doação gratuita, continuada, harmoniosa. Um dinamismo de vida que podemos contemplar, por exemplo, no sol.
Segundo Brian Swimme, “a cada segundo o sol transforma quatro milhões de toneladas de si mesmo em luz. A cada segundo, uma enorme parcela do sol desaparece, transformada em energia radiante que se lança em todas as direções. Em nossa própria experiência, talvez já tenhamos visto velas queimando ou madeiras sendo consumidas pelas chamas até só restarem cinzas. Porém, nada da nossa experiência humana se compara a esta fogueira quase preternatural que devora oceanos inteiros de matéria diariamente”.
Quando conhecemos o fato da transformação massiva do sol em energia, ficamos paralisados. Carecemos de mitos e de poesia que nos permitam assumir estas realidades novas. Mas, como adquirir uma linguagem simbólica apropriada, se nem sequer nos damos conta de que estamos envolvidos neste mistério? Não nos move e nem nos impressiona o fato de que somos parte e participantes desta encantadora obra de arte, epifania do incondicional amor de Deus. No entanto, sabemos que a contemplação do universo como manifestação do mais intenso e gratuito Amor pode nos transformar e dar novos sentidos à nossa entrega como VRC.
 Por exemplo, ao contemplar a contínua e vital entrega do sol para a vida da nossa galáxia, podemos descobrir um novo significado para nossa entrega total a Deus e aos pobres. O sol, a cada segundo, doa parte de si mesmo para convertê-la na energia que nós compartilhamos em cada refeição. Dificilmente refletimos sobre este fato básico da biologia e, no entanto, seu significado espiritual é muito forte. O sol se transforma em um fluxo de energia que a fotossíntese descarrega nas plantas que são consumidas por nós e por todos os animais. De maneira que, há quatro bilhões de anos, nós seres humanos desfrutamos da energia do sol acumulada em forma de feijão, arroz, frutas ou animais, à medida que o sol cada dia morre como sol e renasce como vitalidade terrestre. E essas chamas solares dão força para o empreendimento humano, para recriarmos a vida cada dia, para estabelecer relações vitais, cheias de amor e de criatividade. A energia solar é fonte da força humana. Toda criança precisa aprender esta simples verdade: somos energia do sol. E, como VRC, podemos transformar cada dia a nossa vida em uma alegre e criativa entrega, para que nosso rosto brilhe com o mesmo gozo radiante e transformador do sol.
Na cosmologia do novo milênio, o imenso esbanjamento de energia do sol pode ser considerado uma manifestação espetacular de um impulso subjacente a todo o universo. Na estrela, este impulso se revela como uma enorme e permanente entrega de energia. No coração humano ele é sentido como um impulso inabalável para dedicar a própria vida ao bem estar da comunidade, da humanidade, do planeta... Este é o ritmo da criação de Deus! Na misteriosa e magnífica obra da criação, há um tal dinamismo de vida que não somente transforma os elementos, gerando vida nova, mas também sustenta o ritmo da expansão do universo.
A ecoespiritualidade nasce e cresce, em cada pessoa, a partir da permanente busca de sentido para a vida; do assumir contínuo e paciente das dificuldades nas relações interpessoais; da opção por uma postura terna e acolhedora com todas as criaturas; de uma visão comprometida e crítica da história e de uma séria e permanente autocrítica que gera um processo pessoal e comunitário de conversão. A profundidade espiritual nasce e cresce, sobretudo, através da entrega livre e incondicional para que todas as pessoas tenham direito a uma vida digna e feliz (Jo 10,10), no universo em continua, acelerada e harmoniosa evolução.

Perguntas para a reflexão em comunidade:
1. Como interpretamos as mudanças rápidas que estão acontecendo na natureza?
2. Que novas posturas e ações estamos assumindo para a defesa da vida do planeta?
3. Estas novas experiências estão gerando em nós uma espiritualidade mais profunda e ampla? Uma espiritualidade ecológica?
Conferir Leonardo Boff, Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis: Vozes, 2001, p.116.
Leonardo Boff, Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis, Vozes, 2001, p.117.
Brian  Swime, O coração oculto do Cosmos. A humanidade e a nova história, São Paulo: Cultrix, 1996, p.56.


1-Conferir Leonardo Boff, Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis: Vozes, 2001, p.116.
2-Leonardo Boff, Saber Cuidar. Ética do humano – compaixão pela terra, Petrópolis, Vozes, 2001, p.117.
3-Brian  Swime, O coração oculto do Cosmos. A humanidade e a nova história, São Paulo: Cultrix, 1996, p.56.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Humanismo Franciscano e Ecologia .

