sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A Missão dum Movimento Laical.

Deu no CCFMC Boletín Abril/Maio 2008:
Em Fevereiro de 1208, Francisco ouviu o envio missionário de Jesus “Ide e anunciai: O Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. Recebestes de graça, dai também de graça! Não leveis nos cintos moedas de ouro, de prata ou de cobre” (Mt. 10, 7-9). Cheio de entusiasmo e muito emocionado exclama: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo fazer do íntimo do coração!” (1Cel 22,3). É o início de um movimento novo na Igreja.
E é o começo de uma nova missão: O pobre pregador ambulante Jesus de Nazaré torna-se vivo e palpável de novo. Ele, que veio para anunciar a Boa Nova aos pobres, torna-se, para Francisco, conteúdo e forma da sua missão. Quer seguir as pegadas Dele. Os cansados de carregar o peso do seu fardo, excluídos das magníficas catedrais, dos mosteiros poderosos e das cidades ricas da Idade Média, devem experimentar, outra vez, a predileção de Deus pelos pobres. Por isso, escolhe a pobreza, pois, somente quem é pobre pode sentir como se sentem aqueles que estão sempre por baixo, vivendo das migalhas dos ricos. E só quem não está preso a determinado lugar pode chegar onde as pessoas estão presas à sua miséria. Sua missão e a de seus irmãos será anunciar-lhes a mensagem libertadora do Evangelho. Quando Francisco mal tinha sete irmãos, mandou-os dois a dois aos quatro pontos cardeais para levarem esta mensagem consoladora à humanidade. Não só com palavras mas, como fez Jesus, com palavras e ações.
Na primavera do ano de 1209, passou-se um ano desde a experiência de Porciúncula. Então, Francisco pensou que seria o tempo próprio para apresentar o seu movimento à Igreja: “Vejo, irmãos, que o Senhor quer, misericordiosamente aumentar a nossa comunidade. Indo, portanto, à nossa Mãe, a santa Igreja romana, notifiquemos ao sumo pontífice, o que o Senhor começou fazer por meio de nós, para que prossigamos o que começamos em conformidade com a vontade e preceito dele.” (LTC 46, 2). O Papa deveria ver e experimentar o que o Senhor começou através deles. Também aqui, esta certeza interior: “O Senhor deu-me”. Os irmãos que se juntaram a Francisco viviam com os pobres e excluídos. A mensagem do pobre Jesus de Nazaré fez-se sentir e foi vivida entre eles mais uma vez. Isto deveria ser anunciado à Igreja. Então, os doze irmãos encaminharam-se para Roma nos seus hábitos ásperos para se apresentarem ao Papa. Como o bispo de Assis se encontrava precisamente nesta época em Roma, louvando os irmãos com entusiasmo, o Papa não teve outro remédio senão confirmar o que Deus tinha começado mediante Francisco. “O pontífice, porém, como era dotado de especial discrição, assentiu, no devido modo, aos desejos do santo e, exortando-o e aos irmãos sobre muitas coisas, abençoou-os dizendo-lhes: “Ide com o Senhor, irmãos, e, como Ele se dignar inspirar-vos, pregai a todos a penitência” (LTC 49,2).
O paralelo é visível. Jesus congrega doze discípulos escolhidos e confia neles a continuação da sua missão. Eram pesca-dores, artesãos, pequenos funcionários, quer dizer, pessoas que não pertenciam às elites teológicas do seu povo, mas que estavam abertas ao espírito de Deus que lhes foi anunciado por Jesus. Os primeiros companheiros de Francisco também foram gente do povo. Camponeses e artesãos pessoas simples e pessoas finas, às quais Francisco pode transmitir a sua visão de um outro mundo mais pacífico. Assim surgiu um movimento livre de todos os desejos de posse e domínio, um movimento capaz de transmitir assim, de novo, o Evangelho como mensagem luminosa da libertação e da esperança. O Papa Inocêncio III, o papa mais poderoso da Idade Média, reconheceu isto e deu a este movimento laical a autorização de anunciar a Boa Nova. Entendeu os sinais do tempo.
Se quisermos entender e celebrar corretamente o carisma franciscano 800 anos depois deste evento, é necessário, sendo pessoas franciscanas, que tenhamos esta certeza interior que Deus nos deu; e temos de reivindicar na Igreja outra vez o fato de os leigos terem um direito inalienável a anunciar porque Deus os chamou e os enviou.

Andréas Müller OFM Extraído de http://www.ccfmc.net/wPortugues/cbcmf/cbcmf-news/2009/2009_04_News.shtm

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O Amor Esponsal de Santa Clara de Assis.

 
Por Frei João Mannes, OFM
No dia 11 de agosto celebrou-se a solenidade de Santa Clara de Assis. Por isso, nesta reflexão colocamos em evidência um dos aspectos mais relevantes de sua espiritualidade, isto é, o seu relacionamento esponsal com Jesus Cristo, que na cruz entregou-se a Si mesmo, voluntária e totalmente, por amor à humanidade.
Santa Clara fez-se esposa do Senhor dos senhores porque se sentiu profundamente afeiçoada pelo Seu irrestrito amor. Por divina inspiração, Clara renunciou a todos os outros amores possíveis para poder entregar-se inteiramente ao único esposo Jesus Cristo. Em outras palavras, com todas as fibras do seu coração, procurou evitar que “toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo”(RSC 10,6) desviassem o seu coração do único necessário: Jesus Cristo. Assim, conservando o seu corpo casto e virginal, sem nada de próprio, acolhe Jesus no claustro de seu seio. Por conseguinte, Clara revive espiritualmente o mistério da mãe do Senhor, que humildemente dispôs-se à ação transformadora do Espírito Santo e tornou-se efetivamente a mãe do Filho do altíssimo Pai.
Clara retrai-se do corre-corre da “cidade” e recolhe-se no santuário de sua alma para ali, na mais pessoal e individual solidão, encontrar-se a sós com o Amado. No tálamo do seu coração, no silêncio dos sentidos e do intelecto deixa-se enlevar tanto pelo amor do Amado, ou melhor, do Amante, que todo o seu afeto, amor, carinho, atenção e serviço às suas Irmãs, aos pobres e doentes são manifestações concretas de sua uniformidade com o Espírito de Cristo. O Ministro geral da OFM, Frei José Rodríguez Carballo, escreveu na Carta para a solenidade de Santa Clara – 2008, que “é vivendo no amor à Palavra que se chega a ser morada da Trindade (cf. Jo 14,23) e se adquire aquele olhar de fé que, graças a ele, nos permite vislumbrar o rosto do Amado no rosto dos irmãos e irmãs”. Enfim, pela caridade igualamo-nos a Deus, que é Amor, de acordo com Santo Agostinho: “O que o homem ama, isto o homem é”.
A Irmã Pobre, à medida que adentra sua mais interior profundidade, que é a morada de Deus, reencontra-se a si mesma e a todas as criaturas, que antes abandonara por amor a Deus. Assim, a clausura material de Clara e de suas Irmãs, também chamadas de Damas pobres, não é fuga nem rejeição do mundo, mas é, antes, expressão de um silêncio e recolhimento interior que possibilita a contemplação de nós mesmos e de todos os seres do universo, à luz da Palavra criadora que jorra do silêncio eterno de Deus. Conforme exorta-nos Francisco, “se a Alma não consegue descobrir o silêncio e o recolhimento interior da sua cela (que é o irmão Corpo), de pouco aproveita ao religioso a outra cela, construída pela mão do homem”(LP 80).
Todavia, Jesus Cristo não é somente o esposo de Clara, mas de todas as Damas pobres. Por isso, Clara louva imensamente a decisão de Santa Inês de Praga que renunciara a todas as benesses de um casamento imperial para unir-se em matrimônio com o Cristo pobre. Exorta-a, porém, de jamais “perder de vista o ponto de partida” de sua história de amor. Na verdade, foi o “espírito do Senhor” que a priori “seqüestrou o seu coração” e acendeu nela um ardentíssimo desejo de unir-se a Jesus Cristo como sua digníssima esposa. Por essa razão, Clara exorta-a a olhar, a considerar e a contemplar sempre o Filho de Deus encarnado, que fixou terna e afetuosamente sobre ela o Seu olhar e suscitou nela uma resposta, consciente e livre, de adesão total a Ele. Afinal, é constante o risco de sermos seduzidos pelos apelos imediatos do ter, do poder e do prazer, que obscurecem o ponto de partida. Mas Inês deu, sim, até o fim, uma resposta de amor Àquele que a amou primeiro, “até o extremo”.
Porém, ter a Jesus Cristo como único esposo não é um privilégio exclusivo das Damas pobres. Lê-se na Carta aos fiéis (segunda recensão), de Francisco, que “são esposos, irmãos e mães (cf. Mt 12, 50) de Nosso Senhor Jesus Cristo” (2Fi 50) aqueles e aquelas que se unem a Ele pelo Espírito Santo e fazem até o fim as obras do Senhor. Assim sendo, esposar-se com Jesus Cristo é comprometer-se com a obra de Sua vida.
E Clara, ao descobrir que Francisco amava e seguia de verdade o Filho de Deus, uniu-se voluntariamente a ele para viver conforme a sua palavra e exemplo. Assim, a Irmã Pobre, na sua fidelidade, garante a continuação do primitivo projeto de vida de Francisco. Em outras palavras, Francisco e Clara têm a mesma Regra e vida: “observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RB 1,1; RSC 1,3).
Portanto, Clara e Francisco são duas versões distintas e complementares da mesma Regra e da mesma missão franciscana no mundo. Entre Clara e Francisco existem profundos laços de ternura e uma extraordinária transparência de intenções e convergência no amor de Deus (L. Boff). Clara e suas Irmãs, por divina inspiração, se fizeram filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e desposaram o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do santo Evangelho. Por isso, Francisco quer e promete, por si e por todos os seus irmãos na Ordem, ter sempre por elas um diligente cuidado e uma especial solicitude (cf. RSC 6, 3-4).
Enfim, como irmãos de Francisco, externamos toda a nossa gratidão a Deus pelo dom da vocação de Clara e de suas caríssimas Irmãs, que com solicitude cumprem o que prometeram ao Senhor. Que o Senhor esteja sempre conosco e que nós estejamos sempre com Ele. Amém.
Segue parte da Segunda Carta de Santa Clara a Santa Inês de Praga:
“Clara, serva inútil e indigna das pobres damas, saúda dona Inês, filha do Rei dos reis, serva do Senhor dos senhores (cf. Ap 19,16; 1Tm 6,15), esposa digníssima de Jesus Cristo e por isso rainha nobilíssima, augurando que viva sempre na mais alta pobreza.
Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito (Tg 1,17), pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito (cf. Mt 5,48), mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito (cf. Sl 138,16).
É essa perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio.
Mas eu sei que você é rica de virtudes e vou ser breve para não a sobrecarregar de palavras supérfluas, mesmo que não lhe pareça demasiado nada que lhe possa dar alguma consolação. Mas, como uma só coisa é necessária (Lc 10,42), é só isso que eu confirmo, exortando-a por amor daquele a quem você se entregou como oferenda santa (cf. Rm 12,1) e agradável. Lembre-se da sua decisão como uma segunda Raquel: não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe (cf. Ct 3,4) mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-la desse propósito, que seja tropeço no caminho (cf. Rm 14,13), para não cumprir seus votos ao Altíssimo (Sl 49,14) na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou. (…).
Veja como por você ele (o Cristo pobre) se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo. Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens (Sl 44,3), feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz.
Se você sofrer com ele, com ele vai reinar; se chorar com ele, com ele vai se alegrar; se morrer com ele (cf. 2Tm 2,11.12; Rm 8,17) na cruz da tribulação, vai ter com ele mansão celeste nos esplendores dos santos (Sl 109, 3). E seu nome, glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida (Fl 4,3; Ap 3,5)” (Fontes Franciscanas e Clarianas, Petrópolis: Vozes, 2004, p. 1705-1707).
Fonte: http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/mannes_180808

