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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Clara, a mulher da esperança



Com alegria estamos todos mergulhados na meditação dos passos dados por Clara de Assis no seguimento do Evangelho. Estamos vivendo esse tempo dos oitocentos anos da forma de vida da Senhora Clara. Temos diante dos olhos um texto  que aborda Clara, como mulher da esperança, da autoria de uma das mais conhecidas e eruditas filhas da santa. Trata-se de  Chiara Augusta Lainati.  São incontáveis as obras publicadas por esta clarissa. O texto de que dispomos  foi enviado para mosteiros das irmãs pobres de São Damião e é uma versão em espanhol de artigo que, provavelmente foi escrito em italiano (Clara, la mujer de la esperanza).  A autora se dirige às suas irmãs  fazendo um veemente convite a que voltem ao primeiro amor e sejam mulheres de esperança para um mundo sem esperança.  Mesmo sendo dirigidas para as irmãs, as palavras da Lainati servem para todos que vivemos o aperto no coração de ter perdido, em parte, a esperança.  Temos dúvidas, vivemos perplexidades, precisamos nos colocar entre os pobres que esperam a Deus. Fazemos uma tradução do texto com levíssimas adaptações. O presente artigo nos coloca, pois,  diante do ardente e urgente tema da esperança. Seu estilo é poético, mas também profético. Vale a pena ser meditado.
“Os pobres  têm o segredo da esperança.  Alimentam-se  dia após dia das mãos de Deus.  Os outros homens, desejam, exigem, reivindicam e a tudo isso chamam de esperança… Acrescente-se que  o mundo moderno vivendo a loucura da aceleração não tem tempo para esperar. A vida interior do homem moderno tem hoje um ritmo freneticamente veloz, impossibilitando que seu coração seja alimentado por  sentimento tão forte e tão  doce como o da esperança…  Somente os pobres  esperam por nós,  como somente os santos amam e expiam por nós…  Chegará o dia em que cumprirá  a palavra de Deus e os pobres possuirão a terra e a possuirão simplesmente porque não perderam a esperança nesse mundo de desesperados”  ( Georges Bernanos).
Uma imersão no incerto
O primeiro passo dado por Clara fora da segurança da casa,  rumo à Porciúncula envolta na obscuridade do bosque, um mergulho na incerteza é seu passo decisivo na caminhada  da esperança.
Um passo dado sem timidez (a filha de Favarone  nunca é tímida)  que será diferente, tomando um outro ritmo, quase passo de  dança  sob as asas do Espírito.  Ela mesma haverá de escrever: “Em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da perseverança” (2CtIn).
De fato, pouco a pouco, a mulher de Assis foi aprendendo em São Damião “a comer cada dia da mão de Deus”; uma mão que oferece, isto sim, e abundantemente,  “pobreza, trabalho, tribulação, humilhação e desprezo do mundo” (TestClara 27) e que converte tudo isso em “delícia” porque derrama sem medida nos sulcos do coração uma semente viva: a esperança.
Quase com os olhos se pode ver aprofundar, germinar e crescer a semente na vida de Santa Clara: uma árvore tenra, depois mais robusta, vigorosa sob o sol de São  Damião, finalmente  caminhando com segurança no céu eterno de Deus, como modelo de esperança de toda a Igreja, como a árvore de mostarda do evangelho que abriga nela numerosos pássaros dos céus.
Nas mãos de Deus
Toda a vida de Clara, na realidade,  se apoia na esperança.
Sozinha deixa para sempre a casa paterna para, aos dezoito anos, seguir os passos de um homem, de um burguês, Francisco, que  as pessoas tinham como  um louco.  Um salto no vazio. Contra a tradição da família. Contra as convenções sociais. Contra a prática normal da Igreja daquele tempo.  Um fechar os olhos e deixar-se conduzir pelo abismo da fé “contra toda esperança” (Rm 4,18). Péguy diz a Deus que a fé que ele ama é a esperança.
Um pouco depois vemos Clara deixar de lado a tranquila e organizada segurança do mosteiro beneditino no qual recebeu hospitalidade por uns poucos dias. Ali, ela resistiu à pressão e à violência  dos familiares. Recusa a segurança humana que torna a bater à sua porta.
Dirige-se a São Damião. Na incerteza.  Ali também está tudo para ser feito. Naquele lugar está sozinha  mas não fica espantada com a solidão.  Quanto mais profundo se faz seu despojamento, sua pobreza de seguranças humanas,  à imitação do Cristo pobre, mais canta com toda liberdade e brilha ao sol, sempre caminhando na esperança porque  permite experimentar  desde aqui a secreta doçura que Deus reservou desde o principio para aqueles que o amam (3CtIn).
Em São Damião há muito pouco ou quase nada. E o que é mais certo: não há perspectivas seguras.
Hoje  vemos a vida de Santa Clara à luz que aconteceu posteriormente… Clara, no entanto, ao entrar em São Damião,    naquele marcante março de Assis,  levava com ela somente a esperança. Contava unicamente com a promessa evangélica: “Vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai em primeiro lugar o  Reino e todas as coisas vos serão dadas de acréscimo” (Lc 12,30-31).  Contava com uma outra promessa, a de Francisco, que havia predito que o Senhor haveria de multiplicá-las (TestCl).  Não confiava em nada a não ser nisso.  Não sabia o que seria dela, nem de sua irmã Inês que já se achava com ela…  Vive a experiência do “pássaro do céu” e sabe que, nas mãos de Deus, ela vale mais do que muitos pássaros (cf. Mt 6,26).  Alimenta-se com o que vem das mãos da Providência, dia após dia, como pobre.  Não sabe se o lugar em que se encontra, São Damião, terá futuro:  naquele momento estava vazio.  Não podia imaginar que depois de poucos meses  Deus, em sua misericórdia, haveria de multiplicar as andorinhas debaixo do sol.  No momento, humanamente falando, tudo é obscuro.