É evidente que não vou tratar aqui do HUMANISMO como doutrina dos humanistas do Renascimento, nem vou tratar da Ecologia como tratado do meio ambiente. Aqui entende-se por Humanismo Franciscano a visão do homem e da mulher inspirados em S. Francisco e em Sta. Clara. Entende-se por Ecologia a visão e as atitudes dos franciscanos no relacionamento com a Irmã Mãe Natureza. Segundo José António Merino (José António Merino, Vision Franciscana de la Vida Quotidiana, Ediciones Paulinas, Madrid - 1986), em quem me inspirei para preparar esta conferência, poderemos sintetizar em 7 pontos a maneira como o homem, ao longo da história, se relaciona com o mundo: PÂNICO. ASSOMBRO. RESPEITO. RACIONALIZAÇÃO. DESENCANTO. EXPLORAÇÃO e finalmente REDESCOBERTA de que o mundo é a nossa CASA.


Neste trabalho tratarei de ver como deve ser o nosso relacionamento e comportamento com a Irmã Mãe Natureza, tendo em conta a nossa visão e a nossa experiência franciscana do que é ser homem. Como nos foi sugerido dividirei em três pontos a nossa reflexão:
- O homem como relação.
- O homem e o seu corpo.
- O homem e a natureza.

1. O homem como relação

A visão franciscana do homem é certamente original, comparada com as diversas interpretações humanistas ao longo da história. Francisco foi e propôs um novo tipo de homem a partir da sua original experiência de Deus e do modo original de tratar com todos os seres. Francisco foi um homem estruturalmente "simpático" a Deus, a todos os outros homens e a todas as criaturas. Podemos dizer que a "simpatia" por tudo é a primeira nota constitutiva do homem Francisco, de espírito aberto e fraterno, que vive convive com tudo e com todos. Francisco é um especialista da arte de viver, pois consegue fazer a experiência de todas as formas de vida desde o nascimento até a morte. Ele nasce, sente, vive, ama, trabalha e morre em comunhão com Deus, com os homens e com o universo. Ele não fica a ver a procissão dos seres a passar, mas vemo-lo totalmente imerso no mais íntimo da vida de toda a criação, em marcha. Ele sintoniza, ele está em simpatia com todas as expressões ou formas de ser, pensar e de viver. A sua experiência de humanista está profundamente marcada pela PRESENÇA DE DEUS, que ele vê em tudo e em todos. Estremece de ternura, de admiração e de espanto ao surpreender em si e nos acontecimentos, na história, nos homens e em todas as coisas animadas ou inanimadas, sensíveis ou insensíveis, a PRESENÇA encantadora do maravilhoso Criador.
O homem não é rival dos homens nem dos seres da criação. É um irmão universal. Devido à sua estrutura ontológica e psicológica de simpatia por tudo e todos, e à sua abertura à PRESENÇA TOTAL, Francisco é e propõe um projecto de homem como um SER EM RELAÇÃO: em relação dinâmica com Deus, com os irmãos, com os demais homens, com os seres irracionais e a própria vida.