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Um Filme- um bom Filme


   São Francisco- Francesco
Sinopse: Pela primeira vez no Brasil, São Francisco é o filme mais completo sobre a vida e os feitos do Santo de Assis, um dos maiores nomes da Cristandade. Filmada nas locações históricas na Itália, essa superprodução acompanha a trajetória de São Francisco desde sua juventude até seus últimos dias como líder da Ordem Franciscana, mostrando inclusive sua amizade com Santa Clara. São Francisco é um retrato fascinante de um homem cujo legado inspira milhões de corações cristãos até os dias de hoje. Título Original: Francesco. Ano: 2002 -Elenco: Michele Soavi.

 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Santa Beatriz da Silva.

A família

“…educada num profundo espírito e virtudes cristãs.”
De nobilíssima família portuguesa, Beatriz da Silva e Menezes, nasceu na graciosa e ensolarada vila alentejana de Campo Maior, no ano de 1437. Filha de D. Rui Gomes da Silva, Alcaide Mor da já mencionada vila de Campo Maior e Ouguela e de Dona Isabel de Menezes, que era filha de D. Pedro de Menezes que foi Governador da Praça de Ceuta, nessa altura pertencente à coroa dos reis de Portugal. Os pais de Beatriz pertenciam à primeira nobreza e estavam ainda aparentados com a família real.
Tiveram 11 filhos, educados por franciscanos, que inculcaram no seu coração um profundo sentido cristão, ético e moral e uma especial amor à IMACULADA.
Campo Maior
Campo Maior
A Princesa Isabel de Portugal, filha de D. Duarte, contrai núpcias com D. João II de Castela, e leva a sua prima Beatriz como dama. Era Beatriz muito nova e bela e de alma transparente e cristalina. Os ciúmes da Rainha chegaram ao desejo de a fazer desaparecer. Mas os desígnios de Deus são outros, e como do mal pode obter um bem, enquanto esta só e cerrada num cofre esperando a morte, aparece-lhe a Virgem Imaculada, Rainha de Portugal, a anunciar-lhe que seria mãe de muitas filhas e que fundasse uma Ordem dedicada ao serviço e louvor do mistério da sua Conceição Imaculada.  Sai da Corte e nos Palácios de Galiana, em Toledo funda a sua Ordem há mais de 500 anos.
Santa Beatriz da Silva

BEATRIZ É UMA GLÓRIA PARA A IGREJA!