Como Abraão, Clara caminha na noite,  sustentada apenas pela confiança inquebrantável naquele que é o Senhor do impossível.  “O Senhor disse a Abraão: Sai da tua terra, do meio de teus parentes, da casa do teu pai e vai para a terra que te mostrarei  (Gn 12,1).  E  Abraão  “saiu sem saber para onde ia” (Hb  11,8).
Clara também ignorava para onde o Senhor a estava levando.  Era noite.  Na esperança, no entanto, tudo se arrisca.  “Olho confiante para o Senhor, espero no Deus de minha salvação; meu Deus me ouvirá”(Mq 7,7).  E, apesar disso, Clara sentia-se segura, mais segura do que no velho e protegido castelo de seus familiares.  Deus é fiel em suas promessas.  Clara espera em sua palavra.
Como uma agonia
“Tu és a nossa  esperança, grande e admirável Senhor,  Deus onipotente, misericordioso salvador”,  Estas palavras que Francisco escreveu para Frei Leão,  foram passando de mão em mão  e chegaram ao coração de Clara.  “Tu és a segurança, tu és  a riqueza que nos satisfaz. És o guarda e o defensor”  ( Bilhete de Francisco a Frei Leão).  Toda outra segurança fora do Senhor seria traição.
Clara lança-se no vazio: vende a herança e  o resultado dá aos pobres.  Faz aprovar de viva voz pelo Papa Inocêncio III  o surpreendente privilégio da pobreza  que seria concedido oficialmente em 1228.   Deus fará com que nada  falte às irmãs.  Quanta esperança para aquela mulher, a quem um filho espiritual, um futuro Papa, não duvidará de chamá-la  de “mãe da sua salvação” (Carta  “Ab illa hora”  do Cardeal  Hugolino).
Aqui em baixo é noite, noite mais profunda do que nos bosques em torno da Porciúncula. Noite também para Clara, noite em que somente a pura esperança pode entrever uma luz, noite em que a única salvação é “olhar-se” no “espelho” que é o rosto de Cristo, o Amor pobre, privado do esplendor humano, que está suspenso da cruz;  “Esperança de Israel que salvas no tempo da desgraça…”(Jr  14,8).
“Veja  como por você ele se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo.  Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha,  olhe, considere, contemple o seu esposo , o mais belo  entre os filhos  dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio de angústias na própria cruz… Se você sofrer com ele, na cruz e na tribulação, vai ter com ele na mansão celeste… e seu nome será inscrito no livro da vida” (2CtIn).
Como Clara  aprendeu a  “agonizar” com Cristo agonizante ( cf. LSC 31)? Somente pode responder a esta pergunta  Aquele que a ensinou.  Podemos, no entanto, exemplificar esses momentos de “agonizar com Cristo”:  ter cinquenta irmãs e não ter nada para matar sua fome (Proc 6,6); ter uma “irmã Andréia” que, desesperada, tem no coração propósitos insanos (Proc 3,16);  esperança de que tudo poderá se  viver olhando para o espelho e para aquele que está suspenso no madeiro da cruz…Papas, bispos, padres e leigos vieram mendigar esperança em Clara,  “mãe da salvação”.
Aqui, nesta terra de desterro, é noite. A salvação vem unicamente de Deus, do Deus pregado na cruz que se fez “a esperança de  Israel, seu salvador em tempo de angústia”. É extremamente cansativo, verdadeira agonia, caminhar nas areias ardentes deste deserto que nos conduz à terra prometida.  No entanto, está escrito: “O resto de Jacó será no meio de numerosos povos como o orvalho vindo do Senhor, como gota de chuva sobre a erva que não espera em ninguém nem conta com um ser humano” (Mq  5,6).
Há essa certeza: naquela terra não haverá mais noite (Ap 22,5).  Não estaríamos já vislumbrando aqui  uma aurora no horizonte?
Êxodo
Francisco  parte pelos caminhos do mundo sem bolsa, nem alforje, nem bastão. Clara também, com a percepção de ter deixado na outra margem do Mar Vermelho  a “vaidade do mundo” (TestCl), encerrada em São Damião, percorre os caminhos misteriosos de um êxodo no deserto, onde Deus é o único  guia (Dt 32.12), Javé, o “Deus da esperança” (Rm 15,13), o Deus que desde sempre fez palpitar no coração do homem o desejo da terra do sonho  que se acha para além das estepes e das dunas arenosas desse nosso viver cotidiano.
Clara entrevê esta terra: “Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na minha adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace e toda feliz me dês o beijo mais feliz de tua boca”(4CtCl).  Nos seus escritos está sempre presente a “terra prometida”, reino de glória  rumo à qual estamos caminhando.
Na experiência espiritual de todos os tempos, como na história de Israel, o “deserto” é sempre cenário de encontro com o Senhor. “… em terra deserta o encontrou, na vastidão ululante do deserto. Cercou-o de cuidados e o ensinou, guardou-o como a menina dos olhos. Qual águia que desperta a ninhada, voando sobre os filhotes também ele estendeu suas asas e o apanhou (Jacó) e sobre suas penas o carregou”  (Dt 32, 10-12).
Clara sabe bem disto.  É ensinada pelo Espírito.  No interior da clausura  organiza uma vida “nômade”, vida de povo que peregrina até à terra que está para além do rio.  “Como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo o Senhor em pobreza e humildade”, “de nada se apropriando, nem de casa, nem de lugares, nem de coisa alguma”  (Regra 8).