Para S. Boaventura e Duns Escoto, os teólogos franciscanos que melhor souberam traduzir, em pensamento, a forma de ser de Francisco, a relação é um constitutivo essencial da pessoa. No Humanismo Franciscano, a pessoa humana é um ser para outrem. É como um som que soa e ressoa em reciprocidade com todos os outros sons. Nesta relação vital, em que entram todas as vivências do espírito e do corpo, vencem­se todos os egoísmos e distanciamentos. Sendo assim estruturalmente relacionado, o homem franciscano, a exemplo de S. Francisco, é um HOMEM CONFIANTE. Nunca pode desconfiar de ninguém e de nada. Se tudo quanto é mundano, humano e divino está em consonância com o homem, este não pode suspeitar mal de ninguém, nem fugir seja de quem for ou do que for. E como a confiança é sempre recíproca, há, entre o homem e a mulher franciscanos e os demais seres, uma verdadeira partilha de confiança. A confiança profunda e sem reticências traz consigo uma necessidade e um desejo de ENCONTRO. Tudo e todos se encontram em S. Francisco: Deus e toda a criação (homens e mulheres e habitantes do céu, da terra e do mar).
E para que este encontro seja sempre renovado, Francisco lança-se numa busca constante de novos horizontes cósmicos, humanos e divinos. Francisco avança de surpresa em surpresa, até à Beleza Infinita. Nada é estranho ao Humanismo Franciscano. Tudo lhe fala de afecto e de amizade. Por isso no Humanismo Franciscano não pode faltar a gratidão por tantos e tantos dons. Desde o encontro consigo mesmo até ao encontro com o Altíssimo, Omnipotente, Bom Senhor, Francisco vai experimentando todos os outros encontros desde os mais insignificantes, como o das pedras do caminho, até aos mais extasiantes, na estigmatização do Alverne.
No seu Itinerário para Deus, o Humanismo Franciscano celebra com alegria a festa de todos os encontros com todas as criaturas, que são outros tantos degraus para subir à montanha do Senhor. E dado que estes encontros do Humanismo Franciscano são radicalmente sinceros e plenos de verdade, têm forçosamente de desabrochar em ACOLHIMENTO. Por isso Francisco acolhe, com júbilo e gratidão, a revelação do amor de Deus e da amizade das criaturas. «Acolhe os socialmente enfermos, os ladrões, os salteadores, os leprosos, os pobres, os poderosos, os irrelevantes. Acolhe a criação inteira, não apenas com sentimentos de poeta, mas com entranhada amizade fraterna». Acolhe tudo e todos, mas acolhe sobretudo os que não são acolhidos, assume as misérias humanas para as transformar. A sensibilidade e o acolhimento franciscanos, podem transformar, como diz António Merino "o universo do temor num universo de aproximação exultante". A consequência de todo este Humanismo Franciscano, no que se refere à Ecologia, é evidente: uma "irmanação universal".
O Humanismo Franciscano torna-se fraternidade cósmica e universal. A cortesia do Humanismo Franciscano, tão proverbial entre os homens, transforma-se também ela em cortesia cósmica e em afabilidade para com todas as coisas. Para o Humanismo Franciscano todos os outros seres se revestem, de algum modo, da dignidade de pessoas. Não se pode estragar, ferir, ofender, conspurcar ou esbanjar nada, porque tudo faz parte do nosso ser humano. O ser humano, homem e mulher, tem de encontrar uma nova forma de existir e de habitar num mundo mais humanizado e familiar. É urgente que nos revistamos de grande respeito e de extasiante admiração por todos os seres nossos irmãos. Antes de os conhecermos já os amámos, porque são parte integrante da nossa vida e componente necessária do nosso projecto de felicidade.