domingo, 28 de agosto de 2011

UMA ORDEM DE IRMÃOS



Nas origens da fraternidade
     Em 1209, quando Frei Francisco pede ao papa a aprovação do seu grupo, a forma institucional identificativa é a da fraternitas e não a de uma “Ordem” religiosa. Vivem todos a comum dimensão de vida cujos traços de identidade o Testamento resume em:  opção pela pobreza em minoridade, oração e freqüência às igrejas. Nos primeiros frades há um caráter profundamente desarmado, expresso na saudação “O Senhor te dê a paz”. Quem quiser pode se tornar frade menor, independentemente da idade, da condição social e da cultura. Lenta e inexoravelmente a chegada de indivíduos provenientes das fileiras clericais e magisteriais condicionam de forma diferente a primitiva fraternidade.
     O caminho da sacerdotalização (*) da fraternidade de Frei Francisco começa cedo. Os primeiros que foram com ele pedir a aprovação da Igreja em 1209 certamente eram leigos, mas a mesma aprovação desperta o interesse e a chegada de clérigos, sacerdotes ou não. É a eles que o Testamento se refere quando diz: “os clérigos rezavam o ofício”. Frei Leão, Frei Iluminato são desse grupo e são sacerdotes. Em 1211 entra Frei Silvestre, sacerdote! O número dos clérigos, todavia vai crescer bastante entre 1217 e 1220. Entre eles já há vários mestres aos quais quase espontaneamente a fraternidade vai confiando o serviço fraterno de ministros, sem excluir os irmãos leigos, levando-os a assumir os destinos da jovem fraternidade. Frei Caetano Esser faz este precioso comentário: “Os ministros se encontravam frente a homens da Idade Média e o homem medieval por si mesmo não pensa nem vive senão de forma cooperativa, em corporações. Essa mentalidade leva a entender que devia haver na Ordem uma estrutura social bem definida. Francisco sustentava ao contrário sua concepção pessoal, querendo o homem bem enraizado em si mesmo e na inspiração divina, como se pode deduzir em primeiro lugar da concepção franciscana de obediência nos primeiros tempos. Sob este aspecto Francisco estava claramente em vantagem em relação ao seu tempo... e mesmo fazendo algumas concessões soube manter e conservar solidamente o seu ponto de vista“ (Introduzione Alla Regola Franciscana, 26-27). Com a sua profunda convicção da importância da fraternidade, Francisco sinaliza para a individualidade e subjetividade típicas da modernidade.
     Os ministros e mestres querem organizar uma verdadeira Ordem, com estatutos rigorosos, competências bem definidas. Penso que não se pode falar de uma tendência de laxismo dos ministros e mestres, mas de uma dificuldade congênita deles, formados no refinado método escolástico de análise pontual, em intuir a fineza da simplicidade do pensamento de Francisco. Sem querer abrir mão da fidelidade do projeto original do santo eles conduzirão a fraternidade a uma normatização sempre maior e a um enquadramento nos critérios canônicos recém adquiridos pela legislação da Igreja. A diversificada compreensão do “modelo Francisco” leva os ministros e mestres a darem consistência à Fraternidade através da afirmação eclesiástica e social. Intencionalmente ou não, porém faz-se o distanciamento do primeiro ideal. A intenção parece ser a de atualizar o “mito Francisco”, mas a forma com que se inserem na pastoral da Igreja, na sociedade e nos ambientes de alta cultura distancia a fraternidade das suas origens, um pouco como canta Chico Buarque “é porque há distância entre intenção e gesto”.
      O capitulo geral de 1230 encontra dificuldade para entender algumas passagens da Regra e do Testamento e nomeia uma delegação para representá-lo junto a Gregório IX (Hugolino), composta do Ministro Geral João Parente, o único irmão leigo do grupo, e de mais seis sacerdotes já conhecidos do papa, entre os quais Frei Antonio de Pádua e Frei Leão de Perego, que será o primeiro bispo franciscano. Os seis tinham se destacado pela atuação anti-herética no norte da Itália e no “movimento aleluia” cuja finalidade religiosa e política era a de reduzir dissidentes à obediência eclesiástica. Sabemos como Gregório se serve da amizade que tivera com São Francisco para se fazer intérprete qualificado da sua verdadeira intenção. Ele ajudara redigir a Regra e aprová-la. O grupo de delegados não é escolhido aleatoriamente nem democraticamente, mas intencionalmente entre frades conhecidos do papa e da cúria romana. O resultado é a bula “Quo Elongati” de setembro de 1230, abrindo caminho para consolidar as transformações e o processo de sacerdotalização da fraternidade. O prelado que Francisco escolhera como suprema instância disciplinar da fraternidade agora era a autoridade suprema da Igreja. Gregório IX estava com todo o poder para decidir. A santidade de Frei Francisco e o vigor dos Irmãos Menores são os instrumentos de que precisava para realizar seu plano restaurador do poder papal e da hegemonia da Igreja romana sobre o poder temporal e sobre as igrejas particulares. Entre as transformações da fraternidade nenhuma era mais significativa que a sacerdotalização, já em andamento quando Francisco ainda estava vivo. Grado Giovanni Merlo, minha referência nesta reflexão histórica, diz: “Os filhos de Francisco abandonaram a submissão a todas as criaturas e entraram definitivamente na área do poder”.
     Muitas vezes a figura de Frei Elias é vista como um obstáculo para o processo de sacerdotalização, mas não parece ser assim. É verdade que ele nomeia ministros de preferência entre os irmãos leigos, porém ele favorece os estudos teológicos, a compra de livros e bíblias, promove a formação de professores em Paris impulsionando o estudo e a pregação, motores da clericalização e da sacerdotalização.
     Quando Frei Aimão de Faversham é eleito Ministro Geral o processo de sacerdotalização entra numa etapa definitiva. Com ele entra em crise a identidade franciscana porque parece não ter tanta certeza da especificidade franciscana como irmãos menores. Procurará ele equiparar a fraternidade às demais ordens já existentes, sobretudo aos dominicanos, com quem os frades ingleses tinham estreito relacionamento. Suas intervenções promovendo a sacerdotalização se dão pela ampla reforma dos livros litúrgicos “conforme o modelo da cúria romana”. As transformações responsáveis pela fragilização da identidade franciscana recebem um extraordinário impulso com a nomeação de Frei Leão Valvassori de Perego como Arcebispo de Milão. Nada menos que Milão, a sé mais importante da Itália depois de Roma e das mais importantes de toda a cristandade. Trata-se de um frade “empenhado na vida pública urbana e na ação político-eclesiástica confiada pelo pontífice ao seu legado para a Lombardia” (Merlo, 108). Ele representa bem o minorismo da região do Rio Pó, que crescera em direta ligação com a Cúria Romana e menos com o franciscanismo da Úmbria, a serviço da hegemonia do papado “com os ambientes de estudo e com as Igrejas e sociedades locais e que assumira encargos pastorais de orientação, ensino, educação e formação dos fiéis” (ibidem).
     A nomeação do primeiro frade menor como arcebispo não passa em silêncio. O novo Ministro Geral Crescêncio de Jesi convida os frades no capítulo de Genova (1244) a enviarem suas memórias sobre São Francisco, não contidas na primeira biografia de Tomás de Celano. Com o material que chega Celano redige a segunda biografia iniciando assim: “Começa o memorial no anseio da alma” conhecido pelo seu título latino “Memoriale in desiderio animae”.
Na segunda metade do século XIII forma-se um contexto apropriado para o surgimento de muitos escritos franciscanos tendentes a reinterpretar os quarentas primeiros anos da fraternidade de acordo com as várias correntes internas. A repercussão da nomeação episcopal do primeiro frade menor vem recordada na 2Cel 148 assim: “Na cidade de Roma, encontraram-se com o senhor de Óstia- que depois foi sumo pontífice- os preclaros luminares da terra, São Francisco e São Domingos.  Como falassem alternadamente coisas melífluas do Senhor, disse-lhes finalmente o bispo: Na Igreja primitiva, os pastores eram pobres e homens fervorosos de caridade e não de avareza.  Por que não fazemos dos vossos irmãos bispos e prelados que sobressaiam aos outros pela doutrina e pelo exemplo? (cf.Tt 2,7) Entre os santos , surgiu uma disputa (cf.Lc,22,24) sobre quem devia responder, cada qual não se antecipando, mas oferecendo, antes obrigando um ao outro a responder. Na verdade, cada um era prior, pois cada um tinha devoção para com o outro. Finalmente, a humildade venceu Francisco, para que não se colocasse à frente, e venceu também Domingos, para que respondendo primeiro, obedecesse humildemente. Respondendo, portando, o bem-aventurado Domingos , disse ao bispo: Senhor, meus irmãos, se o reconhecerem, foram elevados a bom grau, e quanto me for possível, não permitirei que cheguem a outro tipo de dignidade. Depois que ele completou o discurso assim tão brevemente, o bem-aventurado Francisco, inclinando-se diante do bispo, disse: Senhor, meus irmãos foram chamados de Menores para que não presumam tornar-se maiores (cf. Mt20,26). A vocação deles os ensina a permanecer no chão e a seguir as pegadas da humildade de Cristo (cf.1 Pd 2, 21) para que finalmente na retribuição dos santos (cf.Sb 3,13) sejam mais exaltados do que os outros. Se quereis -disse- que produzam fruto (cf. Jo 15,2-8) na Igreja de Deus (cf. Fl 3,6), mantende-os e conservai-os no estado de sua vocação (cf.!Cor 7,20) e reconduzi-os às coisas do chão, mesmo contra a vontade deles. E assim suplico, pai, para que não sejam, tanto mais soberbos quanto mais pobres e se tornem insolentes contra os outros, não permitais de maneira alguma que eles sejam elevados à prelatura. “Estas foram as respostas dos bem-aventurados”.
     O encontro descrito dos dois santos com o futuro papa é historicamente improvável, mas representa a inconformidade de muitos frades da época com a primeira nomeação episcopal de um frade menor e com as demais “metamorfoses” do franciscanismo, mesmo que promovidas a aprovadas pela cúpula da Igreja e da Ordem. A narrativa mostra que os novos rumos não são aceitos acriticamente mesmo que se imponham como irreversíveis,
Frei Aimão se esforça em resolver as dúvidas que as transformações provocavam. Frades cultos de Oxford e Paris foram convidados a esclarecer os pontos duvidosos da Regra: Alexandre de Hales, João de La Rochelle, Roberto de La Bassé, Eudes Rigaud prepararam o texto conhecido como “Exposição dos quatro mestres sobre a Regra dos Frades Menores”. Eles tiveram suficiente clareza sobre as dificuldades da tarefa. Sabendo que o método escolástico com suas distinções e contra distinções podia levá-los a passar distante da verdadeira intenção de São Francisco  subordinaram suas observações a um princípio superior e absoluto: era preciso observar a Regra “sicut a Sancto Francisco, dictante Spiritu Sancto, tradita fuit  = conforme fora dada por São Francisco sob inspiração do Espírito Santo”. De fato, com a melhor das intenções os quatro mestres realizaram uma excelente obra de escolástica, distante, porém do projeto original de São Francisco.
     Frei Tomás de Eccleston em sua Crônica da chegada dos Frades à Inglaterra refere uma passagem extremamente significativa das tensões vivenciadas na Ordem.  Narrando sobre o trabalho dos quatro mestres conta o sonho de um frade ao qual São Francisco apareceu mostrando-lhe um poço profundo, símbolo de uma possível queda da Ordem num fosso escuro e sem saída, exatamente no momento em que se punha o problema de esclarecer os pontos duvidosos da Regra. O frade dirigiu ao santo o seguinte convite urgente: “Pai, eis que os padres querem explicar a Regra: melhor seria se tu mesmo nos explicasses a Regra”. Embora dada num sonho a resposta de São Francisco tem um elevado grau de concretude: “Filho, dirige-te aos frades leigos, que eles te exporão a Regra”.
     O caminho da sacerdotalização seguida pelos superiores e mestres da Ordem não impede que muitos frades continuem assumindo o jeito de ser vivido e proposto por Frei Francisco: vida simples e pobre, fraterna e menor, com forte presença no meio dos últimos da sociedade, desenvolvendo a pregação exortativa. Entre estes não diminuiu a consciência da especificidade franciscana derivada da experiência cristã que provinha da vida e da intenção de São Francisco. A inconsciência da especificidade da vida franciscana podia afetar até um ministro geral como Aimão de Faversham, mas não a maioria sadia dos frades radicados na identidade jesuânica do carisma de Francisco, fossem eles clérigos ou irmãos leigos.
     No processo de sacerdotalização a Fraternidade dos Irmãos Menores recebia estruturas fortemente sacerdotais e monásticas, mesmo conservando a inspiração pauperística. A deposição de Frei Elias em 1239, conforme a Crônica de Jordão de Jano e Tomás de Eccleston é precedida por uma complexa operação envolvendo os ministros de além-Alpes e Gregório IX, mediada por Frei Arnulfo Ânglico, penitenciário da Cúria pontifícia. Desta data em diante a condição dos irmãos leigos muda radicalmente em número e em importância nos serviços internos da Ordem. A constituição emanada deste capítulo de 1239 disciplinava em sentido aristocrático e clerical a entrada na Ordem. Critério para ser frade agora não é mais a conversão e o desejo de seguir Jesus Cristo do jeito de São Francisco. Somente serão aceitos os que forem úteis à Ordem: “com o suporte da própria formação cultural e clerical e de outras louváveis condições, podem ser úteis à Ordem e a si mesmos mediante uma vida de méritos e servir de exemplo para os outros”. Aimão de Faversham irá confirmar estes critérios que terão a seguinte redação nas Constituições de Narbona de 1260: “Ordenamos que ninguém seja recebido na Ordem para ser clérigo sem suficiente conhecimento de gramática ou de lógica; se for para ser leigo, que seja de tal condição que sua entrada produza muita edificação no clero e no povo. Se, apesar desta ordem for preciso receber leigos para preencher os serviços materiais, não se faça sem urgente necessidade e com especial licença do Ministro geral” (São Boaventura, Constituições de Narbona, Opera Omnia, VIII,450).
     A sacerdotalização da Ordem serviu de instrumento nas mãos dos papas do século XIII para confirmar a absoluta centralidade eclesiástica e hierárquica do pontificado romano. Trata-se de uma centralidade que dura até hoje não tendo sido mudada nem pelo Concílio Vaticano II e cuja vigência nem sempre se dá em benefício da Igreja Particular e do Povo de Deus.