Nada.  Simplesmente um caminhar para frente rumo à terra prometida, como um povo em marcha, que não tem cidade aqui embaixo, nem tenda estável onde refugiar-se, à imitação do Filho do Homem que não teve onde reclinar a cabeça e quando a inclinou foi para entregar seu espírito(1CtIn).  Um “pequeno rebanho” que avança na esperança, cuja “porção” é uma  “altíssima pobreza”, que  “as faz pobres de bens materiais, mas ricas em virtude e as conduz até a terra dos vivos”. “Nada mais queirais ter debaixo do céu”  (Regra 8). Na verdade, porque parar?  Por que querer aqui embaixo uma morada? “Pois o Senhor teu Deus vai te introduzir numa terra boa, terra com águas correntes, fontes e lençóis de água subterrâneos que brotam dos vales e dos montes, terra de trigo, cevada, vinhas, figueiras e romãzeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel; terra onde comerás pão em abundância… onde não te faltará nada” (Dt 8,7ss).
A esperança, escreve Péguy, leva Israel à posse da terra prometida. A esperança sustenta o povo a caminho  através de todas as dificuldades.  A esperança infunde coragem  diante da certeza de que um dia as promessas se cumprirão.
A mesma esperança que orienta Israel é a secreta dinâmica do Privilégio da Pobreza. Clara caminha na certeza de que Deus é fiel em suas promessas. “Não se assuste, filha, Deus,  fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras (Sl 144,13) vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor  consolador, porque ele é o nosso redentor e nossa recompensa eterna”(CtEr).  E a terra que se pode divisar para além do rio distante, é bela demais para ser trocada por um pedaço de terra avermelhada  de plagas áridas.  “Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais, merecer os bens celestes em vez de terrestres , receber cem por um  e possuir a vida” (1CtIn).
Um coração pobre
Estamos, portanto, sempre a caminho…  Não é fácil caminhar por este “deserto” é o que nos ensina a experiência de cada um. Agora parece mais difícil do que nunca porque parece que o vento árido que muda de perfil as dunas, arrancando as tendas pacientemente erguidas entre uma tempestade de areia e outra despedaça toda esperança renascida… Nesses momentos  nossos olhos ficam cheios de areia. Não podemos ver.
Para caminhar não basta o escudo da Regra que prescreve a pobreza absoluta.  Clara está bem consciente disto:” E como é estreito o caminho e apertada a porta por onde se vai e se entra na vida, são poucos os que por aí passam e entram. E se há alguns que nele andam  por um tempo,  são pouquíssimos os que nele perseveram.  Felizes, no entanto, são aqueles a quem foi dado andar por ele e perseverar até o fim” (TestCl).  Não basta um esforço de desprendimento renovado a cada dia…  Hoje, mais do que nunca, no “deserto”  resiste somente quem tiver um coração de pobre, quem viver a dinâmica da espera, quem se apresentar em estado de disposição, de fidelidade,  daquela confiança em tensão que é  precisamente a esperança…  Quando Israel se desvia, confiando mais  nas potências políticas e na segurança terrena  do que em seu Deus,  uma estranha certeza toma conta dos profetas: para que Israel volte a encontrar seu Deus será preciso perder tudo, quer dizer, todas as certezas terrenas, tudo o que insensivelmente foi ocupando em seu coração o lugar de Deus.
Ter um coração de pobre significa, nem mais nem menos, contar apenas com Deus. Portanto, não com meus talentos pessoais, nem com as reservas feitas, não com programas a realizar, não com a força do grupo, nem com o prestígio da Ordem ou do mosteiro, não com a força da tradição, nem com o passado glorioso, nem com a capacidade de organização dos outros e minha, não com o número, não com a qualidade, não com uma fonte que pode ser encontrada um pouco mais adiante na caminhada, não com a saúde de que gozo e que continuarei a ter nos próximos anos, não com a ajuda do exterior,  não com as ideias deste ou daquele.  Somente com Deus, como o “pequeno resto” da profecia: ”Deixarei no meio de ti um povo pobre e humilde: eles procurarão refúgio no nome do Senhor (Sf 3,12).
Senhor, somente tu. Tu és apoio e plenitude.  Fora de ti nada tem cor. Tudo tem tom cinzento que lembra a desesperança… “Senhor, meu coração não é pretensioso, meus olhos não são arrogantes.  Não ando à procura de grandezas, nem de maravilhas fora de meu alcance. Pelo contrário, estou sossegado e tranquilo: como criança saciada no colo da mãe, como criança saciada minha alma está em mim. Israel põe tua esperança no Senhor, desde agora e para  sempre  (Sl 130).
O “deserto”  queimou tudo em Clara. “Põe-me como um selo em teu coração, como um selo sobre teu braço” (Ct 8,6).  Depois que tudo foi queimado ficou apenas o semblante de seu Cristo,  pobre e crucificado. Nada mais.  Ele. Clara não se dispersa.  Só tem tempo para ocupar-se  com Cristo, Cristo Verbo Encarnado  que exige o amor daqueles que ele “separa” por amor.
Assim, também no “deserto”  surge um oásis que vivifica toda a Igreja.  “Já não te chamarão ‘Repudiada’ nem a tua terra de ‘Devastada’. Serás chamada, isto sim, minha querida e tua terra terá o nome de desposada. Pois como o jovem se casa com uma moça, assim o teu arquiteto te desposa, e como o noivo se alegra com a noiva, teu Deus se alegra contigo” (Is 62, 4-5). “Seu afeto comove, sua contemplação reconforta, sua benignidade sacia, sua suave plenifica, sua memória ilumina suavemente” (4CtIn).
Se Clara vivesse hoje, penso que ninguém duvidaria,  estaria muito ocupada em amar a Cristo (Verbo encarnado, criança, crucificado, próximo, que plenifica a sua vida, exige em troca o amor, um Deus que coloca sementes de escuta no coração).  Clara recriminaria menos passado que já não lhe pertence,  não  ficaria chorando o tempo presente  que só a força do amor pode redimir, não faria perguntas inúteis nem nutriria apreensões com respeito ao futuro. Estas posturas constituem  pecados contra a esperança.
