domingo, 15 de setembro de 2013

Os estigmas

Dois anos antes de morrer, São Francisco de Assis iniciou um retiro de Quaresma. Neste período teve a visão de um serafim, e logo começaram a aparecer em suas mãos e pés as marcas do cravo: os estigmas. Estes são como que uma prova do resultado da imitação alcançada. Mais tarde, São Francisco foi confirmado como segundo Cristo pelo papa Pio XI.

Os estigmas
Francisco era um fiel servidor de Cristo. Dois anos antes de sua morte, havendo iniciado um retiro de Quaresma em honra de São Miguel num monte muito alto chamado Alverne, sentiu com maior abundância do que nunca a suavidade da contemplação celeste, o ardor dos desejos sobrenaturais e a profusão das graças divinas. Transportado até Deus num fogo de amor seráfico, e transformado pelos arroubos de uma profunda compaixão n’Aquele que, em seus extremos de amor, quis ser crucificado, orava certa manhã numa das partes do monte. Aproximava-se a festa da Exaltação da Santa Cruz, quando ele viu descer do alto do céu, dir-se-ia, um serafim de seis asas flamejantes, o qual, num rápido vôo, chegou perto do lugar onde estava o homem de Deus. O personagem apareceu-lhe não apenas munido de asas, mas também crucificado, mãos e pés estendidos e atados a uma cruz. Duas asas elevavam-se por cima de sua cabeça, duas outras estavam abertas para o vôo, e as duas últimas cobriam-lhe o corpo.
Tal aparição deixou Francisco mergulhado num profundo êxtase, enquanto em sua alma se mesclavam a tristeza e a alegria: uma alegria transbordante ao contemplar a Cristo que se manifestava de uma maneira tão milagrosa e familiar, mas ao mesmo tempo uma dor imensa, pois a visão da cruz transpassava sua alma com uma espada de dor e compaixão. Aquele que assim externamente aparecia o iluminava também internamente. Francisco compreendeu então que os sofrimentos da paixão de modo algum podem atingir um serafim que é um espírito imortal. Mas essa visão lhe fora concedida para lhe ensinar que não era o martírio do corpo, mas o amor a incendiar sua alma que deveria transformá-lo, tornando-o semelhante a Jesus crucificado. Após uma conversação familiar, que nunca foi revelada aos outros, desapareceu aquela visão, deixando-lhe o coração inflamado de um ardor seráfico e imprimindo-lhe na carne a semelhança externa com o Crucificado, como a marca de um sinete deixado na cera que o calor do fogo fez derreter.
Logo começaram, com efeito, a aparecer em suas mãos e pés as marcas dos cravos. Via-se a cabeça desses cravos na plama da mão e no dorso dos pés; a ponta saía do outro lado. A cabeça era redonda e escura; a ponta, bastante longa, achatada e recurva, surgia no meio de um inchaço de carne por cima da pele. Por baixo dos pés, a ponta torcida dos cravos era tão saliente que o impedia de apoiar a planta dos pés no chão e facilmente se poderia fazer entrar um dedo da mão no arco de círculo que ela formava ao se curvar. Fui informado disso por pessoas que viram os estigmas com os próprios olhos. O lado direito estava marcado com uma chaga vermelha, feita, dir-se-ia, por uma lança; da ferida corria abundante sangue, freqüentemente, molhando as roupas internas e a túnica. Os irmãos encarregados de lavar suas roupas constataram com toda segurança que o servo de Deus trazia, em seu lado, bem como nas mãos e nos pés, a marca real de sua semelhança com o Crucificado.
Aos irmãos que conviviam com ele era praticamente impossível passar despercebida a realidade dos estigmas impressos de modo tão visível. Esse homem cheio de Deus compreendia perfeitamente isso, e sua alma entrou numa grande dúvida e ansiedade: deveria ou não tornar pública a visão que tivera? Atormentado pela consciência, acabou consultando alguns de seus irmãos mais chegados. Com grande temor contou-lhes tudo o que acontecera durante a visão. Aquele que lhe aparecera, disse Francisco, lhe revelara certos segredos que ele não deveria comunicar a ninguém enquanto vivesse. Quando o verdadeiro amor transformou o amigo de Cristo na semelhança perfeita d’Aquele que ele amava, e terminados os quarenta dias previstos no monte e na solidão, chegou a festa de São Miguel; e Francisco, homem evangélico, desceu do monte, trazendo a imagem do Crucificado, não esculpida em tábuas de pedra ou de madeira pela mão de algum artífice, mas reproduzida em sua própria carne pelo dedo do Deus vivo.
São Boaventura, Legenda Menor – Capítulo 6
Paz e Sucesso!
Fonte: http://midasmn.com.br/
Idemar Bueno.

sábado, 6 de julho de 2013

Francisco de Assis e Francisco de Roma

"Francisco viveu a antítese do projeto imperial de Igreja. Ao evangelho do poder, apresentou o poder do evangelho: no despojamento total, na pobreza radical e na extrema simplicidade. Não se situou no quadro clerical nem monacal, mas como leigo se orientou pelo evangelho vivido ao pé da letra nas periferias das cidades, onde estão os pobres e hansenianos e no meio da natureza, vivendo uma irmandade cósmica com todos os seres", escreve Leonardo Boff, teólogo, filósofo e escritor.
Eis o artigo.

Desde que  assumiu o nome de Francisco, o bispo de Roma eleito e, por isso,  Papa, faz-se inevitável a comparação entre os dois Franciscos, o de Assis e o de Roma. Ademais, o Francisco de Roma explicitamente se  remeteu ao Francisco de Assis. Evidentemente não se trata de mimetismo, mas de constatar pontos de inspiração que nos indicarão o estilo  que o Francisco de Roma quer conferir à direção da Igreja universal.

Há um ponto inegável comum: a crise da instituição eclesiástica. O jovem Francisco diz ter ouvido uma voz vinda do Crucifixo de São Damião que lhe dizia:”Francisco repara a minha Igreja porque está em ruinas”. Giotto o representou bem, mostrando Francisco suportando nos ombros o pesado edifício da Igreja.

Nós vivemos também grave crise por causa dos  escândalos, internos à própria instituição eclesiástica. Ouviu-se o clamor universal (“a voz do povo é a voz de Deus”): “reparem a Igreja que se encontra em ruinas em sua moralidade e em sua credibilidade”.  Foi então que se confiou a um cardeal da periferia do mundo, Bergoglio, de Buenos Aires, a missão de, como Papa, restaurar a Igreja à luz de Francisco de Assis.

No tempo de São Francisco de Assis triunfava o Papa Inoccêncio III (1198-1216) que se apresentava como “representante de Cristo”. Com ele se alcançou o supremo grau de secularização da instituição eclesiástica com interesses explícitos de “dominium mundi”, da dominação do mundo. Efetivamente, por um momento, praticamente, toda a Europa até a Rússia estava submetida ao Papa. Vivia-se na maior pompa e glória. Em 1210, sob muitas dúvidas, Inocêncio III reconheceu o caminho de pobreza de Francisco de Assis. A crise era teológica: uma Igreja-Império temporal e sacral contradizia tudo o que Jesus queria.

Francisco viveu a antítese do projeto imperial de Igreja. Ao evangelho do poder, apresentou o poder do evangelho: no despojamento total, na pobreza radical e na extrema simplicidade. Não se situou no quadro clerical nem monacal, mas como leigo se orientou pelo evangelho vivido ao pé da letra nas periferias das cidades, onde estão os pobres e hansenianos e no meio da natureza, vivendo uma irmandade cósmica com todos os seres. Da periferia falou para o centro, pedindo conversão. Sem fazer uma crítica explícita, iniciou uma grande reforma a partir de baixo mas sem romper com Roma. Encontramo-nos face a um gênio cristão de sedutora humanidade e de fascinante ternura e cuidado pondo a descoberto o melhor de nossa humanidade.

Estimo que esta estratégia deve ter impressionado a Francisco de Roma. Há que reformar a Cúria e os hábitos clericais de todas as igrejas. Mas não se precisa criar uma ruptura que dilacerará o corpo da cristandade.
Outro ponto que seguramente terá inspirado a Francisco de Roma: a centralidade que Francisco de Assis conferiu aos pobres. Não organizou nenhuma obra para os pobres, mas viveu com os pobres e como os pobres. O Francisco de Roma, desde que o conhecemos, vive repetindo: o problema dos pobres não se resolve sem a participação dos pobres, não pela filantropia, mas pela justiça social. Esta diminui as desigualdades que castigam a América Latina e, em geral, o mundo inteiro.