Resgate da Ordem de irmãos na Reforma Capuchinha
     Na Reforma Capuchinha ressurge com vigor o princípio da fraternidade composta de leigos e clérigos completamente integrados entre si, com todos vivendo vida mista em sentido pleno, na dimensão contemplativa e ativa no apostolado, com direitos e deveres iguais. A total interação de frades clérigos e leigos se consolidava na observância da Regra e das Constituições, excetuando somente o que deriva da ordenação presbiteral. Mostram esta integração a tradição capuchinha, a história legislativa, a hagiografia, etc..
     A Bula Religionis Zelus é dirigida nominalmente a um frade sacerdote e a um frade leigo. Os dois são autorizados a receber clérigos e leigos indiferentemente. Há diversos leigos entre os primeiros seguidores da reforma. A expressão “fratelli” dos textos legislativos primitivos é usada para clérigos e leigos. Exatamente porque é sublinhada a fraternidade e não o sentido clerical, se diz no inicio das Ordenações de Albacina: “Rogo e exorto todos os nossos irmãos desta confraternidade”. A autoridade e a precedência derivam da ancianidade e não da clericatura.
      As Constituições de 1535-36, (Roma- Sta Eufêmia) acentua alguns aspectos significativos: Os frades simples entendem melhor a sabedoria de Deus. A recepção de candidatos não se baseava na formação cientifica e na clericatura, mas na ótima intenção e fortíssima vontade. A expropriação dos bens na entrada e na vida fraterna se faz sem distinção de clérigos e leigos. A formação do noviciado prioriza a vida religiosa. Nas eleições não há distinção de clérigos e leigos.
      No regime interno da Ordem Capuchinha nota-se nos primeiros decênios uma importante presença dos irmãos leigos, quando vários deles são escolhidos como superiores. Os primeiros sinais de mudança começam com o encerramento Concilio de Trento (1565) pela valorização que nele se dá ao estado clerical e sacerdotal, alijando os irmãos leigos dos ofícios de superiores e privando-os da voz ativa e passiva. É então que se introduzem as descriminações. Mesmo assim, os superiores da Ordem sempre conseguem obter da Igreja exceções e dispensas. Excluídos que foram dos capítulos, Pio V reintegra os irmãos leigos em 1566 para que possam participar plenamente das eleições, mesmo com a proibição do Concilio de Trento. Estas práticas de cunho democrático-fraterno continuam comuns até os primeiros anos do século XVII. Até essa época são inúmeros os irmãos leigos guardiães e vigários de fraternidade. Alguns foram mestres de noviços ou mestres de noviços leigos. É conhecido o caso de Frei Rafael de Asti, perito em direito canônico, que sendo leigo foi leito definidor provincial várias vezes, custódio e guardião.
     As mudanças irreversíveis nos costumes da Ordem se deram também aqui por um processo sacerdotalizante, pela criação de medidas penais, pela exasperação das normas jurídicas, pela intervenção dos cardeais protetores e da Congregação dos Religiosos, pela acentuação clerical do Concilio de Trento dada a toda a Igreja, bem acolhida por aqueles frades sacerdotes que já tinham mentalidade clerical e jurisdicista.