2. O Homem e o seu Corpo

O tema do corpo continua ainda hoje a ser um enigma incompreensível para o homem. Há quem o deprima e rebaixe à condição de "pesada mochila" que a alma tem de suportar, e quem o exalte a ponto de o identificar com o "eu" humano, onde não há lugar para o espírito. Na história do pensamento sempre assistimos ao DUALISMO irredutível entre o espírito e a matéria. O corpo é matéria e a alma é espírito, de modo que o corpo e a alma estiveram sempre em conflito.
No franciscanismo, o tema do corpo também não está definitivamente elaborado. Quando os escritores não franciscanos aludem ao tema do corpo em S. Francisco, não vão muito mais além do que uma simples referência genérica ao «irmão corpo» e ao "irmão asno". No entanto, entrando em cheio nos Escritos de S. Francisco, a visão do corpo aparece-nos revestida de certa novidade e surpresa. É verdade que S. Francisco não disse muito acerca do corpo e o que disse tem de ser enquadrado na visão optimista de toda a criação. No Capítulo 23 da I Regra, S. Francisco alude à criação do homem como imagem e semelhança de Deus, segundo a Visão Bíblica do Génesis. Mas é na Exortação V, onde aparece a visão mais bela e positiva do corpo. Diz S. Francisco: «ó homem, considera a quanta grandeza o Senhor te levantou, pois te criou dando-te um corpo à Imagem do Seu Filho Dilecto, e dando-te um espírito à sua própria Semelhança. (Gén. 1,26)
Se o homem é Semelhança de Deus, deve-o ao espírito, e se é Imagem de Deus, deve-o ao corpo. Mas o corpo deve a sua dignidade de imagem de Deus por ser Imagem do Corpo de Cristo. Cristo é que é o modelo e a referência do homem, também no tocante ao corpo. A dignidade do corpo humano, para S. Francisco, não se reduz a um conteúdo físico­biológico. Mais: o corpo humano, criado à imagem do Filho, é para S. Francisco a memória e a recordação do corpo que a Palavra do Pai assumiu na Encarnação. A verdade humana do corpo assenta na verdade teológica do Corpo de Cristo. A grandeza do homem também se encontra no seu Corpo. A humanidade de Cristo revela a humanidade do homem. Como a Paixão de Cristo foi o modelo da paixão e das chagas do serafim do Alverne. S. Francisco não só se distancia dos hereges Cátaros, mas até de alguns grandes teólogos, como Santo Agostinho, uns e outros negativos e pessimistas em relação ao corpo. Os textos dos Escritos de S. Francisco que denotam um sentido negativo acerca do corpo, é preciso entendê-los tendo em conta que o corpo é assumido como inimigo da alma: "a carne", segundo a expressão de S. Paulo. É a esta luz que devemos interpretar algumas expressões, como esta: "odiemos o nosso corpo com os seus vícios e pecados, porque vivendo nós segundo a carne, quer o diabo roubar-nos o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo e a vida eterna" (I Reg. 22,5). Ou então as mesmas expressões das Exortações: "devemos aborrecer os nossos corpos com seus vícios e pecados" (Ex.I,6;10,2;12,2.).Aqui não se trata do corpo enquanto tal, mas do corpo com seus vícios e pecados.
O crente Francisco não pode deixar de ver o corpo no horizonte da Criação, da Redenção e Ressurreição. O corpo, além disso, tem um valor cosmológico, ou seja, um valor de relação com o mundo, já que é através dele que o homem comunica com a criação. O homem do cântico das Criaturas tem uma perfeita consciência da sua corporeidade, pela qual confraterniza com todas as criaturas. A solidariedade cósmica só é possível através do Corpo.
Para S. Boaventura, alma e corpo não são duas realidades separadas mas complementares na unidade do ser humano. O corpo é a única possibilidade de a alma ter uma existência concreta e temporal. Ou seja: o corpo corresponde à vocação do homem à comunhão com todos os seres criados que existem no mundo. A própria existência do corpo, também ele micro-cosmos, é a afirmação da solidariedade e da fraternidade do homem com as outras criaturas.
Para Duns Escoto o corpo está em relação com a alma como a matéria está em relação com a forma e neste ponto é igual a S. Tomás e a toda a Escolástica. Mas vai mais longe e dá ao corpo uma perfeição chamada forma de corporeidade, pela qual mesmo sem a alma o corpo tem uma dignidade que não se pode reduzir a uma inter-acção físico-química. Isto é, o corpo mesmo sem alma é superior aos elementos físico-químicos de que é composto, e participa da dignidade do «eu».
Dessa dignidade do Corpo participam também todos os outros seres vivos e, por simpatia ontológica, todos os outros seres, mesmo inanimados. Esta visão global de Escoto dá a todas as criaturas uma dignidade que as faz participantes da própria dignidade do homem. Assim, através do corpo, a alma entra em comunhão com as coisas da natureza, e todos os seres da natureza entram em comunhão com o homem participando do seu valor espiritual. Daí que o relacionamento com o universo criado deve ser tão respeitoso como o relacionamento da alma com o Corpo. Assim como a alma precisa do corpo para conhecer e amar neste mundo, assim o corpo precisa das outras criaturas para ser instrumento e complemento da alma. O corpo humano, funcionando como condição da possibilidade de o homem ser homem no mundo da natureza, faz com que todos os seres da natureza participem da dignidade do homem, através do corpo. O corpo, através dos seus sentidos, tem uma relação estruturalmente relacional, não só com as pessoas mas também com todo o universo. Graças à vista, ao ouvido, ao olfacto, ao gosto e ao tacto o homem entra em contacto com todo um universo de experiências, de vivências e de comunicação.
Segundo S. Boaventura o homem, que é considerado micro-cosmos, tem cinco sentidos que são como cinco portas pelas quais entra na nossa alma o conhecimento de todas as coisas que existem no mundo sensível (Itin. C. 2, N. 3). A visão humanista do corpo da Escola Franciscana apela a que restituamos ao corpo a sua dignidade verdadeiramente humana e faz com que prestemos a todas as criaturas que com ele convivem o obséquio de um diálogo fraterno e amigo, que exclui toda a tentação de exploração e as promove à dignidade de fraternidade universal.