O terceiro ponto de inspiração é de grande atualidade: como nos relacionar com a Mãe Terra e com os bens e serviços escassos. Na fala inaugural de sua entronização, Francisco de Roma usou mais de 8 vezes a palavra cuidado. É a ética do cuidado, como eu mesmo tenho insistido fortemente, a que vai salvar a vida humana e garantir a vitalidade dos ecossistemas. Francisco de Assis, patrono da ecologia, será o paradigma de uma relação respeitosa e fraterna para com todos os seres, não em cima mas ao pé da natureza.

Francisco de Assis entreteve com Clara uma relação de grande amizade e de verdadeiro amor. Exaltou a mulher e as virtudes considerando-as “damas”. Oxalá inspire a Francisco de Roma uma relação para com as mulheres, a maioria da Igreja, não só de respeito, mas de valorização de seu protagonismo, na tomada de decisões sobre os caminhos da fé e da espiritualidade no novo milênio.

Por fim, Francisco de Assis é, segundo o filósofo Max Scheler, o protótipo ocidental da razão cordial e emocional. É ela que nos faz sensíveis à paixão dos sofredores e aos gritos da Terra. Francisco de Roma, à diferença de Bento XVI, expressão da razão intelectual, é um claro exemplo da inteligência cordial que ama o povo, abraça as pessoas, beija as crianças e olha amorosamente para as multidões. Se a razão moderna não se amalgamar à sensibilidade do coração, dificilmente seremos levados a cuidar da Casa Comum, dos filhos e filhas deserdados e alimentar a convicção bem franciscana de que abraçando afetuosamente o mundo, estaremos abraçando a Deus.
Imagem: Papa Inocêncio III sonha com a basílica Lateranense salva e sustentada por São Francisco. Umbria, Assis, Basílica Papal de São Francisco - Basílica Superior - Fonte: Mondadori Portfolio /Antonio Quattrone Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/noticias/518868-francisco-de-assis-e-francisco-de-roma

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A atualidade do espírito de São Francisco


autor:Leonardo Boff

Fonte: Adital
Pelo fato de o atual Papa ter escolhido o nome de Francisco, muitos voltaram a se interessar por esta figura singular, talvez uma das mais luminosas que o Cristianismo e o próprio Ocidente já produziram: Francisco de Assis. Há quem o chame de o "ultimo cristão” ou o "primeiro depois do Único” quer dizer, de Jesus Cristo.
Seguramente podemos dizer: quando o Cardeal Bergoglio escolheu este nome quis sinalizar um projeto de Igreja na linha do espírito de São Francisco. Este era o oposto do projeto de Igreja de seu tempo que se expressava pelo poder temporal sobre quase toda a Europa até a Rússia, por imensas catedrais, suntuosos palácios e abadias grandiosas. São Francisco optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua, numa humildade que o colocava junto à Terra, no nível dos mais desprezados da sociedade, vivendo entre os hansenianos e comendo com eles da mesma escudela. Nunca criticou o Papa ou Roma. Simplesmente não lhes seguiu o exemplo. Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessa explicitamente: "quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco”: louco pelo Cristo pobre e pela "senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender. Atribui-se a ele a frase: "desejo pouco e o pouco que desejo é pouco”. Na verdade era nada. Despojou-se de qualquer título. Considerava-se "idiota, mesquinho, miserável e vil”.
Este caminho espiritual, vivido a duras penas, pois, à medida que seguidores acorriam, mais se opunham a ele, querendo conventos, regras e estudos. Resistiu o mais que pode e no fim teve que se render à mediocridade e à lógica das instituições que pressupõem regras, ordem e poder. Mas não renunciou ao seu sonho. Frustrado, voltou a servir aos hansenianos, deixando que seu movimento, contra sua vontade, fosse transformado na Ordem dos Frades Menores.
A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza? É possível uma fraternidade tão universal que inclua a todos, como ele o fez: o sultão do Egito que encontrou na cruzada, o bando de salteadores, o lobo feroz de Gúbio e até a morte?
Francisco mostrou esta possibilidade e sua realização mediante uma prática vivida com simplicidade e paixão. Ao não possuir nada, entreteve uma relação direta de convivência e não de posse com cada ser da criação. Ao ser radicalmente humilde, colocou-se no mesmo chão (humus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Sentiu-se irmão da água, do fogo, da cotovia, da nuvem, do sol e de cada pessoa que encontrava. Inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os últimos, para os lados com os demais semelhantes, independente se eram Papas ou servos da gleba,para cima com o sol, a lua e as estrelas. Todos são irmãos e irmãs, filhos do mesmo Pai de bondade.
A pobreza e a humildade assim praticadas não tem nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tira a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixa um galhinho quebrado para que se recupere, alimenta no inverno as abelhas que esvoaçam por aí, perdidas. Colocou-se no meio das criaturas com profunda humildade, sentindo-se irmão delas. Confraternizou-se com a "irmã e Mãe Terra”. Não negou o húmus original e as raízes obscuras de onde todos viemos. Ao renunciar a qualquer posse de bens, rechaçando tudo o que poderia colocá-lo acima de outras pessoas e acima das coisas, possuindo-as, emergiu como irmão universal. Foi ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coração puro, oferecendo-lhes apenas a cortesia, a amizade, o amor desinteressado, cheio de confiança e ternura.
A fraternidade universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres. Essa fraternidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para fraternidade humana. Sem esse respeito e essa fraternidade dificilmente a Declaração dos Direitos Humanos terá eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.
Esta sua postura de fraternidade cósmica, assumida seriamente, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real nunca chegaremos a formar a família humana que habita a "irmã e Mãe Terra” com respeito e cuidado. Essa fraternidade demanda inarredável paciência; mas, encerra também uma grande promessa: ela é realizável. Não estamos condenados a liberar o animal feroz que nos habita e que ganhou forma em Videla, Pinochet, no delegado Fleury e em outros covardes torturadores.
Oxalá o Papa Francisco de Roma em sua prática de pastor local e universal honre o nome de Francisco e mostre a atualidade dos valores vividos pelo fratello e poverello de Assis.


[Leonardo Boff é autor de Francisco de Assis: saudade do paraíso, Vozes 1999.
02/06/2013].