Pensando aspectos da Ordem de irmãos na vida da Província hoje
     Nos últimos quarenta anos os ministros Gerais Capuchinhos vêem reiterando o pedido à Congregação dos Religiosos para que a Igreja reconheça a nossa Ordem como fraternidade, onde leigos e presbíteros dedicados à vivência dos valores da vida consagrada têm um carisma comum. Ainda em 2007 em visita à nossa Província, Frei Mauro Jöhri nos relatou sua audiência com o papa Bento XVI e as diferentes compreensões expressas por ambos. A posição oficial da Ordem Capuchinha é, pois de retorno às origens franciscanas e da nossa Reforma, de resgate da Ordem de Irmãos. Esta posição oficial da Ordem faz parte também da convicção vivencial da nossa Província, no seu conjunto e de cada frade? 
Na época do nascimento dos Capuchinhos estavam surgindo na Igreja os institutos clericais, de padres religiosos com caráter bem diferenciado das ordens medievais mendicantes. Assim nasceram os Teatinos, os Barnabitas, os Jesuítas etc... São padres que vivem os votos, mas se voltam, sobretudo para o apostolado tendo sua origem nos movimentos leigos surgidos na pré-reforma luterana e na contrareforma, dedicados à reforma da Igreja. São marcadamente romanos, florescendo nos países latinos como Itália e Espanha, e com freqüência nascem em Roma ou ao menos procuram indiretamente a aprovação e confirmação de Roma. Tendem a se afastar das formas de vida monástica e mendicante para exercer mais facilmente o apostolado, por isso não usam hábito e reduzem ao mínimo a vida e a oração em comum etc...  Eles são os clérigos regulares.
     Em nossa Província, no ambiente de renovação da Ordem, tomamos uma decisão incomum: substituir o curso de filosofia e teologia pelo Curso de Vida Religiosa (CVR), com a intenção explícita de oferecer a quem quer ser capuchinho em nossa Província, uma formação comum, com características essencialmente religiosas e franciscanas. É a consagração que tem peso no itinerário formativo, sob a ótica do nosso carisma franciscano-capuchinho. Antes do Concilio Vaticano, vivenciamos com toda a Ordem o processo de clericalização-sacerdotalização tanto do século XIII como dos séculos XVI-XVII. Tínhamos duas classes de frades: os padres e os irmãos leigos, com direitos iguais nas constituições, mas práticas distintas na vida cotidiana. Gostando ou não temos que reconhecer que a Ordem e a Província tinham frades de primeira e segunda classe.
     Hoje, certamente se não tudo, quase tudo mudou para melhor, mas parece inevitável a constatação de que as práticas das atividades pastorais, especialmente de caráter paroquial, têm prioridade e se impõem sobre as práticas da vida fraterna, tanto no plano organizacional como no plano pessoal, mesmo sem fazer generalizações. Embora a maioria dos frades da Província respeite as escolhas pessoais dos jovens em formação, há referências das investidas de frades que lhes dizem claramente: vocês têm que ser padres, pois a Igreja precisa de padres! E há quem ainda acrescenta: os irmãos não fazem nada! Já Salimbene de Parma no século XIII, em sua Crônica defendia a “curialitas”, modelo aristocrático, para a vivência diária da vida franciscana e também dizia que os irmãos leigos eram “inúteis”, além de indignos de exercer os “ofícios da Ordem”. Aqui não é o lugar adequado para aprofundar o significado do ministério presbiteral na Igreja, mas há perguntas que brotam espontaneamente: têm que ser padres por quê? Aqui não se pretende discutir o lugar e a importância do presbítero, mas de perguntar que modelo de presbítero a Igreja precisa? O presbítero com cabeça clerical, de casta superior, cujos serviços são os únicos valorizados na Igreja, absorvendo e centralizando tudo? A Igreja não estaria precisando antes de pessoas felizes em suas escolhas vocacionais, dispostas a servir o Povo de Deus, como leigos, religiosas e religiosos consagrados, presbíteros, missionários em qualquer estado de vida?
     A estrutura jurídico-hierárquica da Igreja faz de todo o presbítero necessariamente um clérigo, mas sua identidade primeira é de pastor. O padre João Batista Libânio diz: ”anuncia-se para o futuro um clero mais do altar, do sacramento, das celebrações, da organização paroquial bem diferente em sua visibilidade, do que na presença discreta, do diálogo, da animação, da conversa confidencial, da orientação espiritual, da palavra profética” (Cenários da Igreja, 30). Quando se afirma: “os irmãos não fazem nada”, a partir de que horizonte se faz? Trabalho é só celebrar os sacramentos, administrar as paróquias, coordenar pastorais etc...? Os irmãos leigos teriam que voltar para as cozinhas, portarias, hortas, sacristias etc..para deixarem de ser inúteis? Se os irmãos leigos às vezes não tem o que fazer numa paróquia capuchinha não é de se perguntar se algo não está equivocado no modo de organizá-la que não leva em conta nossa condição de Ordem de Irmãos? Será que só dos irmãos que se pode reclamar que não fazem nada? Não é a fraternidade que envia os irmãos para a missão, para qualquer missão, paróquia ou outras formas de presença? Não há padres omissos em relação ao ministério e aos trabalhos da fraternidade?  Ouvimos o relato na última assembléia em que um irmão leigo está se situando e muito bem, em serviços pastorais não ministeriais. Se crermos que é a fraternidade que envia os frades para servir em paróquias pergunta-se: só os frades presbíteros são enviados? Nas origens franciscanas e capuchinhas a presença ativa a serviço do povo não é exclusiva dos presbíteros e não se orienta para clericalizar os irmãos leigos. Talvez o definitório provincial e os serviços de formação inicial e permanente pudessem trabalhar juntos para que todos os frades, antes da profissão perpétua não só se decidissem pelo estado de irmãos leigos ou presbíteros, mas também por uma opção pastoral, serviço, área e atividade de preferência. A disponibilidade não parece ficar comprometida. Ficaria antes aprimorada.
     É bom saber que os jovens formandos não dão muito ouvido às insinuações clericalistas que soam como assédio moral, mas não é bom saber que insinuações partem até de quem tem a responsabilidade de formar para uma fraternidade de iguais. Parece que se houver respeito pela consciência dos vocacionados e formandos, em suas diversas etapas, haverá também o cuidado e a responsabilidade em ajudá-los a discernir sua vocação sem forçá-los ou condicioná-los..
À Província como um todo, mas especialmente aos frades das gerações que se formaram a partir do CVR, cabe a meu ver a tarefa de aprofundar estas questões todas e descobrir caminhos de fidelidade ao nosso carisma de Ordem de Irmãos. Mesmo que pelo Direito Canônico os presbíteros sejam sempre clérigos, o que nos cabe é julgar e agir com os critérios da minoridade. De 1980 para cá os frades que se formaram em nossa Província fizeram o CVR essencialmente voltado para a formação franciscana. Aproximando-nos dos trinta anos de formação pelo CVR parece-me que a Província precisa fazer uma avaliação para verificar a qualidade da informação e da formação em geral, mas especialmente franciscana, que foi passada pelo CVR. Nessa tarefa de avaliar cabe um lugar especial aos frades que se formaram pelo referido curso.
     Mais de uma vez já se disse que o CVR mais informou sobre franciscanismo, história, espiritualidade, valores etc..que formou. Assim, vale perguntar mais do que por resultados numericamente palpáveis, pelas convicções com que se vive o franciscanismo e as características de uma Ordem de irmãos. Irmãos leigos e presbíteros formados pelo CVR que contribuições oferecem para a vida fraterna local, provincial e para a vida eclesial? Que valores franciscano-capuchinhos os frades formados pelo CVR percebem em suas convicções e que lacunas e insuficiências estão também presentes em sua história pessoal? Que contribuições especificamente franciscanas os frades do CVR que já passaram pelo governo da Província ofereceram neste serviço? Os que atuaram na formação, na pastoral, como párocos, nas missões, na pastoral vocacional, no acompanhamento das pastorais, da OFS, etc..que qualidade franciscana imprimiram em seus trabalhos? São os frades do CVR que assumirão cada vez mais o governo da Província e que serão escolhidos no próximo capítulo. Qual é o sentido e a consistência da pertença que os envolve? Os frades do CVR que projeto têm para a Província? Nesta perguntas não vai nenhuma insinuação de dúvida quanto aos frades do CVR. Pelo contrário, confio neles. São sugestões para revisão.
     A vocação comum à vida consagrada e franciscano-capuchinha, a vocação comum para a missão, para o serviço pastoral e outras características que nos são próprias não parecem ter a incidência que precisariam ter na avaliação da condição de presbíteros e irmãos leigos da Ordem de irmãos que somos. A nossa presença quase exclusiva em paróquias e o modelo de presbítero cultivado por muitos frades acabam formando uma espécie de filtro sacerdotalizante através do qual se relê tudo, consciente ou inconscientemente, colocando o serviço dos irmãos presbíteros como critério através do qual tudo é controlado, impedindo que os aspectos típicos da nossa Ordem de irmãos transpareçam quando se busca fundamentar nossas formas de presença, como situações concretas para viver o Evangelho e o nosso carisma. Em seu artigo “Presente e futuro do sacerdócio na Igreja Católica” padre Libânio traz uma passagem significativa para avaliação: “Numa cultura extremamente voltada para a exterioridade, vige uma figura de sacerdotes também eles cultivadores da aparência externa por meio de vestes, do brilho da liturgia e da presença da mídia. O próprio conteúdo das pregações sofre de superficialidade, ao carregar o tom na emoção, na imagem. Perde-se tanto no aspecto teológico de aprofundamento da fé quanto na riqueza simbólica própria da liturgia... Em reação a tal figura, cresce uma linha oposta. Desloca o polo para a fidelidade à verdade doutrinal ensinada pelo magistério, especialmente pontifício, e às prescrições canônicas da Igreja institucional no campo da moral, da liturgia, da disciplina eclesiástica até as raias do rigorismo ortodoxo, moralista e litúrgico. Cresce um tipo de ministro ordenado pouco preocupado em responder aos problemas de hoje, mas voltado para a conservação de fiéis dóceis...  Aposta-se no purismo doutrinal , moral e disciplinar. (Vida pastoral, janeiro-fevereiro 2010, p 36-37). Aqui não se trata de desvalorizar a subjetividade e muito menos de exercer patrulhamento ideológico, mas de recordar os critérios da minoridade franciscano-capuchinha para avaliar o exercício do presbiterato numa Ordem de irmãos.
     Recordo-me sempre a experiência de alguns anos atrás vivida na Província de Minas Gerais. Após a decisão de não aceitar mais paróquias além das que já tinha no momento, o que durou por vários triênios, o definitório, por orientação do capítulo provincial, procurou as dioceses e seus respectivos responsáveis para verificar a possibilidade de assumir novas paróquias. Acabaram assumindo duas, como muita dificuldade, mas antes ouviram várias respostas com este teor: “Os Capuchinhos são bem-vindos! Ficamos felizes em tê-los na diocese, mas não precisamos deles em paróquias!” Dá o que pensar! Se as igrejas particulares não precisassem mais de nós nas paróquias ficaria comprometida a nossa identidade ou teríamos que nos virar e revirar para rever nossas formas de presença, de serviços ao Povo de Deus, exercendo nossa criatividade radicada unicamente na condição de Ordem de irmãos, incluindo as formas de subsistência?
Esta resenha histórica acompanhada de algumas observações pessoais não pretende ensinar nada a ninguém; só quer ser um convite à reflexão sobre as convicções e práticas próprias de uma Ordem de irmãos que queremos ser. Certamente há muita riqueza a ser partilhada. 