3. O Homem e a Natureza

Pelo seu corpo o homem está radicalmente em comunhão com a natureza. O homem não pode não estar em relação com os seres que o envolvem. A natureza ou o mundo fazem parte do nosso ser humano e do nosso projecto de vida. Nós somos um ser no mundo. O ser humano e o mundo-natureza forçosamente estão em comunicação recíproca. A natureza constitui aquelas circunstâncias que integram o meu "eu" na expressão feliz de Ortega Y Gasset: "eu sou eu e as minhas circunstâncias". Podemos dizer que a vocação do ser humano é humanizar a natureza e deixar-se «mundanizar» ou "naturalizar" pela natureza, não no sentido moral vulgar mas no sentido cosmológico e psicológico. Temos de tomar consciência do nosso diálogo "eu-mundo" não só na dimensão exterior e objectiva, de duas realidades que estão frente a frente em reciprocidade existencial, mas também na dimensão interior e subjectiva, dando-nos conta que é todo o nosso ser - corpo e alma - que entra em comunhão com a natureza, para dar e receber. Entre o homem e a natureza pode e deve haver uma verdadeira harmonia de existência de vida. Para isso o homem não pode considerar a natureza só como um objecto, mais ou menos útil, mais ou menos necessário, mas tem de a aceitar como parte integrante do seu ser.
A natureza não está à frente de nós: vive connosco! Não é um instrumento ou objecto manejável, segundo o nosso capricho, mas uma dimensão essencial do nosso espaço vital. O homem torna-se vil e grosseiro e perde a sua nobreza de homem quando usa e abusa dos seres da natureza. Parafraseando S. Paulo, que afirmava que o marido que não ama a sua esposa peca contra o seu próprio corpo, podemos dizer: o homem que não ama mas ofende a natureza peca contra o seu próprio corpo. E porque o corpo está indissoluvelmente unido à alma, peca também contra a própria alma. Ou seja: ofender a natureza - poluindo-a, esbanjando-a, destruindo-a, - é um pecado em sentido ético e teológico. O homem não pode ser o rei despótico da criação mas o irmão universal, o grande irmão, o irmão mais velho de todos os homens, animais, plantas e coisas. A vida do homem sobre a terra tem sido difícil, ao longo da história e tem exigido muita luta para garantir a sobrevivência e o progresso da humanidade. Esta luta é legítima e podemos e devemos socorrer-nos da técnica para vencer os obstáculos que a própria natureza nos oferece. O mal está no exagero da ambição e da cobiça que levam os homens a criar, através da técnica, um mundo artificial, com grave prejuízo do mundo natural.
A técnica veio a criar uma outra natureza que embora materialmente ajude o homem no seu bem-estar, veio também separá-lo e desgarrá-lo da Irmã Mãe Natureza. No seu afã insaciável de domínio e de gozo, o homem deixou de contemplar o mundo da natureza para se entregar quase só à tarefa materialista e desumana da fabricação e da produção consumista. Com estes exageros da exploração desregrada da natureza, o homem quebrou a relação vital com a natureza e criou um desequilíbrio que lhe pode ser fatal. A natureza, porque é o prolongamento do próprio homem não pode ser só campo de ocupação mas também a CASA DE HABITAÇÃO.
Hoje assiste-se, em muitos lugares, ao assassínio da terra, ao que já se chama "terricídio". Quantos rios, mares, fontes, florestas, campos, cidades, alimentos e o próprio ar que respiramos estão a ser vítimas da sôfrega ambição do homem. O Humanismo Franciscano deve voltar-se para a Ecologia, e em nome do próprio homem, ou seja, da dignidade da pessoa humana, deve defender e promover a integridade, a beleza e o encanto da nossa casa comum que é o mundo, onde todos queremos habitar em paz, alimentar-nos racionalmente e vestir com a elegância das linhas e das cores da Irmã Mãe Natureza. Ao menos como os lírios do campo e as aves do céu!
Em síntese: o nosso relacionamento com a Natureza tem como princípio inspirador a fé num único Deus, que é a fonte de toda a criação e de toda a vida, donde procede o homem e a natureza. Não aceitamos o Dualismo do espírito e da matéria. O nosso relacionamento com a Natureza inspira-se também na relação do Espírito de Deus que se manifesta na Criação e nos faz respeitar valores superiores aos que o Positivismo descobre, na sua investigação puramente experimental. O nosso relacionamento com a Natureza, finalmente, inspira-se na Sabedoria Eterna do Divino Artista, donde procede toda a verdade, bondade e beleza das criaturas. Superamos todo o utilitarismo, pobre e redutor, da arvorada TECNOLOGIA em deusa do progresso e da felicidade humana. O nosso relacionamento com a Natureza é de simpatia, de admiração, de comunhão celebrativa, de gratidão, sem domínio nem possessão, vendo, como num espelho, nos outros seres criados, mesmo irracionais, inanimados e insensíveis, o reflexo da sublime dignidade humana e da infinita Beleza de Deus.

in Cadernos de Espiritualidade Franciscana, nº 2, pp. 38-44.