terça-feira, 23 de abril de 2013

Uma Ordem de Irmãos

 Fr. Odair Verussa, OFMCap

UMA ORDEM DE IRMÃOS
Nas origens da fraternidade
Em 1209, quando Frei Francisco pede ao papa a aprovação do seu grupo, a forma institucional identificativa é a da fraternitas e não a de uma “Ordem” religiosa. Vivem todos a comum dimensão de vida cujos traços de identidade o Testamento resume em: opção pela pobreza em minoridade, oração e freqüência às igrejas. Nos primeiros frades há um caráter profundamente desarmado, expresso na saudação “O Senhor te dê a paz”. Quem quiser pode se tornar frade menor, independentemente da idade, da condição social e da cultura. Lenta e inexoravelmente a chegada de indivíduos provenientes das fileiras clericais e magisteriais condicionam de forma diferente a primitiva fraternidade.
O caminho da sacerdotalização (*) da fraternidade de Frei Francisco começa cedo. Os primeiros que foram com ele pedir a provação da Igreja em 1209 certamente eram leigos, mas a mesma aprovação desperta o interesse e a chegada de clérigos, sacerdotes ou não. É a eles que o Testamento se refere quando diz: “os clérigos rezavam o ofício”. Frei Leão, Frei Iluminato são desse grupo e são sacerdotes. Em 1211 entra Frei Silvestre, sacerdote! O número dos clérigos, todavia vai crescer bastante entre 1217 e 1220. Entre eles já há vários mestres aos quais quase espontaneamente a fraternidade vai confiando o serviço fraterno de ministros, sem excluir os irmãos leigos, levando-os a assumir os destinos da jovem fraternidade. Frei Caetano Esser faz este precioso comentário: “Os ministros se encontravam frente a homens da Idade Média e o homem medieval por si mesmo não pensa nem vive senão de forma cooperativa, em corporações. Essa mentalidade leva a entender que devia haver na Ordem uma estrutura social bem definida. Francisco sustentava ao contrário sua concepção pessoal, querendo o homem bem enraizado em si mesmo e na inspiração divina, como se pode deduzir em primeiro lugar da concepção franciscana de obediência nos primeiros tempos. Sob este aspecto Francisco estava claramente em vantagem em relação ao seu tempo... e mesmo fazendo algumas concessões soube manter e conservar solidamente o seu ponto de vista“ (Introduzione Alla Regola Franciscana, 26-27). Com a sua profunda convicção da importância da fraternidade, Francisco sinaliza para a individualidade e subjetividade típicas da modernidade.
Os ministros e mestres querem organizar uma verdadeira Ordem, com estatutos rigorosos, competências bem definidas. Penso que não se pode falar de uma tendência de laxismo dos ministros e mestres, mas de uma dificuldade congênita deles, formados no refinado método escolástico de análise pontual, em intuir a fineza da simplicidade do pensamento de Francisco. Sem querer abrir mão da fidelidade do projeto original do santo eles conduzirão a fraternidade a uma normatização sempre maior e a um enquadramento nos critérios canônicos recém adquiridos pela legislação da Igreja. A diversificada compreensão do “modelo Francisco” leva os ministros e mestres a darem consistência à Fraternidade através da afirmação eclesiástica e social. Intencionalmente ou não, porém faz-se o distanciamento do primeiro ideal. A intenção parece ser a de atualizar o “mito Francisco”, mas a forma com que se inserem na pastoral da Igreja, na sociedade e nos ambientes de alta cultura distancia a fraternidade das suas origens, um pouco como canta Chico Buarque “é porque há distância entre intenção e gesto”.
O capitulo geral de 1230 encontra dificuldade para entender algumas passagens da Regra e do Testamento e nomeia uma delegação para representá-lo junto a Gregório IX (Hugolino), composta do Ministro Geral João Parente, o único irmão leigo do grupo, e de mais seis sacerdotes já conhecidos do papa, entre os quais Frei Antonio de Pádua e Frei Leão de Perego, que será o primeiro bispo franciscano. Os seis tinham se destacado pela atuação anti-herética no norte da Itália e no “movimento aleluia” cuja finalidade religiosa e política era a de reduzir dissidentes à obediência eclesiástica. Sabemos como Gregório se serve da amizade que tivera com São Francisco para se fazer intérprete qualificado da sua verdadeira intenção. Ele ajudara redigir a Regra e aprová-la. O grupo de delegados não é escolhido aleatoriamente nem democraticamente, mas intencionalmente entre frades conhecidos do papa e da cúria romana. O resultado é a bula “Quo Elongati” de setembro de 1230, abrindo caminho para consolidar as transformações e o processo de sacerdotalização da fraternidade. O prelado que Francisco escolhera como suprema instância disciplinar da fraternidade agora era a autoridade suprema da Igreja. Gregório IX estava com todo o poder para decidir. A santidade de Frei Francisco e o vigor dos Irmãos Menores são os instrumentos de que precisava para realizar seu plano restaurador do poder papal e da hegemonia da Igreja romana sobre o poder temporal e sobre as igrejas particulares. Entre as transformações da fraternidade nenhuma era mais significativa que a sacerdotalização, já em andamento quando Francisco ainda estava vivo. Grado Giovanni Merlo, minha referência nesta reflexão histórica, diz: “Os filhos de Francisco abandonaram a submissão a todas as criaturas e entraram definitivamente na área do poder”.
Muitas vezes a figura de Frei Elias é vista como um obstáculo para o processo de sacerdotalização, mas não parece ser assim. É verdade que ele nomeia ministros de preferência entre os irmãos leigos, porém ele favorece os estudos teológicos, a compra de livros e bíblias, promove a formação de professores em Paris impulsionando o estudo e a pregação, motores da clericalização e da sacerdotalização.
Quando Frei Aimão de Faversham é eleito Ministro Geral o processo de sacerdotalização entra numa etapa definitiva. Com ele entra em crise a identidade franciscana porque parece não ter tanta certeza da especificidade franciscana como irmãos menores. Procurará ele equiparar a fraternidade às demais ordens já existentes, sobretudo aos dominicanos, com quem os frades ingleses tinham estreito relacionamento. Suas intervenções promovendo a sacerdotalização se dão pela ampla reforma dos livros litúrgicos “conforme o modelo da cúria romana”. As transformações responsáveis pela fragilização da identidade franciscana recebem um extraordinário impulso com a nomeação de Frei Leão Valvassori de Perego como Arcebispo de Milão. Nada menos que Milão, a sé mais importante da Itália depois de Roma e das mais importantes de toda a cristandade. Trata-se de um frade “empenhado na vida pública urbana e na ação político-eclesiástica confiada pelo pontífice ao seu legado para a Lombardia” (Merlo, 108). Ele representa bem o minorismo da região do Rio Pó, que crescera em direta ligação com a Cúria Romana e menos com o franciscanismo da Úmbria, a serviço da hegemonia do papado “com os ambientes de estudo e com as Igrejas e sociedades locais e que assumira encargos pastorais de orientação, ensino, educação e formação dos fiéis” (ibidem).
A nomeação do primeiro frade menor como arcebispo não passa em silêncio. O novo Ministro Geral Crescêncio de Jesi convida os frades no capítulo de Genova (1244) a enviarem suas memórias sobre São Francisco, não contidas na primeira biografia de Tomás de Celano. Com o material que chega Celano redige a segunda biografia iniciando assim: “Começa o memorial no anseio da alma” conhecido pelo seu título latino “Memoriale in desiderio animae”. Na segunda metade do século XIII forma-se um contexto apropriado para o surgimento de muitos escritos franciscanos tendentes a reinterpretar os quarentas primeiros anos da fraternidade de acordo com as várias correntes internas. A repercussão da nomeação episcopal do primeiro frade menor vem recordada na 2Cel 148 assim: “Na cidade de Roma, encontraram-se com o senhor de Óstia- que depois foi sumo pontífice- os preclaros luminares da terra, São Francisco e São Domingos. Como falassem alternadamente coisas melífluas do Senhor, disse-lhes finalmente o bispo: Na Igreja primitiva, os pastores eram pobres e homens fervorosos de caridade e não de avareza. Por que não fazemos dos vossos irmãos bispos e prelados que sobressaiam aos outros pela doutrina e pelo exemplo? (cf.Tt 2,7) Entre os santos , surgiu uma disputa (cf.Lc,22,24) sobre quem devia responder, cada qual não se antecipando, mas oferecendo, antes obrigando um ao outro a responder. Na verdade, cada um era prior, pois cada um tinha devoção para com o outro. Finalmente, a humildade venceu Francisco, para que não se colocasse à frente, e venceu também Domingos, para que respondendo primeiro, obedecesse humildemente. Respondendo, portando, o bem-aventurado Domingos , disse ao bispo: Senhor, meus irmãos, se o reconhecerem, foram elevados a bom grau, e quanto me for possível, não permitirei que cheguem a outro tipo de dignidade. Depois que ele completou o discurso assim tão brevemente, o bem-aventurado Francisco, inclinando-se diante do bispo, disse: Senhor, meus irmãos foram chamados de Menores para que não presumam tornar-se maiores (cf. Mt20,26). A vocação deles os ensina a permanecer no chão e a seguir as pegadas da humildade de Cristo (cf.1 Pd 2, 21) para que finalmente na retribuição dos santos (cf.Sb 3,13) sejam mais exaltados do que os outros. Se quereis -disse- que produzam fruto (cf. Jo 15,2-8) na Igreja de Deus (cf. Fl 3,6), mantende-os e conservai-os no estado de sua vocação (cf.!Cor 7,20) e reconduzi-os às coisas do chão, mesmo contra a vontade deles. E assim suplico, pai, para que não sejam, tanto mais soberbos quanto mais pobres e se tornem insolentes contra os outros, não permitais de maneira alguma que eles sejam elevados à prelatura. “Estas foram as respostas dos bem-aventurados”.