Quando é que vamos compreender que não temos outra coisa a fazer senão ocuparmo-nos dele, do salvador do mundo, comprometendo-nos a fazer novas todas as coisas com aquela atenção, aquele amor, aquela fidelidade, aquela confiança que é própria de uma esposa, de uma mãe, de uma filha, de uma irmã que ama?  Quando?
Porque todo o resto,  todo,  virá por si mesmo para nós, para a Igreja e para o mundo inteiro: oráculo do Senhor (cf. Mt 6,33).
Tempo de esperar
“Há um tempo para cada coisa”, afirma o Eclesiastes (3,1): “tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para calar e tempo  para falar…”
Há também um tempo para esperar e esse tempo chegou. Agora é tempo de esperar, de esperar por todos, porque são muitos os que “experimentam o sabor” da angústia do deserto e depende em grande parte de nós, clarissas,  que escutem ou não a voz do Deus vivo.
Creio que não nos perdoarão muitas coisas; de uma certamente  pedirá contas Aquele que se  definiu como “esperança de Israel” e que nos tirou do nada para que fôssemos  filhas de Clara  nesses anos:  se soubemos ou não  manter viva a esperança no coração do mundo, no coração da Igreja, a esperança em nossa terra que parece estremecer de desesperança  em sua profundidade  e se  deixa levar por  “fugas” rumo a horizontes ilusórios; se soubemos ou não devolver o verde  à esperança desalentada dos homens,  a esperança da Igreja, a esperança franciscana, acovardada diante de enormes problemas de evangelização no exterior e de autenticidade no interior.  Quantas defecções, quantas quedas ou acomodações por falta de esperança!
 Sim, para nós, clarissas, é tempo de sustentar, com um coração pobre, apoiado  somente em Cristo, a esperança universal.
Não se nos perdoará o pecado contra a esperança, pecado que poucas vezes se manifesta em gestos trágicos, mas que atinge a vida de modo sutil, quase que sem nos darmos conta;  que nos paralisa, que nos faz perder tempo com problemas secundários (a única “questão”  não marginal é Ele).  Atinge também nossa vida quando buscamos  posições mais cômodas.  O pecado que lança sementes de  desilusão e desconsolo, que rói o entusiasmo do dom e o solapa com uma infinidade de “se”:  “se houvesse vocações”;  “se tivéssemos com que sustentar a casa”; “se tivesse saúde”. Esse pecado  tira a alegria de  ir adiante como peregrinos, numa caminhada cheia de confiança no  Deus da salvação, deixando-nos ser alavancados pelo Espírito; esse pecado nos faz regredir por meio de inúteis lamúrias. Esse  “antigamente sim que…” seca o canto nos lábios, extirpa a alegria do coração e onde há fervor, faz se instalar a apatia.
Não há vocações, não se tem saúde. Que importa? Será que por estas razões deixamos de estar nas mãos de Deus ou sua sombra deixou de nos cobrir?  Ou será que neste tempo, como aconteceu com Clara, o Senhor não estaria pedindo de nós  “um salto no vazio”, um abandono sem limites a seus desígnios misteriosos?
Senhor, confio em Ti!  Perdoa-me  por este meu duvidar, que marca minha vida de desalento e de tristeza.  Tu és a minha esperança!  “Tens na mão a minha sorte” (Sl 15,6).
Nós, clarissas, deveríamos ser, neste momento, aquelas que cantassem para o Povo de Deus, para Ordem Franciscana e para o mundo o  Cântico de Isaías (cap. 26). “Temos uma cidade forte, para segurança ele colocou muro e antemuro. Abri as portas para que entre uma nação justa que guarda a fidelidade… Confiai no Senhor sempre, porque o Senhor é uma rocha forte pelos séculos”.
Sim,  em nossas mãos está, desde que queiramos nos servir dela,  toda a força dos pobres, aquela força que  “obrigou” a Deus voltar-se para Clara, inclinar-se sobre sua  pobreza, sobre seu denso silêncio de espera e de confiança:
Dá-nos, Senhor, um coração de pobres e dilata  nossa capacidade de esperar, para que em nós possa  pulsar a esperança de todos os povos! Por nosso Senhor Jesus, Amor pobre, espelho da Senhora Clara.
fonte:http://www.franciscanos.org.br/n/?p=16361

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A figura de Nosso Senhor Jesus Cristo


A figura de «Nosso Senhor Jesus Cristo» é a chave para compreender todo o percurso de S. Francisco, bem como de todos os santos. O santo de Assis não teria sido o que foi, não teria feito o que fez, se Cristo não estivesse presente, operante, como amigo e companheiro.
O agir de Francisco não é filantropia, cálculo, programa; o agir do santo é Fé, adesão de todo o coração à Pessoa de «O Senhor». Sendo certo que o seu amor a todos os homens e a todas as criaturas, o ponderar do seu atuar e do todo da sua vida, o plano muito concreto e evangélico de vida, o seu ser e o seu trabalho são fé, expressão de fé, um abandono e confiança total n´Aquele que por nós morreu e ressuscitou. A primeira preocupação de Francisco não é o homem, a natureza, a Igreja ou ele mesmo; a primeira preocupação de Francisco é Cristo. Ele é o centro e por Ele chega a tudo o mais, aos homens seus irmãos, à obra da criação, à Igreja, e a ele mesmo. A razão do agir de Francisco é Cristo que o leva ao Pai, que lhe alarga os horizontes, rompe o tempo e o lugar, faz brotar desejos de eternidade e de a todo o lugar chegar para levar a boa nova, inclusive o desejo de se encontrar com o Sultão. É o Senhor o eixo à volta do qual tudo em Francisco gira, é a referência constante para agir, pensar, viver. É Ele o modelo supremo a imitar. Tanto assim que foi chamado «alter Christus» outro Cristo, tanto mais ele mesmo quanto mais próximo de Cristo.