Frei Odair Verussa, OFMCAP
*Sacerdotalização. É o termo que Landini, Manselli, Rusconi, Grado Giovanni Merlo e outros historiadores franciscanos vêem usando em lugar de clericalização porque parece indicar melhor a progressiva introdução dos frades menores no organismo eclesiástico e na ação pastoral. Além disso, evita a falsa alternativa entre o caráter “laical” ou “clerical” da primitiva fraternidade e da sua evolução em Ordem. A alternativa verdadeira está, para Luigi Pellegrini, entre a “absoluta precariedade e instabilidade das origens e o sucessivo processo de estabilização e normalização institucional”.
Bibliografia
- MERLO, Grado Giovanni, Em nome de São Francisco. Petrópolis, Vozes. 2005.

- Os Capuchinhos, Fontes Documentárias e narrativas do primeiro século, 1525-1619, CCB, Brasília, 2007.     
- Uma Ordem de irmãos, A ordem Franciscana é uma fraternidade aberta a clérigos e leigos. Documentação histórico-jurídica preparada pela Cúria Geral OFM Cap em 1983.

O Significado do Tau Franciscano

Há certos sinais que revelam uma escolha de vida. O TAU, um dos mais famosos símbolos franciscanos, hoje está presente no peito das pessoas num cordão, num broche, enfeitando paredes numa escultura expressiva de madeira, num pôster ou pintura. Tau - Símbolos e significados

Ele é um símbolo antigo, que recorda tempo e eternidade. A grande busca do humano querendo tocar sempre o divino e este vindo expressar-se na condição humana. Horizontalidade e verticalidade. As duas linhas: Céu e Terra! Temos o símbolo do TAU riscado nas cavernas do humano primitivo. Nos objetos do Faraó Achenaton no antigo Egito e na arte da civilização Maia. Francisco de Assis o atualizou e imortalizou. Não criou o TAU, mas o herdou como um símbolo seu de busca do Divino e Salvação Universal.

TAU, sinal bíblico

Existe somente um texto bíblico que menciona explicitamente o TAU, última letra do alfabeto hebraico, Ezequiel 9, 1-7: "Passa pela cidade, por Jerusalém, e marca com um TAU a fronte dos homens que gemem e choram por todas as práticas abomináveis que se cometem". O TAU é a mais antiga grafia em forma de cruz. Na Bíblia é usado como ato de assinalar. Marcar com um sinal é muito familiar na Bíblia. Assinalar significa lacrar, fechar dentro de um segredo, uma ação. É confirmar um testemunho e comprometer aquele que possui o segredo. O TAU é selo de Deus; significa estar sob o domínio do Senhor, é a garantia de ser reconhecido por Ele e ter a sua proteção. É segurança e redenção, voltar-se para o Divino, sopro criador animando nossa vida como aspiração e inspiração.

O TAU do penitente

Francisco de Assis viveu em um ambiente no qual o TAU estava carregado de uma grande riqueza simbólica e tradicional. Assumiu para si a marca do TAU como sinal de sua conversão e da dura batalha que travou para vencer-se. Não era tão fácil para o jovem renunciar seus sonhos de cavalaria para chegar ao despojamento do Crucificado que o fascinou. Escolhe ser um cavaleiro penitente: eliminar os excessos, os vícios e viver a transparência simples das virtudes. Na sua luta interior chegou a uma vitória interior. Um homem que viveu a solidão e o desafio da comunhão fraterna; que viveu o silêncio e a canção universal das criaturas; que experimentou incompreensão e sucesso, que vestiu o hábito da penitência, que atraiu vidas, encontrou um modo de marcar as paredes de Santa Maria Madalena em Fontecolombo, de assinar cartas com este sinal. De lembrar a todos que o Senhor nos possui e nos salva sob o signo do TAU.

O TAU franciscano

O TAU franciscano atravessa oito séculos sendo usado e apreciado. É a materialização de uma intuição. Francisco de Assis é um humano que se move bem no universo dos símbolos. O que é o TAU franciscano? É Verdade, Palavra, Luz, Poder e Força da mente direcionada para um grande bem. Significa lutar e discernir o verdadeiro e o falso. É curar e vivificar. É eliminar o erro, a mentira e todo o elemento discordante que nega a paz. É unidade e reconciliação. Francisco de Assis está penetrado e iluminado, apaixonado e informado pela Palavra de Deus, a Palavra da Verdade. É um batalhador incansável da Paz, o Profeta da Harmonia e Simplicidade. É a encarnação do discernimento: pobre no material, vencedor no espiritual. Marcou-se com este sinal da luz, vida e sabedoria.

O TAU como ideal

No mês de novembro de 1215, o Papa Inocêncio III presidia um Concílio na Igreja Constantiniana de Roma. Lá estavam presentes 1.200 prelados, 412 bipos, 800 abades e priores. Entre os participantes estavam São Domingos e São Francisco. Na sessão inaugural do Concílio, no dia 11 de novembro, o Papa falou com energia, apresentou um projeto de reforma para uma Igreja ferida pela heresia, pelo clero imerso no luxo e no poder temporal. Então, o Papa Inocêncio III recordou e lançou novamente o símbolo do TAU de Ezequiel 9, 1-7. Queria honrar novamente a cristandade com um projeto eclesial de motivação e superação. Era preciso uma reforma de costumes. Uma vida vivida numa dimensão missionária mais vigorosa sob o dinamismo de uma contínua conversão pessoal. São Francisco saiu do Concílio disposto a aceitar a convocação papal e andou marcando os irmãos com o TAU, vibrante de cuidado, ternura e misericórdia aprendida de seu Senhor.

O TAU nas fontes franciscanas

Os biógrafos franciscanos nos dão testemunhos da importância que São Francisco dava ao TAU: "O Santo venerava com grande afeto este sinal", "O sinal do TAU era preferido sobre qualquer outro sinal", "O recomendava, freqüentemente, em suas palavras e o traçava com as próprias mãos no rodapé das breves cartas que escrevia, como se todo o seu cuidado fosse gravar o sinal do TAU, segundo o dito profético, sobre as fontes dos homens que gemem e lutam, convertidamente a Jesus", "O traçava no início de todas as suas ações", "Com ele selava as cartas e marcava as paredes das pequenas celas" (cf. LM 4,9; 2,9; 3Cel 3). Assim Francisco vestia-se da túnica e do TAU na total investidura de um ideal que abriu muitos caminhos.

TAU, sinal da Cruz vitoriosa

Cruz não é morte nem finitude, mas é força transformante; é radicalidade de um Amor capaz de tudo, até de morrer pelo que se ama. O TAU, conhecido como a Cruz Franciscana, lembra para nós esta deslumbrante plenitude da Beleza divina: amor e paz. O Deus da Cruz é um Deus vivo, que se entrega seguro e serenamente à mais bela oferenda de Amor. Para São Francisco, o TAU lembra a missão do Senhor: reconciliadora e configuradora, sinal de salvação e de imortalidade; o TAU é uma fonte da mística franciscana da cruz: quem mais ama, mais sofre, porque muito ama, mais salva. Um poeta dos primeiros tempos do franciscanismo conta no "Sacrum Comercium", a entrega do sinal do TAU à Dama Pobreza pelo Senhor Ressuscitado, que o chama de "selo do reino dos céus". À Dama Pobreza clamam os menores: "Eia, pois, Senhora, tem compaixão de nós e marca-nos com o sinal da tua graça!" (SC 21,22).