O encontro descrito dos dois santos com o futuro papa é historicamente improvável, mas representa a inconformidade de muitos frades da época com a primeira nomeação episcopal de um frade menor e com as demais “metamorfoses” do franciscanismo, mesmo que promovidas a aprovadas pela cúpula da Igreja e da Ordem. A narrativa mostra que os novos rumos não são aceitos acriticamente mesmo que se imponham como irreversíveis, Frei Aimão se esforça em resolver as dúvidas que as transformações provocavam. Frades cultos de Oxford e Paris foram convidados a esclarecer os pontos duvidosos da Regra: Alexandre de Hales, João de La Rochelle, Roberto de La Bassé, Eudes Rigaud prepararam o texto conhecido como “Exposição dos quatro mestres sobre a Regra dos Frades Menores”. Eles tiveram suficiente clareza sobre as dificuldades da tarefa. Sabendo que o método escolástico com suas distinções e contra distinções podia levá-los a passar distante da verdadeira intenção de São Francisco subordinaram suas observações a um princípio superior e absoluto: era preciso observar a Regra “sicut a Sancto Francisco, dictante Spiritu Sancto, tradita fuit = conforme fora dada por São Francisco sob inspiração do Espírito Santo”. De fato, com a melhor das intenções os quatro mestres realizaram uma excelente obra de escolástica, distante, porém do projeto original de São Francisco.
Frei Tomás de Eccleston em sua Crônica da chegada dos Frades à Inglaterra refere uma passagem extremamente significativa das tensões vivenciadas na Ordem. Narrando sobre o trabalho dos quatro mestres conta o sonho de um frade ao qual São Francisco apareceu mostrando-lhe um poço profundo, símbolo de uma possível queda da Ordem num fosso escuro e sem saída, exatamente no momento em que se punha o problema de esclarecer os pontos duvidosos da Regra. O frade dirigiu ao santo o seguinte convite urgente: “Pai, eis que os padres querem explicar a Regra: melhor seria se tu mesmo nos explicasses a Regra”. Embora dada num sonho a resposta de São Francisco tem um elevado grau de concretude: “Filho, dirige-te aos frades leigos, que eles te exporão a Regra”.
O caminho da sacerdotalização seguida pelos superiores e mestres da Ordem não impede que muitos frades continuem assumindo o jeito de ser vivido e proposto por Frei Francisco: vida simples e pobre, fraterna e menor, com forte presença no meio dos últimos da sociedade, desenvolvendo a pregação exortativa. Entre estes não diminuiu a consciência da especificidade franciscana derivada da experiência cristã que provinha da vida e da intenção de São Francisco. A inconsciência da especificidade da vida franciscana podia afetar até um ministro geral como Aimão de Faversham, mas não a maioria sadia dos frades radicados na identidade jesuânica do carisma de Francisco, fossem eles clérigos ou irmãos leigos.
No processo de sacerdotalização a Fraternidade dos Irmãos Menores recebia estruturas fortemente sacerdotais e monásticas, mesmo conservando a inspiração pauperística. A deposição de Frei Elias em 1239, conforme a Crônica de Jordão de Jano e Tomás de Eccleston é precedida por uma complexa operação envolvendo os ministros de além-Alpes e Gregório IX, mediada por Frei Arnulfo Ânglico, penitenciário da Cúria pontifícia. Desta data em diante a condição dos irmãos leigos muda radicalmente em número e em importância nos serviços internos da Ordem. A constituição emanada deste capítulo de 1239 disciplinava em sentido aristocrático e clerical a entrada na Ordem. Critério para ser frade agora não é mais a conversão e o desejo de seguir Jesus Cristo do jeito de São Francisco. Somente serão aceitos os que forem úteis à Ordem: “com o suporte da própria formação cultural e clerical e de outras louváveis condições, podem ser úteis à Ordem e a si mesmos mediante uma vida de méritos e servir de exemplo para os outros”. Aimão de Faversham irá confirmar estes critérios que terão a seguinte redação nas Constituições de Narbona de 1260: “Ordenamos que ninguém seja recebido na Ordem para ser clérigo sem suficiente conhecimento de gramática ou de lógica; se for para ser leigo, que seja de tal condição que sua entrada produza muita edificação no clero e no povo. Se, apesar desta ordem for preciso receber leigos para preencher os serviços materiais, não se faça sem urgente necessidade e com especial licença do Ministro geral” (São Boaventura, Constituições de Narbona, Opera Omnia, VIII,450).
A sacerdotalização da Ordem serviu de instrumento nas mãos dos papas do século XIII para confirmar a absoluta centralidade eclesiástica e hierárquica do pontificado romano. Trata-se de uma centralidade que dura até hoje não tendo sido mudada nem pelo Concílio Vaticano II e cuja vigência nem sempre se dá em benefício da Igreja Particular e do Povo de Deus.
Resgate da Ordem de irmãos na Reforma Capuchinha
Na Reforma Capuchinha ressurge com vigor o princípio da fraternidade composta de leigos e clérigos completamente integrados entre si, com todos vivendo vida mista em sentido pleno, na dimensão contemplativa e ativa no apostolado, com direitos e deveres iguais. A total interação de frades clérigos e leigos se consolidava na observância da Regra e das Constituições, excetuando somente o que deriva da ordenação presbiteral. Mostram esta integração a tradição capuchinha, a história legislativa, a hagiografia, etc..
A Bula Religionis Zelus é dirigida nominalmente a um frade sacerdote e a um frade leigo. Os dois são autorizados a receber clérigos e leigos indiferentemente. Há diversos leigos entre os primeiros seguidores da reforma. A expressão “fratelli” dos textos legislativos primitivos é usada para clérigos e leigos. Exatamente porque é sublinhada a fraternidade e não o sentido clerical, se diz no inicio das Ordenações de Albacina: “Rogo e exorto todos os nossos irmãos desta confraternidade”. A autoridade e a precedência derivam da ancianidade e não da clericatura.
As Constituições de 1535-36, (Roma- Sta Eufêmia) acentua alguns aspectos significativos: Os frades simples entendem melhor a sabedoria de Deus. A recepção de candidatos não se baseava na formação cientifica e na clericatura, mas na ótima intenção e fortíssima vontade. A expropriação dos bens na entrada e na vida fraterna se faz sem distinção de clérigos e leigos. A formação do noviciado prioriza a vida religiosa. Nas eleições não há distinção de clérigos e leigos.
No regime interno da Ordem Capuchinha nota-se nos primeiros decênios uma importante presença dos irmãos leigos, quando vários deles são escolhidos como superiores. Os primeiros sinais de mudança começam com o encerramento Concilio de Trento (1565) pela valorização que nele se dá ao estado clerical e sacerdotal, alijando os irmãos leigos dos ofícios de superiores e privando-os da voz ativa e passiva. É então que se introduzem as descriminações. Mesmo assim, os superiores da Ordem sempre conseguem obter da Igreja exceções e dispensas. Excluídos que foram dos capítulos, Pio V reintegra os irmãos leigos em 1566 para que possam participar plenamente das eleições, mesmo com a proibição do Concilio de Trento. Estas práticas de cunho democrático-fraterno continuam comuns até os primeiros anos do século XVII. Até essa época são inúmeros os irmãos leigos guardiães e vigários de fraternidade. Alguns foram mestres de noviços ou mestres de noviços leigos. É conhecido o caso de Frei Rafael de Asti, perito em direito canônico, que sendo leigo foi leito definidor provincial várias vezes, custódio e guardião.
As mudanças irreversíveis nos costumes da Ordem se deram também aqui por um processo sacerdotalizante, pela criação de medidas penais, pela exasperação das normas jurídicas, pela intervenção dos cardeais protetores e da Congregação dos Religiosos, pela acentuação clerical do Concilio de Trento dada a toda a Igreja, bem acolhida por aqueles frades sacerdotes que já tinham mentalidade clerical e jurisdicista.
Pensando aspectos da Ordem de irmãos na vida da Província hoje
Nos últimos quarenta anos os ministros Gerais Capuchinhos vêem reiterando o pedido à Congregação dos Religiosos para que a Igreja reconheça a nossa Ordem como fraternidade, onde leigos e presbíteros dedicados à vivência dos valores da vida consagrada têm um carisma comum. Ainda em 2007 em visita à nossa Província, Frei Mauro Jöhri nos relatou sua audiência com o papa Bento XVI e as diferentes compreensões expressas por ambos. A posição oficial da Ordem Capuchinha é, pois de retorno às origens franciscanas e da nossa Reforma, de resgate da Ordem de Irmãos. Esta posição oficial da Ordem faz parte também da convicção vivencial da nossa Província, no seu conjunto e de cada frade? Na época do nascimento dos Capuchinhos estavam surgindo na Igreja os institutos clericais, de padres religiosos com caráter bem diferenciado das ordens medievais mendicantes. Assim nasceram os Teatinos, os Barnabitas, os Jesuítas etc... São padres que vivem os votos, mas se voltam, sobretudo para o apostolado tendo sua origem nos movimentos leigos surgidos na pré-reforma luterana e na contrareforma, dedicados à reforma da Igreja. São marcadamente romanos, florescendo nos países latinos como Itália e Espanha, e com freqüência nascem em Roma ou ao menos procuram indiretamente a aprovação e confirmação de Roma. Tendem a se afastar das formas de vida monástica e mendicante para exercer mais facilmente o apostolado, por isso não usam hábito e reduzem ao mínimo a vida e a oração em comum etc... Eles são os clérigos regulares.
Em nossa Província, no ambiente de renovação da Ordem, tomamos uma decisão incomum: substituir o curso de filosofia e teologia pelo Curso de Vida Religiosa (CVR), com a intenção explícita de oferecer a quem quer ser capuchinho em nossa Província, uma formação comum, com características essencialmente religiosas e franciscanas. É a consagração que tem peso no itinerário formativo, sob a ótica do nosso carisma franciscano-capuchinho. Antes do Concilio Vaticano, vivenciamos com toda a Ordem o processo de clericalização-sacerdotalização tanto do século XIII como dos séculos XVI-XVII. Tínhamos duas classes de frades: os padres e os irmãos leigos, com direitos iguais nas constituições, mas práticas distintas na vida cotidiana. Gostando ou não temos que reconhecer que a Ordem e a Província tinham frades de primeira e segunda classe.