O único mestre que orienta Francisco é Cristo: (cf. LM II, 1) «ninguém me dizia o que devia fazer, mas o mesmo Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do Santo Evangelho» (Test.14). As palavras, os gestos, o número de companheiros, o estilo de vida, bastam para perceber esta centralidade de Cristo na vida de S. Francisco; e se mais fosse necessário para provar este estilo de vida que quis para si e para os seus companheiros, lá estavam as chagas impressas no Monte Alverne a provar isso mesmo: identificação com Cristo pobre e crucificado.
Importa então saber que Cristo é este que move e polariza toda a vida e pessoa de Francisco. Quem é Este que enamorou Francisco e por quem Francisco se enamorou? Que imagem de Jesus se gravou fundo na mente e no coração do pobrezinho de Assis? Foi o Cristo do Evangelho que ele escutava religiosamente no Oficio Divino e na celebração da Eucaristia, o mesmo Evangelho que ele proclamava como diácono, crendo o que lê, ensinando o que crê e vivendo o que ensina. São os Santos Evangelhos a fonte do conhecimento de Cristo. Outra fonte é a Igreja na sua própria liturgia, os Santos Mistérios celebrados na catedral de Assis ou nas pequenas igrejinhas por onde passa e pernoita, e o grande Cristo em S. Damião. Um Cristo vivo de olhos grandes e abertos, centro de um mundo ordenado para a Paz, o Cristo da misericórdia, o Cristo da cruz e do deserto em fortes Quaresmas de intimidade com o Pai, um Cristo presente nos sacerdotes «que vivem segundo a norma da santa Igreja Romana, pelas ordens que têm» a quem Francisco quer temer, amar e honrar como a seus senhores, pois eles aos demais administram o santíssimo Corpo e Sangue, as santíssimas palavras divinas, os santíssimos mistérios que devem ser honrados e colocados em lugares preciosos. Um Cristo simples e trabalhador com as suas próprias mãos, que quer que todos os homens trabalhem, não pela cobiça de receber o preço do trabalho, mas para dar bom exemplo e para repelir a ociosidade, inimiga da alma. O Cristo humanado no seio da Virgem Maria, Senhora pobrezinha, nascido na doçura do presépio de Belém, um Deus próximo ao mesmo tempo que distante, o irmão e o Altíssimo, o pobre e o Rei do Reis. Nada disto é teórico, especulativo, puro fruto do pensamento desencarnado da realidade. É muito concreto, vivido, sentido na fragilidade da própria carne pecadora de Francisco.
O Cristo que se dá a conhecer a Francisco na Sagrada Escritura, na liturgia, nas igrejas, no crucifixo de S. Damião, nos pobres e nos irmãos, comporta em si a altura da sua Majestade Divina, «Altíssimo e Glorioso», e a sua humanidade crucificada, o Senhor Altíssimo (LD, 2): é o Cristo servo que se humilha, «cada dia vem até nós, pelas mãos dos sacerdotes, como quando baixou do seu trono real a tomar carne no seio da Virgem; cada dia desce do seio do Pai, sobre o altar». O Senhor «rei omnipotente» é o servo sofredor cantado no Ofício da Paixão e visto claramente no leproso; o Senhor da Glória é o Cristo da cruz, o «Soberano Deus» é o Cristo mendigo e peregrino que vive de esmolas com a Sua Mãe e os seus discípulos (1R9, 5.6). Estas duas realidades de Cristo, Francisco captou-as muitíssimo bem ao ver n´Ele o Altíssimo e o Baixíssimo.
O próprio modo como S. Francisco se refere a Jesus é, já por si mesmo, muito revelador da imagem que ficou gravada no seu espírito. Quase sempre lhe chama «Nosso Senhor Jesus Cristo». É nosso, porque Francisco sabe que não possui nada, muito menos Aquele que tudo possui e que o possui a ele. É nosso porque é de todos e para todos os homens; foi dado não ao anónimo da multidão mas a cada um em particular e a todos totalmente como filhos de um Pai comum no Filho. É Senhor, muito possivelmente à imagem dos senhores feudais da época, mas com um senhorio que vai para além desses senhores que são servos; é o Senhor dos senhores, a quem a reverência não anula a proximidade e quanto maior a reverência maior essa mesma proximidade. Não é um Senhor tirano e déspota que deseja a guerra, mas um Senhor revestido de mansidão e misericórdia, que é a justiça para lá de toda a justiça. O ideal do trovador cavaleiresco não se despegou da maneira de ser de Francisco, que continua a ser o servo do Grande Rei, escudeiro do Senhor Altíssimo, e esta referência de poder dá-lhe profunda liberdade, ao mesmo tempo que grande confiança na proteção daquele que vela pelos seus amigos. Outro tipo de obediência é devida a este Rei, outro tipo de rei. Onde a batalha não deixa de ser sumamente exigente, mas outro tipo de batalha, com outro tipo de armas, a mesma preocupação pela libertação de cada homem numa vida de santidade agradável a Deus. Outras armas, que não as da guerra, entre senhores temporais: as armas da mansidão e do Evangelho, da reconciliação e do anúncio de uma fraternidade de iguais, todos necessitados desta força salvífíca que reconstrói o homem. O termo «Jesus» nunca aparece nos escritos de Francisco isolado; ou está acompanhado do adjetivo «Senhor» ou na longa enunciação de «Nosso Senhor Jesus Cristo», a universalidade do senhorio de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Não há cedências nem à humanidade que Cristo encarnou, nem à divindade que Jesus é. Não há uma espiritualidade fácil e simplista de divisão e de fuga, refugiada numa divindade distante e espiritualizada, alheia ou mesmo adversa à obra da criação, como não há um materialismo fechado no mundo infraceleste sem o horizonte da eternidade. Há uma continuação clara, uma ligação evidente, entre o Jesus, na sua mais doce humanidade, e o Cristo na sua mais luminosa divindade. Em tudo a proximidade do olhar de fé e do toque das mãos que cuidam.