O TAU e a benção

Francisco se apropriou da bênção deuteronômica, transcreveu-a com o próprio punho e deu a Frei Leão: "Que o Senhor te abençoe e te guarde. Que o Senhor mostre a tua face e se compadeça de ti. Que o Senhor volva o teu rosto para ti e te dê a paz. Irmão Leão; o Senhor te abençoe!" Sob o texto da bênção, o próprio Frei Leão fez a seguinte anotação: "São Francisco escreveu esta bênção para mim, Irmão Leão, com seu próprio punho e letra, e do mesmo modo fez a letra TAU como base". Assim, Francisco, num profundo momento de comunicação divina, com delicadeza paternal e maternal, abençoa seu filho, irmão, amigo e confidente. Abençoar é marcar com a presença, é transmitir energias que vêm da profundidade da vida. O Senhor te abençoe!

O TAU e a cura dos enfermos

No relato de alguns milagres, conta-se que Francisco fazia o sinal da cruz sobre a parte enferma dos doentes. Após ter recebido os estigmas no Monte Alverne, Francisco traz em seu corpo as marcas do Senhor Crucificado e Ressuscitado. Marcado pelo Senhor, imprime a marca do Senhor que salva em tudo o que faz. Conta-nos um trecho das Fontes Franciscanas que um enfermo padecia de fortes dores; invoca Francisco e o santo lhe aparece e diz que veio para responder ao seu chamado, que traz o remédio para curá-lo. Em seguida, toca-lhe no lugar da dor com um pequeno bastão arrematado com o sinal do TAU, que traz consigo. O enfermo ficou curado e permaneceu em sua pele, no lugar da dor, o sinal do TAU (cf. 3Cel159). O Senhor identifica-se com o sofrimento de seu povo. Toma a paixão do humano e do mundo sobre si. Afasta a dor e deixa o sinal de Amor.

O TAU na linguagem

O TAU é a última letra do alfabeto judaico e a décima nona letra do alfabeto grego. Não está aí por acaso; um código de linguagem reflete a vivência das palavras. O mundo judaico e, conseqüentemente, a linguagem bíblica mostram a busca do transcendente. É preciso colocar o Deus da Vida como centro da história. É a nossa verticalidade, isto é, o nosso voltar-se para o Alto. O mundo grego nos ensinou a pensar e perguntar pelo sentido da vida, do humano e das coisas. Descobrir o significado de tudo é pisar melhor o chão, saber enraizar-se. É a nossa horizontalidade. A Teologia e a Filosofia são servas da fé e do pensamento. Quem sabe onde está parte para vôos mais altos. É como o galho de pessegueiro, cortado em forma de tau é usado para buscar veios d'água. Ele vibra quando a fonte aparece cheia de energia. Coloquemos o tau na fonte de nossas palavras!

O TAU, o cordão e os três nós

Em geral, o Tau pendurado no pescoço por um cordão com três nós. Esse cordão significa o elo que une a forma de nossa vida. O fio condutor do Evangelho. A síntese da Boa Nova são os três conselhos evangélicos=obediência, pobreza, pureza de coração. Obediência significa acolhida para escutar o valor maior. Quem abre os sentidos para perceber o maior e o melhor não tem medo de obedecer e mostra lealdade a um grande projeto. Pobreza não é categoria econômica de quem não tem, mas é valor de quem sabe colocar tudo em comum. Ser pobre, no sentido bíblico-franciscano, é a coragem da partilha. Ser puro de coração é ser transparente, casto, verdadeiro. É revelar o melhor de si. Os três nós significam que o obediente é fiel a seus princípios; o pobre vive na gratuidade da convivência; o casto cuida da beleza do seu coração e de seus afetos. Tudo isto está no Tau da existência!

Usar o TAU é lembrar do Senhor

Muita gente usa o Tau. Não é um amuleto, mas um sacramental que nos recorda um caminho de salvação que vai sendo feito ao seguir, progressivamente, o Evangelho. Usar o TAU é colocar a vida no dinamismo da conversão: Cada dia devo me abandonar na Graça do Senhor, ser um reconciliado com toda a criatura, saudar a todos com a Paz e o Bem. Usar o TAU é configurar-se com aquele que um dia ilumina as trevas do nosso coração para levar-nos à caridade perfeita. Usar o TAU é transformar a vida pela Simplicidade, pela Luz e pelo Amor. É exigência de missão e serviço aos outros, porque o próprio Senhor se fez servo até a morte e morte de Cruz.

 Por Frei Vitório Mazzuco, OFM 

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/carisma/simbolos/tau.php

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

O Hábito Franciscano.

Por Frei Tomás Gálvez, OFMConv. (in memoriam)
Revista San Francesco – giugno 2004, p. 40-43.
Extraído do ‹‹site›› ‹‹Reflexões de Espiritualidade franciscana››