Hoje, certamente se não tudo, quase tudo mudou para melhor, mas parece inevitável a constatação de que as práticas das atividades pastorais, especialmente de caráter paroquial, têm prioridade e se impõem sobre as práticas da vida fraterna, tanto no plano organizacional como no plano pessoal, mesmo sem fazer generalizações. Embora a maioria dos frades da Província respeite as escolhas pessoais dos jovens em formação, há referências das investidas de frades que lhes dizem claramente: vocês têm que ser padres, pois a Igreja precisa de padres! E há quem ainda acrescenta: os irmãos não fazem nada! Já Salimbene de Parma no século XIII, em sua Crônica defendia a “curialitas”, modelo aristocrático, para a vivência diária da vida franciscana e também dizia que os irmãos leigos eram “inúteis”, além de indignos de exercer os “ofícios da Ordem”. Aqui não é o lugar adequado para aprofundar o significado do ministério presbiteral na Igreja, mas há perguntas que brotam espontaneamente: têm que ser padres por quê? Aqui não se pretende discutir o lugar e a importância do presbítero, mas de perguntar que modelo de presbítero a Igreja precisa? O presbítero com cabeça clerical, de casta superior, cujos serviços são os únicos valorizados na Igreja, absorvendo e centralizando tudo? A Igreja não estaria precisando antes de pessoas felizes em suas escolhas vocacionais, dispostas a servir o Povo de Deus, como leigos, religiosas e religiosos consagrados, presbíteros, missionários em qualquer estado de vida?
A estrutura jurídico-hierárquica da Igreja faz de todo o presbítero necessariamente um clérigo, mas sua identidade primeira é de pastor. O padre João Batista Libânio diz: ”anuncia-se para o futuro um clero mais do altar, do sacramento, das celebrações, da organização paroquial bem diferente em sua visibilidade, do que na presença discreta, do diálogo, da animação, da conversa confidencial, da orientação espiritual, da palavra profética” (Cenários da Igreja, 30). Quando se afirma: “os irmãos não fazem nada”, a partir de que horizonte se faz? Trabalho é só celebrar os sacramentos, administrar as paróquias, coordenar pastorais etc...? Os irmãos leigos teriam que voltar para as cozinhas, portarias, hortas, sacristias etc..para deixarem de ser inúteis? Se os irmãos leigos às vezes não tem o que fazer numa paróquia capuchinha não é de se perguntar se algo não está equivocado no modo de organizá-la que não leva em conta nossa condição de Ordem de Irmãos? Será que só dos irmãos que se pode reclamar que não fazem nada? Não é a fraternidade que envia os irmãos para a missão, para qualquer missão, paróquia ou outras formas de presença? Não há padres omissos em relação ao ministério e aos trabalhos da fraternidade? Ouvimos o relato na última assembléia em que um irmão leigo está se situando e muito bem, em serviços pastorais não ministeriais. Se crermos que é a fraternidade que envia os frades para servir em paróquias pergunta-se: só os frades presbíteros são enviados? Nas origens franciscanas e capuchinhas a presença ativa a serviço do povo não é exclusiva dos presbíteros e não se orienta para clericalizar os irmãos leigos. Talvez o definitório provincial e os serviços de formação inicial e permanente pudessem trabalhar juntos para que todos os frades, antes da profissão perpétua não só se decidissem pelo estado de irmãos leigos ou presbíteros, mas também por uma opção pastoral, serviço, área e atividade de preferência. A disponibilidade não parece ficar comprometida. Ficaria antes aprimorada. 
É bom saber que os jovens formandos não dão muito ouvido às insinuações clericalistas que soam como assédio moral, mas não é bom saber que insinuações partem até de quem tem a responsabilidade de formar para uma fraternidade de iguais. Parece que se houver respeito pela consciência dos vocacionados e formandos, em suas diversas etapas, haverá também o cuidado e a responsabilidade em ajudá-los a discernir sua vocação sem forçá-los ou condicioná-los.. À Província como um todo, mas especialmente aos frades das gerações que se formaram a partir do CVR, cabe a meu ver a tarefa de aprofundar estas questões todas e descobrir caminhos de fidelidade ao nosso carisma de Ordem de Irmãos. Mesmo que pelo Direito Canônico os presbíteros sejam sempre clérigos, o que nos cabe é julgar e agir com os critérios da minoridade. De 1980 para cá os frades que se formaram em nossa Província fizeram o CVR essencialmente voltado para a formação franciscana. Aproximando-nos dos trinta anos de formação pelo CVR parece-me que a Província precisa fazer uma avaliação para verificar a qualidade da informação e da formação em geral, mas especialmente franciscana, que foi passada pelo CVR. Nessa tarefa de avaliar cabe um lugar especial aos frades que se formaram pelo referido curso.
Mais de uma vez já se disse que o CVR mais informou sobre franciscanismo, história, espiritualidade, valores etc..que formou. Assim, vale perguntar mais do que por resultados numericamente palpáveis, pelas convicções com que se vive o franciscanismo e as características de uma Ordem de irmãos. Irmãos leigos e presbíteros formados pelo CVR que contribuições oferecem para a vida fraterna local, provincial e para a vida eclesial? Que valores franciscano-capuchinhos os frades formados pelo CVR percebem em suas convicções e que lacunas e insuficiências estão também presentes em sua história pessoal? Que contribuições especificamente franciscanas os frades do CVR que já passaram pelo governo da Província ofereceram neste serviço? Os que atuaram na formação, na pastoral, como párocos, nas missões, na pastoral vocacional, no acompanhamento das pastorais, da OFS, etc..que qualidade franciscana imprimiram em seus trabalhos? São os frades do CVR que assumirão cada vez mais o governo da Província e que serão escolhidos no próximo capítulo. Qual é o sentido e a consistência da pertença que os envolve? Os frades do CVR que projeto têm para a Província? Nesta perguntas não vai nenhuma insinuação de dúvida quanto aos frades do CVR. Pelo contrário, confio neles. São sugestões para revisão.
A vocação comum à vida consagrada e franciscano-capuchinha, a vocação comum para a missão, para o serviço pastoral e outras características que nos são próprias não parecem ter a incidência que precisariam ter na avaliação da condição de presbíteros e irmãos leigos da Ordem de irmãos que somos. A nossa presença quase exclusiva em paróquias e o modelo de presbítero cultivado por muitos frades acabam formando uma espécie de filtro sacerdotalizante através do qual se relê tudo, consciente ou inconscientemente, colocando o serviço dos irmãos presbíteros como critério através do qual tudo é controlado, impedindo que os aspectos típicos da nossa Ordem de irmãos transpareçam quando se busca fundamentar nossas formas de presença, como situações concretas para viver o Evangelho e o nosso carisma. Em seu artigo “Presente e futuro do sacerdócio na Igreja Católica” padre Libânio traz uma passagem significativa para avaliação: “Numa cultura extremamente voltada para a exterioridade, vige uma figura de sacerdotes também eles cultivadores da aparência externa por meio de vestes, do brilho da liturgia e da presença da mídia. O próprio conteúdo das pregações sofre de superficialidade, ao carregar o tom na emoção, na imagem. Perde-se tanto no aspecto teológico de aprofundamento da fé quanto na riqueza simbólica própria da liturgia... Em reação a tal figura, cresce uma linha oposta. Desloca o polo para a fidelidade à verdade doutrinal ensinada pelo magistério, especialmente pontifício, e às prescrições canônicas da Igreja institucional no campo da moral, da liturgia, da disciplina eclesiástica até as raias do rigorismo ortodoxo, moralista e litúrgico. Cresce um tipo de ministro ordenado pouco preocupado em responder aos problemas de hoje, mas voltado para a conservação de fiéis dóceis... Aposta-se no purismo doutrinal , moral e disciplinar. (Vida pastoral, janeiro-fevereiro 2010, p 36-37). Aqui não se trata de desvalorizar a subjetividade e muito menos de exercer patrulhamento ideológico, mas de recordar os critérios da minoridade franciscano-capuchinha para avaliar o exercício do presbiterato numa Ordem de irmãos.
Recordo-me sempre a experiência de alguns anos atrás vivida na Província de Minas Gerais. Após a decisão de não aceitar mais paróquias além das que já tinha no momento, o que durou por vários triênios, o definitório, por orientação do capítulo provincial, procurou as dioceses e seus respectivos responsáveis para verificar a possibilidade de assumir novas paróquias. Acabaram assumindo duas, como muita dificuldade, mas antes ouviram várias respostas com este teor: “Os Capuchinhos são bem-vindos! Ficamos felizes em tê-los na diocese, mas não precisamos deles em paróquias!” Dá o que pensar! Se as igrejas particulares não precisassem mais de nós nas paróquias ficaria comprometida a nossa identidade ou teríamos que nos virar e revirar para rever nossas formas de presença, de serviços ao Povo de Deus, exercendo nossa criatividade radicada unicamente na condição de Ordem de irmãos, incluindo as formas de subsistência?
Esta resenha histórica acompanhada de algumas observações pessoais não pretende ensinar nada a ninguém; só quer ser um convite à reflexão sobre as convicções e práticas próprias de uma Ordem de irmãos que queremos ser. Certamente há muita riqueza a ser partilhada.
Frei Odair Verussa, OFMCAP
*Sacerdotalização. É o termo que Landini, Manselli, Rusconi, Grado Giovanni Merlo e outros historiadores franciscanos vêem usando em lugar de clericalização porque parece indicar melhor a progressiva introdução dos frades menores no organismo eclesiástico e na ação pastoral. Além disso, evita a falsa alternativa entre o caráter “laical” ou “clerical” da primitiva fraternidade e da sua evolução em Ordem. A alternativa verdadeira está, para Luigi Pellegrini, entre a “absoluta precariedade e instabilidade das origens e o sucessivo processo de estabilização e normalização institucional”.
Bibliografia
- MERLO, Grado Giovanni, Em nome de São Francisco. Petrópolis, Vozes. 2005.
- Os Capuchinhos, Fontes Documentárias e narrativas do primeiro século, 1525-1619, CCB, Brasília, 2007.
- Uma Ordem de irmãos, A ordem Franciscana é uma fraternidade aberta a clérigos e leigos. Documentação histórico-jurídica preparada pela Cúria Geral OFM Cap em 1983.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Fraternidade:Nossa Riqueza