Quanto mais Francisco se aproxima de Cristo, mais tem a perceção clara da sua distância e da altura d’Aquele que por nós, pobres pecadores, sofreu a paixão de cruz. Desta distância não brota a desconfiança, desapego, alheamento ou a rejeição de algo que nunca se pode alcançar, mas a reverência, o reverente temor de obediência filial. Quanto mais percebe a majestade de Cristo, mais se dá conta da sua pequenez, quanto mais medita no abaixamento do próprio Senhor, mais se dá conta da Sua altura. Esta aparente contradição: quanto mais próximo mais distante, quanto mais baixo mais alto.
Também sabe Francisco que quanto mais ele mesmo se humilha mais se levanta, quanto mais se abaixa mais é levantado, quanto mais reconhece a sua fragilidade mais é atraído pelo forte, «o mais forte» que é Cristo. É o mistério do abaixamento e exaltação que S. Paulo descreve no seu hino.
Em tudo a disponibilidade do encontro, o deixar-se guiar pelo Espírito que nele habita pelo «espírito de santa oração e devoção, ao qual todas as demais coisas devem servir». É conduzido pelo Espírito que Francisco entra e permanece dentro da Igreja, na comunhão como o «Senhor Papa» a quem promete obediência e reverência em fé verdadeira que é a fé da Igreja. Ele já tinha entrado, mas agora permanece, e quer que todos os seus irmãos permaneçam; ele permanece porque lhe foi dado um lugar, foi-lhe atribuída uma missão. A experiência de Cristo é também a experiência de Igreja que Francisco faz, do mais sublime e santo, do mais fraco e desprezível, a graça e o pecado, a graciosidade de Cristo contrastante com a fragilidade da carne sujeita ao pecado da desobediência, o afastamento do redil. Mas apesar do que parecia aos olhos da carne desprezível e vil, Francisco não abandona a Igreja, pois sabe que é nela que Cristo mora, ainda que essa igreja esteja tão em ruínas e abandonada como a velha e solitária igrejinha de S. Damião. É guiado pelo Espírito que Francisco entra um dia para orar em S. Damião. Todo ele reza, reza com o coração, com a mente e com o corpo, ora com o coração de forma devota, com a mente em fortes súplicas e com o corpo pela maneira como se prostra aos pés do Crucifixo. Esse grande crucifixo do grande Cristo rodeado dos santos abrangendo todo o mundo, vivo e com as marcas da paixão, que o invade «tomado de um modo extraordinário pela graça divina que o torna completamente diferente do que era momentos antes» (2C 10). Quando entra Francisco na Igreja para não mais sair? É demorado o seu processo de conversão, leva o tempo da purificação, o purificar a vontade e a inteligência, o sujeitar o corpo à disciplina do jejum, o limpar os sentidos para ver bem o que só bem se vê com a pureza de coração. É a própria imagem de Cristo que leva tempo a purificar pelo despojar dos fantasmas, das mundanas imagens de glória e vã glória. Quando entra Francisco na Igreja para não mais sair? Quando descobre que tem muito para descobrir na verdade do Senhor que o atrai a Si.
E o olhar olhos nos olhos, o face a face, de quem se deixa olhar e convocar pela voz de uns lábios despregados que falam, chamam, dirigem-se não a uma multidão anónima mas ao concreto de uma pessoa, «chamando-o pelo próprio nome: ´Francisco´». Porquê «Francisco» se o seu nome de Batismo era João? Que lhe reconhece Jesus para o tratar assim, «pequeno francês»? Como que o «crisma» de quem confirma a sua sensibilidade apurada e provençal herdada de sua mãe, o reconhecimento de uma radical transformação que comporta em si mesma a mudança de nome, já antes operado pelo desejo opulento de seu pai. Seria porque Francisco já não se identificava com o nome do Apóstolo ou do Batista, uma remota lembrança de um sacramento administrado na ausência paterna, de tão habituado que estava a ser tratado, chamado, pelo doce nome de sabor a terras distantes, conhecidas pelos seus comércios de finos panos e mornas melodias de amor cortês. Designado por um nome novo, confirmado na sua personalidade sensível, é uma nova criatura que nasce sob o olhar e a voz do Senhor.
Este ser objeto de uma voz, alvo de uma atenção, incidência de um olhar cheio de misericórdia, desmonta Francisco, deixa-o ele mesmo em ruínas, «pasma, treme, quase perde os sentidos e não atina resposta». As suas antigas seguranças desaparecem, deixa de se fiar de si para se voltar para Aquele que já não é somente uma imagem pintada num belo retábulo, ou uma ideia bonita numa letra impressa, mas Um que se desprende e se mexe, fala-lhe, sai uma Voz. Tem diante de si uma representação de Cristo, vê milagrosamente uma Pessoa. A iniciativa não é de Francisco, inaudito milagre. A novidade da ação do Alto, da pintura sai a Pessoa, da letra sai o Espírito, tem diante de si Cristo que se dirige a Ele. Num repente, um instante único, um momento de graça que deixa na sua alma a perfeita consciência de ser amado por Deus, olhado por Cristo, habitado pelo Espírito. Tudo o mais é busca e aprendizagem, isto é certeza de fé. Francisco passará toda a sua vida a reconstruir. Primeiro a reconstruir-se a si mesmo, ele que tinha ficado em pedaços com aquele encontro, passa a sua vida a recolher pedras para a igreja, ocupa-se em identificar-se cada vez mais com o Senhor. Quer ser como Cristo e por isso o imita na sua forma de vida simples, pobre, casta e obediente, toma Maria, «Senhora dos Anjos», por mãe do seu grupo também ele de doze, como os Apóstolos.