                      A primeira coisa que chama a atenção de quem se aproxima dos franciscanos é o hábito. 
            Porque suscita curiosidade e perplexidade, dado que a forma e a cor variam segundo as diversas famílias franciscanas, seja masculina ou feminina. Por isso, uma das perguntas mais freqüentes dos peregrinos e turistas que vão à Basílica de São Francisco, onde é fácil confrontar-se, é esta: porquê negro ou cinza? Mas o hábito franciscano não é castanho? 
            Neste artigo daremos uma resposta ao argumento do ponto de vista da forma e da cor, sem mencionar o significado teológico-espiritual do hábito franciscano, que merece ser estudado à parte.
            Hoje nenhuma das ordens ou congregações franciscanas, nem pela forma, nem pela cor, veste o hábito de São Francisco, que era em forma de cruz e de cor acinzentada ou de terra, resultado da mistura, em partes iguais, de fios de lã branca e negra ou castanha escuro. Existe quem afirme que o Santo de Assis e os seus companheiros não se vestiam de forma diferente dos pobres e camponeses do seu tempo, mas nos seus escritos e biografias diz-se alguma coisa diferente. 
            O certo é que o modo de vestir dos frades menores (túnica longa, capuz, corda e calças) era muito mais pobre do que o dos outros religiosos de então, e isto permitia-lhes estar mais próximos dos indigentes e mendicantes, mas não se pode negar que foi um verdadeiro distintivo religioso, que os distinguia dos seculares. 
            As duas regras de São Francisco e as biografias referem-se em particular mais à humildade do hábito dos frades menores que da cor ou da forma da túnica e do capuz. Não negligenciando o aspecto externo, a coisa mais importante nos inícios foi a modéstia e a pobreza no vestir. Mas, quando a Regra bulada impõe aos frades de não julgar, nem desprezar “aqueles que vestem roupas suaves e coloridas”, diz-se, na prática, que a cor do seu hábito deveria ser natural.
            As biografias e as relíquias do Santo permitem-nos assegurar que as túnicas tinham a forma de cruz ou de “tau”, de modo a recordar que, o irmão menor deve exprimir em si mesmo os sofrimentos do mundo. O capuz que encontramos nas primeiras representações dos frades e de São Francisco é, de costume, pontudo e alongado, similar aos dos Capuchinhos. Aquele conservado nas relíquias da Basílica tem exatamente o aspecto de uma manga (de roupa), de modo que muitos não concordam que se trate de um capuz, que foi posto no lugar da manga esquerda que está faltando.
            Existem outros capuzes daquele período, mais curtos e com a extremidade arredondada, pelo qual não se pode falar de um único modelo de capuz para toda a ordem.           Uma outra característica é que o capuz primitivo era costurado ao colo, mas bem cedo foi substituído por um capuz separado da túnica, que passava pela cabeça e se apoiava amplamente sobre o ombro e ao redor do pescoço, em modo de prega. Esta prega foi-se alargando ao longo dos séculos, até obter a forma do capuz atual dos Menores, Conventuais e Terceiros Regulares. Então, desta forma, fala-se da cor. 
            No Espelho de Perfeição fala-se que, entre todos os outros pássaros, Francisco amava com predileção as cotovias, chamadas “de capuz” porque “têm o capuz como os religiosos e é um humilde pássaro...a vestimenta da cotovia, a sua pena, isto é, tem a cor da terra: assim oferece aos religiosos o exemplo de não ter vestes elegantes e de belas tinturas, mas de modesto valor e cor semelhante à terra, que é o mais humilde dos elementos” ( FF. 113).
            A terra todavia, como todos sabem, tem uma infinidade diversa de tonalidades. Tomás de Celano, no Tratado dos Milagres, fala de um “pano cinzento” como aquele dos cistercienses de Oltremare, que Francisco moribundo pede a Jacoba de Settesoli para o seu funeral. 
            A referencia mais directa à cor do hábito minoritico é aquele da Crônica de Roger de Wendover (falecido em 1236) e de Mateus de Paris, onde se diz que “os frades chamados Menores... caminham descalços, com corda na cintura, túnicas cinza longas até aos tornozelos e remendadas, com um capuz vil e áspero. 
            Num documento de 1223, o rei da Inglaterra ordenava ao vice conde de Londres a aquisição de certa quantidade de panos, metade de “blaunchet” ou branco para os Pregadores ou Dominicanos, e outra metade “russet” para os frades menores de Reading. O “russet” era o “rusetus pannus” o pano avermelhado, resultado da mistura natural de lã branca e castanha. As Constituições de Narbona de 1260 estabeleciam que “ as túnicas externas não sejam nem de tudo negras, nem de tudo brancas”, deixando então uma ampla margem às tonalidades de cinza. 
            Nos frescos de Giotto da Basílica Superior de Assis é comum encontrar, numa mesma imagem, hábitos cinza e avermelhados, sempre, porém em tonalidades claras. As Constituições Farinerie de 1354 prescrevem, no entanto, que os superiores não permitam o uso dos panos com “tinturas de diversas cores, nem muito próximo ao branco, nem ao negro”. 
            A variedade de cores dos hábitos primitivos deu-se principalmente pela variedade das cores naturais da lã negra, que por vezes tendia ao castanho, e também pelo facto de que o pano para as túnicas não era ainda confeccionado expressamente para os frades. Estes, no mais eram adquiridos no mercado pelos benfeitores dos frades. Eram estes selecionados pela cor e pela qualidade, também se o pano presenteado superava o controle dos superiores, segundo os Decretos de João XXII (1317) e de Bento XII (1336). 
            Uma maior rigidez quanto à cor, observa-se a partir da divisão da Ordem entre Observantes e Conventuais, acontecida em 1517, sobretudo pelo valor simbólico do cinza, que recorda as cinzas da penitencia e o pó do qual fomos criados. O cinza foi à cor oficial de todas as famílias franciscanas até à metade do século XVIII. Tanto é verdade que, devido à dificuldade para ter um pano tal em quantidade suficiente, sucedeu que as Constituições dos Observantes e Capuchinhos dispuseram que cada província fabricasse os próprios panos para obter a máxima uniformidade. 
            Assim, por exemplo, o Capítulo Geral de 1694 da Regular Observância ordenava que fabricassem “panos de tudo similar na cor e na qualidade, no entrançado e na espessura, tecidos com lã branca e negra mesclada numa proporção tal que, em juízo dos peritos, resulte um pano cinza como vemos nos hábitos e mantos de N. P. S. Francisco, S. Bernardino de Sena e S. João de Capistrano, os quais, por conservando-se em diversas províncias e paises, são de uma mesma cor cinza, mais ou menos claro”. 
            Nos Menores Conventuais observa-se já na segunda metade de 1700, certa tendência pelo negro, não obstante as Constituições Urbanas de 1803 que obrigava ainda o uso do hábito cinza. A prescrição veio a desaparecer na edição de 1823, em parte porque a supressão napoleônica extinguiu as corporações religiosas, os seus membros viram-se obrigados a usar o hábito talar negro do clero secular. Restaurada a Ordem, os frades preferiram continuar com o hábito negro. Hoje, porém, o cinza tradicional esta retornando, de modo que já o vestem quase todos os frades conventuais da Ásia, África, Austrália e América, e algumas províncias da Europa. 
            Os Frades da Observância mudaram do cinza para o castanho pouco mais de um século atrás. Iniciaram na França e foi imposto para toda a Ordem no capítulo de Assis em 1895, quando o papa Leão XIII reunificou numa só as diversas famílias da Observância: Observantes, Alcantarinos, Recoletos e Reformados (“a cor sintética das vestes externas assemelha-se à cor da lã natural escura com tendência ao vermelho, cor que em italiano se chama marrone e em francês marron”). 
            Os Menores Capuchinhos seguiram da mesma forma a evolução dos Observantes, também para evitar qualquer diferença local. Em 1912 estabeleceu-se que a cor do hábito devia ser castanho, como aquele dos observantes, ainda que um pouco mais amarelado (“a cor deve ser castaneum, em italiano castagno, em francês marron, em inglês chestnut, em alemão kastanienbraun, e espanhol castaño”). O hábito que mais se assemelha ao de São Francisco e dos primeiros frades menores, é o dos Capuchinhos, sobretudo pelo capuz alongado e costurado na gola da túnica. 
            O hábito dos Observantes ou Menores caracteriza-se por ser mais ajustado e pelo capuz ser destacado da túnica que cai sobre o ombro em forma de manta, cortada dos lados, mais longa e pontuda atrás, até a cintura. 
            O hábito dos Conventuais é similar ao dos Observantes, difere sòmente no capuz que é mais redondo e o manto mais longo, sem igualar as curvas. 
            O hábito dos Terceiros Regulares ou frades da TOR, pouco tempo faz era semelhante ao dos Conventuais pela forma e pela cor, mas recentemente retornaram ao cinza tradicional, com manto longo e pontudo nas costas. 
            Nos últimos tempos estão surgindo outras congregações franciscanas com hábitos diversos, mais ou menos semelhantes àqueles já citados, com túnica e capuz cinza ou castanho. 
            Existem algumas também com tendência ao azul celeste, como o dos Frades da Imaculada e outros de cor acastanhada clara ou creme, e mesmo verde.
            Além dessas diferenças de forma e cor, o que distingue os franciscanos e franciscanas dos membros de outras Ordens ou Congregações religiosas da Igreja, é o uso exclusivo do cordão de lã branca, que Francisco escolhe para substituir o cinto de couro em cumprimento do mandamento evangélico de Cristo aos seus apóstolos: “não levem nada pelo caminho...nem cinto...” (cf. Mt 10). Ao início não existia um número estabelecido de nós que tivesse a função prática de encurtar a corda, de modo que, não tocasse a terra. Com o passar do tempo, impôs-se a tradição dos três nós, como se para recordar os três votos da profissão religiosa: obediência, castidade e pobreza.
            Enfim, quanto ao calçado, o Pobrezinho caminhou sempre descalço, conforme o mandamento de Jesus: “não usem sandálias...” Sòmente nos dois últimos anos da sua vida, para esconder as faixas ensangüentadas dos estigmas dos pés, teve de usar calçado de pele ou de pano, como se vêem ainda nas relíquias da Basílica em Assis.             
A Regra não impõe nem de andar descalço, nem de utilizar sandálias. Descreve, no entanto, que os frades possam utilizar calçado em caso de necessidade. 
            As sandálias, de qualquer modo, bem depressa se impuseram na ordem, como se pode ver nos frescos de Giotto, onde as trazem todos os frades e também São Francisco.     Mais tarde, por volta de 1400, os frades das reformas que moravam nos eremitérios usavam uma espécie de sandálias com as solas altas de madeira chamadas “zoccoli”, e eis porque, na Itália, os Observantes foram popularmente conhecidos com o nome de “zoccolanti”. 
            Mais recentemente, as diversas Constituições deixaram de impor as sandálias aos Menores e aos Capuchinhos, e os sapatos aos Conventuais, mas tais disposições só foram tiradas depois do Concílio, sendo que não é estranho encontrar Conventuais com sandálias e barba, Menores com sapatos, e Capuchinhos sem barba. 
            Enfim, passada a rigidez dos últimos séculos, fazemos votos, então, de não perdermos o espírito dos inícios, quando, daquela época, pela forma e pela cor, se insistia no aspecto da pobreza e da aspereza dos tecidos e nas cores naturais do cinza e da terra, sinal de humildade e penitência. 
            Mesmo que a este propósito, São Francisco tenha escrito na Regra que os ministros poderiam proceder “diversamente segundo Deus” (RB 2).