Este texto seguiu de perto o capitulo Vivere la fraternità, do livro “La gioia di viverei il Vangelo”, de Michel Hubaut, OFM, publicado pelas Edizioni Messaggero de Padova, p. 22-33
Frei Almir Ribeiro Guimarães,OFM (*)
1. O Documento final do Capítulo da OFS de Manaus pediu que fosse feito um esforço de revigoramento das reuniões mensais e da vida fraterna. O tema da fraternidade é vasto e complexo. Não é finalidade deste texto refletir sobre todos os seus aspectos e implicações. Desnecessário lembrar e frisar que a dimensão da fraternidade perpassa toda a Regra e colore o projeto de vida dos seculares. Constituímo-nos em Fraternidades. Somos Fraternidades da Ordem Franciscana Secular.
2. Ser irmão significa não querer dominar, mas servir. Uma das palavras-chaves da espiritualidade franciscana éservir. Nos escritos de Francisco encontramos mais de cinqüenta vezes o verbo servir e perto de vinte vezes o substantivo servo. Belo e sugestivo o que Francisco escreve: “Neste gênero de vida, nenhum irmão tenha poder ou dominação, principalmente entre si. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes dos povos os dominam e os que são maiores exercem poder sobre eles, assim não será entre os irmãos. Mas todo aquele que quiser tornar-se maior entre eles, seja ministro e servo deles. E quem entre eles é o maior, faça-se como menor” (…) “E nenhum irmão faça ou fale mal do outro. Antes, pelo contrário, sirvam e obedeçam de boa vontade uns aos outros na caridade do espírito” (Regra não Bulada 5,12-17).
“E ninguém se chame prior mas, neste gênero de vida, todos se chamem irmãos menores. E um lave os pés dos outros”( Regra não Bulada 6,3).
3. Os relacionamentos fraternos entre os discípulos de Francisco situa-se na linha dos servidores. Na experiência do Poverello, em sua juventude, ele compreendeu que os relacionamentos humanos eram marcados pela dialética do padrão e do empregado, do forte e do fraco, do superior e do inferior. Sabemos que a mesmo impulso nos ronda: a grande tentação do poder, ser o maior, o mais inteligente, o mais brilhante, o mais forte, em resumo, o primeiro. Normal que as pessoas queiram avançar e progredir. Francisco compreendeu claramente que esse desejo fundamental de afirmar-se tem como perversão o desejo do domínio e da apropriação. Somos todos capazes de fazer uma lista de exemplos concretos disso no campo profissional, nos relacionamentos nacionais e internacionais e mesmo nos ambientes eclesiais. Nossa sociedade, baseada na competição e competitividade, é feita para os lobos e não para os fracos e débeis. No Evangelho, notamos a vontade de brilhar dos filhos de Zebedeu. Francisco quer construir sua nova fraternidade baseada na idéia do serviço. Para ele, converter-se à fraternidade significa passar gradualmente do dominador que dorme em cada um de nós ao servo dos irmãos.
4. Francisco fará do mútuo serviço, vivido em minoridade, na igualdade, na simplicidade, na humildade um dos fundamentos da fraternidade. Ele sabe que cada grupo humano precisa de pessoas responsáveis pelo seu andamento. Mas sua autoridade não pode ser um poder de domínio, mas um serviço. “Os ministros acolham os irmãos com caridade e benevolência. Tenham-lhes tanta familiaridade que os irmãos possam lhes falar e proceder como senhores para seus servos. Pois assim deve ser que os ministros sejam servos de todos os irmãos” (Regra Bulada 10,5-6).
5. Servir significa partilhar com confiança. Para Francisco ser irmão significa querer servir os outros. Isso pressupõe que conheçamos suas necessidades. Fraternidade é um lugar onde cada pessoa pode dar, pedir e receber. “Onde quer que estejam os irmãos, mostrem-se familiares uns com os outros. E cada um manifeste ao outro com confiança suas necessidades, porque como uma mãe nutre e ama seu filho carnal com mais cuidado não deve um amar e nutrir seu irmão espiritual? E se algum cair doente que os irmãos o sirvam como gostariam de ser eles mesmos servidos” (Regra Bulada 6,79). Francisco fala da pobreza e da fraternidade no mesmo texto. Não se pode dissociar fraternidade e pobreza. O pobre é alguém que se encontra na necessidade. Todos somos pobres de alguma coisa. Para cobrir esta pobreza, o Senhor nos dá irmãos e irmãos que nos complementam. Tornamo-nos como transmissores das atenções de Deus para com nossos irmãos e irmãs. O homem satisfeito consigo mesmo nunca será irmão. A fraternidade supõe pessoas que, ao mesmo tempo, dão e recebem. Se no casal, na sociedade e em nossos grupos apenas recebemos não existe fraternidade. O paternalismo gera seres infantis e assistidos e não irmãos e irmãs.
6.Francisco privilegia a imagem da mãe. Características do amor maternal: ternura vigilante, intuição, devotamento. Francisco fala do amor espiritual para significar que não estamos num ajuntamento qualquer, mas na força do Espírito que une e cimenta os relacionamentos.
7. A fraternidade é o primeiro lugar de nossa conversão. É no nível dos relacionamentos que se exercita e se verifica nossa vida de fé. Desde o momento do encontro com o leproso Francisco sabe que converter-se ao Evangelho é, antes de tudo, sair de si mesmo. Uma fraternidade com os mais simples… encontra-los, servi-los, viver com eles. Nesse dia, ele descobre a fraternidade. Mais tarde haverá de compreender que o Cristo fez a mesma opção, ou seja, viver a singeleza e pobreza do ser humano. Cristo sai de si mesmo. Cada manhã podemos fazer a escolha de sairmos de nós mesmos e caminhar na direção do Senhor e dos outros. A vida de fé é sempre uma saída de si, sempre um êxodo na busca de uma maior felicidade.
8. Os irmãos que o Senhor nos dá constituem um convite à conversão. Eles nos instigam a que nos superemos. Sua maneira de ser e a convivência com eles nos revelam quem somos nós. Os relacionamentos entre as pessoas são um lugar de prova, de verificação onde cada um faz a verdade. Não se pode trapacear com aqueles que vivem todo o tempo conosco. Os irmãos me fazem descobrir meu pecado: inveja, bloqueios, trevas, pobreza, incapacidade de amar de verdade sem dobrar-me sobre mim mesmo. Somente a pessoa que faz a verdade de si pode ser irmão.
9. Os que buscam uma fraternidade ideal (ou um casal ideal) é quem vive na ilusão e não na verdade. Sonha com uma fraternidade ideal e não a constrói cada dia. Um dos fundamentos da fraternidade é assumir as grandezas e as misérias dos outros. O mistério da cruz está plantado no seio das fraternidades e do casal. A vida fraterna será um sucesso se for uma vitória cotidiana, vitória do Espírito, sobre o caos do pecado.
10. A fraternidade evangélica não existe ainda. Está sendo construída. É uma história, uma utopia criativa, uma tensão fecunda. Cada um de nós não cessa de converter-se ao amor fraterno. Onde quer que homens e mulheres desejem viver a fraternidade evangélica sempre se erguerão forças caóticas para destruí-la. Podemos designá-los de diabo, trevas ou o simplesmente o mal. Não se vive a fraternidade “como reserva celeste”. Em todas as comunidades há doentes, velhos impotentes, pessoas difíceis… que constituem uma parte do povo que marcha na direção de Deus.
11. Não se vive a fraternidade como espaço idealizado. Francisco viveu a fraternidade como um lugar pascal. Nela encontrou suas maiores alegrias, mas também grandes sofrimentos. Ali, desta maneira, ele entrou na verdadeira pobreza evangélica.
Concluindo
Nossas fraternidades constituem nossa riqueza e nosso patrimônio.
Há nelas um pulular de talentos.
Quando se fecha uma fraternidade, via de regra, o motivo foi a negligência no campo do fraternismo.
Histórias aquecem histórias, histórias aquecem histórias.