Francisco sabe agora que recebeu um encargo: ser colaborador de Cristo na obra da regeneração e restauração da Igreja, sabe também que a casa é d´Ele, do Senhor que nela mora. Francisco não é o dono da casa mas o servo do Grande Rei. Um encargo lhe foi dado, um sagrado e verdadeiro encargo, uma missão.
Do encontro uma coisa fica fortalecida em Francisco: a sua vontade. A vontade firme e tenaz de obedecer imediatamente à ordem recebida: «nada mais queiramos, nada mais desejemos, do que fazer a sua santa vontade». Não sabe bem por onde passa essa obediência, vai descobrindo com o tempo, falhando umas vezes, afinando outras, buscando sempre. Está interiormente fortalecido, e concentra todas as forças para executar essa vontade que não muda, mas que cada dia se vai descobrindo mais profundamente. É a espontaneidade de Francisco, a inspiração do momento, é a descoberta de cada vez dos contornos dessa vontade que não se coaduna com o já estabelecido, mas reveste-se de coisas sempre novas: «Eis que vou renovar todas as coisas». Francisco não se refugia na inteligência para perceber o que aconteceu e o que deve fazer. Não tematiza para se desculpar, não se senta à secretária para programar, reza e faz. «Nem ele mesmo conseguiu alguma vez exprimir a inefável transformação sofrida nesse instante». Há neste olhar um «segredo», qualquer coisa de indizível, secreto, íntimo sem ser intimista, guardado no coração do coração de Francisco que foi tocado, fortalecido, olhado, chamado e enviado. Uma intimidade de tal ordem que nem as palavras perturbam ou podem perturbar. A linguagem é agora ação obediente. E o diálogo sem mais palavras do que as que saem de Cristo. O Senhor fala e o servo que ouve responde não com frases, perguntas, objeções, questões ou outras teorias. A resposta de Francisco é feita de obra e louvor. Pedra sobre pedra, das pedras recolhidas do mendigar pelas portas, frases da Sagrada escritura recolhidas pela meditação e memorizadas, tudo posto e sobreposto, erguido até ao céu, para o alto, sem o cálculo de um engenheiro mas com a beleza de um poeta. A resposta de Francisco é a sua vida, o seu trabalho, o seu cantar melodioso de apaixonado, como aquele que sente em si a paixão.
Inaudito milagre. Nunca ouvido nem relatado acontecimento. Nunca se tinha ouvido tal coisa. Não se contou que alguma vez tal coisa tenha acontecido. Um milagre, a dúvida das explicações, a incerteza do acontecimento que escapa radicalmente à lógica natural das coisas. Não teria sido aquela voz, aquele mover de lábios, fruto da imaginação do penitente e macerado Francisco? Estava sozinho. Só. Não foi outro nem para outro. Não havia testemunhas, cronistas ou biógrafos que relatassem e testemunhassem a verdade do acontecimento. Ninguém para fazer suspeitar que tenha sido outro que não Cristo a falar, ninguém para lhe deixar a dúvida se seria mesmo para ele ou para outro que ali estivesse. E não havia testemunhas que o confirmassem no que acabava de ouvir. Não havia mais ninguém para o chamar ao mundo dos acordados, dos supostamente lúcidos e despertos. Uma solidão que não deixa marcas para a dúvida: «Francisco» é ele, não outro, não o seu vizinho, há mais Franciscos, mas não estão ali. É para ele, com certeza, a certeza da fé, que Alguém fala, é a ele que Alguém se dirige. Mas como, se não há mais ninguém por perto? Só Francisco e um vetusto crucifixo numa igreja abandonada e de todos esquecida, ameaçando ruínas. «Onde houver dúvida que eu leve a fé»; perante tantas e tão grandes dúvidas, duvidando do seu próprio juízo, Francisco convoca a fé e acredita que Alguém lhe fala, a ele, só a ele, para ele. Acredita n´Aquele que o crucifixo pintado evoca e que tantas vezes lhe falou nas letras dos Evangelhos. Talvez estas dúvidas o voltem a assaltar e Francisco se pergunte da razão de ser que move a sua vida. Tentado nos momentos de desânimo e desapontamento, talvez dê ouvido a estas dúvidas, e baixando os braços deseje uma outra coisa mais lógica, mais realista ou convencional. É nestes momentos de densas trevas que brilha a ténue luz da fé, uma certeza de confiança n´Aquele que tem nas suas mãos o governo deste mundo, o sustento de todo o ser vivo.
Algo se enraíza tão entranhadamente em sua santa alma, Alguém tomou conta de Francisco e se entranhou nele, Cristo. Ficou tomado, a partir de dentro, pela paixão do Crucificado, uma paixão pela Paixão, uma entrega ao Entregue, no segredo daquele que todo inteiro se entregou nas mãos do Pai.