Pontos práticos a respeito das reuniões e vida fraterna
1. Nossa riqueza são nossas fraternidades concretas: os talentos de tantos que não podem ser desconsiderados. Pobres são as fraternidades em que apenas alguns circulam pelos seus espaços.
2. Todos precisam participar da vida da fraternidade. É sinal de doença quando fraternidades não têm candidatos para os serviços necessários.
3. Atenção toda especial deve ser dada no sentido de que não haja faltas às reuniões e que os afastados sejam buscados. Os que faltam à reunião serão convidados a justificar a ausência com antecedência.
4. Sinal de fraternidade é a correponsabilidade na contribuição financeira.
5. Certamente será fundamental valorizar a reunião geral. Esta precisará de revestir de alguns elementos:
● Realizá-la respeitando seus tempos: oração, estudo e confraternização. Nunca ela pode ser ocasião de tédio. Todos precisam ter vontade de voltar no mês seguinte.
Não durar nem demais, nem de menos.
● Pedir pontualidade.
● Realizá-la em lugar marcado por certa beleza…
● Inventar mecanismos para que os irmãos se encontrem em outros momentos, sem obrigação e coação.
● Fazer uma reunião opcional para estudo e oração.
● Fazer de dois em dois ou mais os trabalhos pastorais.
● Cuidar que algumas vezes a fraternidade tenha celebração eucarística própria.
● Que o maior número de irmãos tenham tarefas na reunião mensal ou em outros momentos da vida da fraternidade. Ninguém se sinta aposentado.
6. Necessário preparar os irmãos para os cargos e serviços.
7. Fazer reuniões de tal modo que sejam convidados umas duas vezes por ano familiares, filhos, netos e amigos.
8. Quando as fraternidades são grandes há o costume de se dividir a mesma em grupos de vivência fraterna, orante e de estudo.
9. Cuidar carinhosamente da visita aos irmãos enfermos e idosos.

(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFMAssistente Nacional pela OFM e Assistente Regional do Sudeste II
fonte: www.ofs.org.br

terça-feira, 12 de março de 2013

O testamento de Clara e a Ordem dos Frades Menores


Foi bem recentemente que o Testamento de Clara mereceu maior atenção  por parte dos estudiosos das Fontes Franciscanas e Clarianas, dos frades e das clarissas. Não havia uma transmissão do texto latino.  Dispunha-se de alguns exemplares do Testamento em velho francês e em alemão, línguas que provavelmente Clara não conhecia. Dispúnhamos  de poucos estudos a respeito, salvo comunicações para discutir sua autenticidade. Nos últimos decênios  foram descobertos manuscritos latinos e feitas edições críticas do Testamento. Estabeleceu-se a autenticidade do texto. Hoje, ele pode receber a atenção que merece. Jean-François Godet, especialista no estudo das Fontes Franciscanas, escreve sobre o Testamento. O estudo de Godet  foi publicado  na revista  ”Évangile  Aujourd’hui”, n. 234, p. 41-46. Aqui, apresentamos uma condensação de seu texto, esperando termos sido fiéis ao estudo.
Tudo  leva a crer que Clara tenha composto seu Testamento quando se deu conta que seus dias tocavam o fim. Já tinha ela escrito a Forma de Vida de São Damião que havia recebido a aprovação do cardeal Rainaldo, protetor dos frades e das senhoras pobres. Em 1253, faltava ainda a aprovação do Papa  Inocêncio IV. Caso Clara viesse  a morrer antes de chegar uma confirmação oficial papal por escrito, ela decide, então, resumir, num único escrito, o que era importante, fundamental e essencial em sua  Forma de Vida. Escreve um Testamento para suas irmãs. Mas não somente para elas:  “…recomendo a todas as minhas irmãs, atuais e futuras, à Santa Igreja romana, ao  sumo pontífice e, principalmente, ao Senhor Cardeal  que for encarregado da ordem dos Frades Menores e de nós (TestCl   44)”.  E um  pouco mais adiante:  “E assim recomendo e confio minhas irmãs, presentes e futuras, ao sucessor de nosso Pai São Francisco  e a toda Ordem”  (TestCl  50).  Como Francisco, Clara queria que suas irmãs permanecessem no seio da Igreja e as confiava ao papa, mas sobretudo ao cardeal  que fosse nomeado  para ser “governador, protetor e corretor” da Ordem dos Frades Menores. O texto que apresentamos deseja colocar em realce os elementos da Forma de Vida de Clara que ela quer destacar e salientar no Testamento.
Os elementos essenciais da Forma de Vida de São Damião que Clara recorda no Testamento estão contidos, de modo  particular, no capítulo VI da Regra. Este texto é o âmago e coração da Forma de Vida.
Viver a pobreza de Jesus  -  Antes de tudo, Clara e suas irmãs abraçaram  a vida evangélica de penitência. Esta conversão levou-as a viver na santa pobreza, na pobreza de Jesus:  nada possuindo, de nada se apropriando.
Tal compromisso com a pobreza será observado até o fim. De nada se apropriarão e nada aceitarão além do que lhes for absolutamente necessário.  Este é o “caminho e a mais alta pobreza” de Jesus que elas desejam seguir.
Cuidados fraternos recíprocos  -   Clara e suas irmãs foram chamadas a levar este gênero de vida pelo exemplo de   Francisco. Em seu Testamento, Clara menciona Francisco 17 vezes.  Todas as vezes para apresentar sua autoridade e sua santidade como garantia da maneira que tinham elas de viver a pobreza de Francisco. Todas as vezes o nome de Francisco  é colocado em destaque  por meio de certas palavras:  “pai santo”,  “bem-aventurado”,  “muito bem-aventurado”.  Com sua maneira de falar, Clara  afirma com nitidez que Francisco foi para ela e as irmãs instrumento do chamamento de Deus, da misericórdia e da graça do Senhor. Clara, desta forma, se intitula “plantinha”, plantinha de Francisco. Em linguagem medieval, isto quer dizer que ela e suas irmãs de São Damião foram fundadas por Francisco.  Não se trata de uma imagem poética ou romântica, mas de um estatuto oficial. Está bem explicitado: ela e suas irmãs  responderam ao chamado de Deus  abraçando a maneira de viver de Francisco e prometendo-lhe obediência.
Francisco deve ter ficado um pouco surpreso ou embaraçado com tal afirmação porque na verdade , segundo Clara,  ele sabia que elas administravam bem as dificuldades da vida  no campo da pobreza evangélica. Francisco se deu bem conta que ela, como seus frades,  tinham “garra”, estavam, se podemos dizer, no mesmo plano.  Por isso, Clara escreveu: “… assumiu o compromisso, por si e por sua Ordem, de ter sempre por nós o mesmo cuidado diligente e a mesma atenção especial que tinha para com os seus irmãos”  (TestCl  29).
O compromisso de Francisco ia além de prometer cuidar de Clara e de suas irmãs como cuidava de seus frades. Obrigava também seus frades a se ocupar das irmãs de São Damião. Os frades e as irmãs viviam da mesma maneira o caminho evangélico. Uns e outros constituíam a mesma  fraternitas.
São Damião, depositário da inspiração de Francisco  - Em seu  Testamento, Clara lembra  a situação que viviam quarenta anos antes esses homens e essas mulheres pertencendo à mesma  fraternitas, vivendo a pobreza evangélica e  cuidando das necessidades uns dos outros, os frades nas estradas do mundo e as irmãs em São Damião. Eles andarilhos itinerantes, elas sedentárias, mas todos vivendo a mesma forma de vida segundo o Evangelho.   No momento em que Clara escreve seu Testamento,  muita coisa havia mudado.
Os irmãos tinham se tornado uma Ordem religiosa, a Ordem dos Frades Menores, oficialmente reconhecida pela Igreja.  Depois da morte de São  Francisco, a Ordem dos Menores se difundiu com sucesso e se tornou uma Ordem clerical. Os frades prestavam serviço à Igreja através dos ministério sacerdotal, da pregação e do ensino da teologia.  Alguns deles chegaram a ser tornar bispos.
Tal evolução mudara a maneira de viver dos Frades Menores e seu modo de relacionamento com as pessoas em geral e, em particular, com as Irmãs Pobres de São Damião.
Depois da morte de São Francisco,  Clara  haveria de lutar  para conservar a identidade de São Damião, como também da fraternitas. Sabia ela muito bem que os frades e as irmãs precisavam uns dos outros  para poderem observar fielmente  a  pobreza evangélica que haviam prometido.
Sabiam-no também os companheiros de Francisco e, por isso, mantinham estreito relacionamento com Clara. São Damião se tornou o depositário da inspiração  de Francisco. Na Vida de São Francisco, composta  pouco depois da canonização de São  Francisco,  em 1228, Tomás de Celano elogiava a “ gloriosa religião da excelente Ordem das  Senhoras Pobres, que vivia na igreja de São Damião”.  Não hesitou em decantar longamente as virtudes da Senhora  Clara, pedra preciosíssima (cf. 1Cel 18-19).
Autoridade das irmãs sobre os frades?  -   Alguns anos mais tarde, em sua primeira carta a Inês de Praga, Clara alude à alegoria do  Sacro Comércio de Francisco com a Senhora Pobreza:  “Que grande e louvável comércio: deixar os bens temporais pelos eternos, merecer os bens celestes em vez dos terrestres, receber cem por um e possuir a vida feliz para sempre” (1In 30).  Pouco após, quando Inês de Praga  teve certas dificuldades com o Papa Gregório IX que queria lhe impor suas próprias constituições  à nova comunidade de Praga, Clara pede que ela siga a orientação de Frei Elias, o ministro geral (2In 15-16).  Elias era o irmão que Francisco havia colocado à frente da  fraternitas.  Clara o considerava tanto ministro dos frades quanto das irmãs.
Outros episódios dos começos  realçam o papel das mulheres de São Damião.  A Legenda dos Três Companheiros, escrita  em 1246, talvez por  Frei Rufino, primo de Clara,  relata  a história de Francisco trabalhando na restauração  da igreja de São  Damião,  profetizando que aquele lugar “se tornaria um mosteiro de senhoras por cuja fama e vida  na Igreja universal será glorificado o nosso Pai celeste” (3Comp 24).
Clara fará novamente o relato da história  em seu Testamento. Acrescentará, no entanto, que na época, Francisco não tinha irmãos, nem companheiros. (TestCl 9-17), sugerindo assim que a existência das irmãs fora interior à dos frades!
Em 1247 em seu Memorial no desejo da alma,  Tomás de Celano  repetirá os louvores às Senhoras Pobres de São Damião, colocando na boca de Francisco “que um só e mesmo espírito havia tirado do mundo os irmãos e aquelas senhoras pobrezinhas” (2Cel 204).
Finalmente, na Legenda de Santa Clara, que  Celano  escreveu em 1255,  está dito claramente que dois companheiros de Francisco estão à cabeceira de Clara quando ela morreu: Frei Leão e Frei Ângelo (LegCl 45).
Todos estes documentos ilustram  não somente o fato que, após a morte de  Francisco, seus companheiros conservaram alta estima por Clara e suas irmãs, mais que também juntos – e talvez sob a direção moral de Clara -  conservaram, o melhor que puderam, a fraternitas  dos primeiros tempos durante a evolução das coisas que haveriam de distanciar os irmãos das irmãs.
Isto explica o fato de que sempre de novo  Clara  pediu ajuda e apoio  dos Frades Menores  para ser fiel à vida evangélica de pobreza que eles e elas haviam prometido, lembrando-lhes que Francisco haviam se comprometido pessoalmente, comprometendo também os irmãos.

Missão fraterna até o fim

Francisco, de fato, havia prometido cuidar das irmãs como cuidava dos irmãos. Clara haverá de lembrar essa promessa, ao mesmo tempo para uns e para outros, na Forma de Vida  (RegCl 6,2) e em seu Testamento (TestCl 33).  Que Francisco  tenha honrado sua promessa pode se provar por dois outros documentos. O primeiro  são uns louvores  (lauda)  que ele compôs para  Senhoras Pobres nos primeiros meses de 1225. Por aquela ocasião, o Poverello estava  muito doente e “morava” junto de São Damião. Foi a época  em que compôs  seu belo Cântico do Irmão Sol, e pouco depois, com grande amor, um outro Cântico  para irmãs (Audite Poverelle). O segundo  e último documento de que dispomos, citado por Clara em sua  Forma de Vida, foi escrito pouco antes de sua morte e foi, segundo os termos de Clara, expressão de sua última vontade para as irmãs: “Eu, Frei Francisco, pequenino, quero seguir  a vida e a pobreza de  nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe santíssima, e perseverar  nela até o fim e rogo-vos, senhoras minhas,  e dou-vos conselho para que vivais sempre nesta santíssima vida e pobreza. E estai  muito atentas  para que, de maneira alguma, vos afastardes dela por doutrina ou conselho de alguém” (RegCl 6,7).
Tendo em mente tudo o que fez Clara depois da morte de Francisco  fica claro que não somente  ela recebeu a mensagem, mas que a considerava como uma missão.
Frei Almir Ribeiro Guimarães
fonte:http://www.franciscanos.org.br/?p=32422