Fortalecido na vontade de seguir o Senhor para onde quer que Ele vá, não se sente dispensado de usar todas as potências da alma. A vontade fortalecida pelo olhar do Cristo que o olha impele-o a também ele abrir bem os olhos: «vai e repara a minha casa que, como vês...». Olhar e ver, a atenção ao Cristo que passa, e ao que se passa à sua volta para tudo ver com os olhos interiormente renovados, os olhos do Crucificado, um olhar de paixão sobre tudo e todos. Francisco, mais do que um contemplativo, é um atento «olhador» das realidades que o circundam e que o remetem para o próprio Cristo. Por isso tudo lhe falava de Cristo e ele a todos falava do «amor que não é amado». A pedra, a fonte, a ovelha, o pastor, o burro e a vaquinha, tudo, naquele olhar interiormente purificado, o remete para o Senhor. É um altíssimo contemplador das coisas criadas, porque para tudo e todos olha com o olhar com que foi olhado, o da misericórdia. Aquele «segredo» que o envolve num instante sublime, «inaudito milagre», trespassa-o e entranha-se para não mais o largar. É a experiência da misericórdia que está para lá de todas as formalidades, juízos humanos e aparências. Um encontro que lhe fica gravado a fogo no coração para não mais se apagar, a que Francisco recorre constantemente no fortalecimento da sua vocação e missão.
Francisco não tem do mundo uma imagem exagerada. Não é ingénuo pensando que tudo é bom e inofensivo. Ele sabe que há lobos que necessitam de reconciliação. Não é um otimista desencarnado, nem tão-pouco um pessimista desesperado, incapaz de reconhecer os sinais da bondade divina que tudo preparou para os seus filhos. Há o perigo de pintar o mundo a preto e branco, os bons e os maus, os que são a favor e os que são contra, os amigos e os inimigos, os cristãos e os muçulmanos. Há também a tentação de pintar o mundo com as cinzentas cores da indiferença, um crepúsculo sem cor, uma uniformidade no grisalho medíocre, pesado e triste. O mundo de Francisco é colorido, como são fortes e luminosas as cores do Cristo que o olha no crucifixo de S. Damião. Está longe de Francisco a nossa visão da Idade Média como um tempo de trevas e escuridão obscurantista, uma quase civilização mergulhada no nevoeiro da sujidade, doença e ignorância. Ali há cor, alegria, vida, cântico e louvor. Francisco é realista, esperançadamente realista. Com a sabedoria do Pai das luzes ele sabe ver o negro do pecado, o vermelho da paixão de Cristo, e todas as cores que o rosto radiante do Senhor põe a descoberto. Percebe claramente que a situação do homem está longe da perfeição, que o homem ameaça ruínas: «está quase em ruínas» ouviu ele da boca de Cristo. E por isto, todos sem exceção, e ele mais do que todos, precisam de conversão, do remédio da penitência que opera a transformação, abre os olhos e dá sabor à vida: «Deus, nosso Senhor, quis dar a sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência (...) e o que antes me parecera amargo converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo» (T 1, 3).
É a «casa» que está em ruínas. O lugar do encontro e do acolhimento dos que chegam como hóspedes, mas a quem importa dar um lugar à mesa. A casa da humanidade que é o mundo, a ecologia, a casa dos cristãos que é a Igreja, a casa do Espírito que é o próprio homem. É a casa que está em ruínas. São as relações do homem com o outro homem, do homem com Deus, que ameaçam fendas, desmoronar, cair, o caos da desordem, a confusão da loucura, o emaranhado de interesses. Repara, como quem para para rever, olha e vê, vê para reparar e refazer o que o abandono desfez. Restitui ao uso para o qual foi feito o que estava em desuso, devolve à memória o que tinha caído em esquecimento, volta a colocar no roteiro dos povos um lugar de encontro que tinha estado abandonado. São as divisões dentro da Igreja e do próprio homem, é a consequência do pecado, é a guerra que o homem trava dentro de si mesmo. «Iluminai as trevas do meu coração». Francisco pede um olhar limpo e límpido que lhe permita reconhecer as belezas de que está envolvido, pede a clarividência, o discernimento e a ciência, a sabedoria do coração para ver bem, ver claramente à plena luz do dia, a sua própria realidade, sem defeito de visão, sem aumento de exagero, sem defeito de olho míope e curto. Ver bem com o coração para saber onde está a ruína, onde é preciso atuar. Ele sabe que o homem está doente, sabe qual é a sua doença, e, sabedoria dos santos, sabe qual é o seu remédio: o amor de Deus.
A perfeita saúde do corpo e da alma dá Francisco um nome, Paz. Paz e Bem, a reconciliação dos homens irmãos juntos ao mesmo Senhor que a todos atrai. Faz disto também a sua bandeira: «esta saudação me revelou o Senhor que disséssemos: O Senhor te dê a paz» (Test. 23). O reconhecimento das diversidades cromáticas de cada um como uma riqueza para o mundo. A diversidade de sentires, o complemento de todos que fazem o frade perfeito, a humanidade capaz de avançar num progresso humano, verdadeiramente humano porque divino.
Mas o trabalho de Francisco é animado pela certeza da fé de ver um dia a pobre e abandonada igrejinha de S. Damião, a Igreja e o Homem, perfeitamente reconstruída, limpa e habitada, cumprindo a missão para a qual foi construída e sonhada. Francisco, mais do que otimista, é homem de esperança, quer levar a bom termo o sagrado encargo que recebeu. Sabe e sente que isso é possível e por isso deita mãos à obra. Não há nada que o homem não possa fazer com as suas mãos se tiver a força do Alto e a graça de Deus. O trabalho que lhe é pedido é possível de acabar, talvez seja demasiadamente pesado para um só homem, mas ele tem tempo e o Senhor dá-lhe companheiros. Homens de todo o tempo e lugar, povos, línguas e nações se juntam a Cristo, por Francisco, na construção de uma nova fraternidade.
Tudo partiu e parte de um olhar que a cada momento nos chama pelo nome e nos envia: «Vai e repara a minha casa».
Fonte: http://www.ofm.org.pt/index.php/espiritualidade/106-cristo-e-francisco
Frei Gonçalo de Figueiredo, ofm