sábado, 31 de março de 2012

Clara de Assis: a coragem de uma mulher apaixonada


Leonardo Boff
 Há 800 anos, na noite de 19 de março de 1221, dia seguinte à festa de Domingos de Ramos, Clara de Assis, toda adornada, fugiu de casa para unir-se ao grupo de Francisco de Assis na capelinha da Porciúncula que ainda hoje existe. As Clarissas do mundo inteiro e toda a Família Franciscana, celebram esta data que significa a fundação da Ordem de Santa Clara espalhada pelo mundo inteiro.

Clara junto com Francisco - nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que "nunca mais se separariam” segundo a bela legenda época - representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade. É bom lembrá-la neste mês de março, dedicado às mulheres. Por causa dela, há milhões de Claras e Maria Claras no mundo inteiro. Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico e afluente mercador de tecidos, dos Bernardone.

Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212, Clara "foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências”. Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em seu livro Clara de Assis: a primeira mulher franciscana (Vozes 1994): "neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo, pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo”(p. 63). Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente, mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a "minha Plantinha”.

Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples.
A cena não tem nada a perder em criatividade, ousadia e beleza, das melhores cenas de amor dos grandes romances ou filmes. Como poderia uma jovem rica e bela fugir de casa para se unir a um grupo parecido com aos "hippies” de hoje? Pois assim devemos representar o movimento inicial de Francisco. Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.

Na noite do dia de 19 de março, Clara, escondida, fugiu de casa e chegou à Porciúncula. Entre luzes bruxoleantes, Francisco e os companheiros a receberam festivamente. E em sinal de sua incorporação ao grupo, Francisco lhe cortou os belos cabelos louros. Em seguida, Clara foi vestida com as roupas dos pobres, não tingidas, mais um saco que um vestido. Depois da alegria e das muitas orações foi levada para dormir no convento das beneditinas a 4 km de Assis. 16 dias após, sua irmã mais nova, Inês, também fugiu e se uniu à irmã. A família Favarone tentou, até com violência, retirar as filhas. Mas Clara se agarrou às toalhas do altar, mostrou a cabeça raspada e impediu que a levassem. O mesmo destemor mostrou quando o Papa Inocêncio III não quis aprovar o voto de pobreza absoluta. Lutou tanto até que o Papa enfim consentisse. Assim nasceu a Ordem das Clarissas.
Seu corpo intacto depois de 800 anos comprova, uma vez mais, que o amor é mais forte que a morte

quinta-feira, 8 de março de 2012

SANTA CLARA, MODELO FORTE DE MULHER

Frei Vitorio, ofm

Clara de Assis não é importante somente como a companheira de São Francisco, mas é um forte exemplo do Movimento Religioso Feminino dos séculos XII e XIII. Exerceu uma influência muito grande entre as mulheres de seu tempo a tal ponto que Hortolana, sua mãe, Inês e Beatriz, suas irmãs de sangue, Inês de Boêmia, e tantas mulheres a seguiram. Donato de Besançon foi o primeiro a escrever uma Regra de Vida para mulheres que viviam nos mosteiros; e a partir daí todas as Regras, por assim dizer, femininas, ou compilações de Regras, são feitas por homens. Clara foi a primeira mulher a escrever uma Regra própria para mulheres. Não temos o original com a chancelaria pontifícia, mas nos restou o texto de Clara com sua limpidez original.
 A firmeza de Clara causa certa perplexidade. Ela conduz vidas! Escreve um texto tendo como pano de fundo São Bento e a Regra não Bulada de Francisco; mas não deixa de ser original. Seu tempo é o tempo litúrgico. Seu tema mais importante é a Pobreza. Clara causa impacto! Pode uma mulher e seu grupo de mulheres viverem sem nada? Podem sim! Se há um intenso amor existe um desatrelamento do jurídico e a entrega à algo mais substancial: não preciso ter nada pois tenho uma riqueza essencial, a capacidade de amar o Amado!

Clara sempre falou mais que Francisco sobre a Pobreza. A sua fraternidade feminina de São Damião viveu radicalmente pobre e esta é a sua original irradiação. Clara pede o direito de não ter nenhum direito; quer ser livre para amar. É como se voltasse às fontes do feudalismo: autogerir-se!

Clara viveu tão coerentemente a sua vida que o Mosteiro passa a ser um lugar de irradiação: não é reclusão entre paredes, mas sim um ideal que voa para o mundo. Um ideal sai pelas frestas de São Damião e ganha corações. Em Clara todos podemos ser de Deus; todos podemos ser nobres de alma através de seu amor. Santa Clara, abençoai todas as Mulheres hoje, no dia dedicado a elas!
www.carismafranciscano.org,br

8 de março de 2012 - Dia Internacional da Mulher

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Quaresma: O Jejum de São Francisco de Assis e de São Romano

           Francisco foi um homem de Oração e jejum. O seu jejum era extremo ao ponto de sofrer por falta de alimento. Certa vez chegou a fazer uma Quaresma inteira de Jejum. Tinha no Jejum uma fonte de vida espiritual. Buscava no jejum uma intimidade com o Senhor.
          Muitos anos antes de Francisco, São Romano Melodista (? – c. 560), compositor de hinos, escreveu um belo texto sobre o jejum:

          "Entrega-te, minha alma, ao arrependimento; une-te a Cristo pela razão e, gemendo, grita: Concede-me o perdão das minhas faltas, para que de Ti receba, Tu só que és bom (Mc 10,18), a absolvição e a vida eterna. [...]  
          Moisés e Elias, essas torres de fogo, foram grandes nas suas obras. [...] Foram os primeiros de entre os profetas a falar livremente a Deus e a comprazer-se em d'Ele se aproximar para Lhe rezar e falar face a face (Ex 34,6; 1Rs 19,13), facto admirável e incrível, e, apesar disso, não deixaram de recorrer ao jejum, que os unia a Deus (Ex 34,28; 1Rs 19,8). Assim, tal como as obras, o jejum conduz à vida eterna.
        Pelo jejum são os demónios afastados como pela espada, porque lhe não suportam os benefícios: o que eles adoram são a folia e a embriaguez. Por isso, ao olharem o rosto do jejum, não podem tolerá-lo e fogem para bem longe, como nos ensina o Senhor nosso Deus: «estes demónios podem ser expulsos pelo jejum e pela oração» (Mc 9,28 Vulg.). É por isso que o jejum nos traz a vida eterna. [...]
            O jejum devolve aos que o seguem a habitação paterna donde Adão foi expulso. [...] Foi o próprio Deus, o amigo dos homens (Sb 7,14 Vulg.), que confiou o homem ao jejum como a uma mãe extremosa ou a um mestre, tendo-o proibido de provar apenas duma árvore (Gn 2,17).
            Tivesse o homem observado esse jejum e viveria para sempre com os anjos. Ao rejeitá-lo, causou para si a dor e a morte, a fereza dos espinhos e das silvas, e a angústia duma vida dolorosa (Gn 3,17ss.) Ora, se o jejum se revelou proveitoso no Paraíso, quanto mais o não será neste mundo para nos proporcionar a vida eterna!"

Oração: Senhor Jesus. Desejo viver esta Quaresma voltado para o seu projeto em minha vida. O meu próximo sofrido, as minhas limitações carnais, as minhas inquietações, serão o alvo do meu jejum. Me ajude a depender unicamente da graça e utilizar o meu Jejum como meio de Graça para viver de acordo com a sua santa vontade. Senhor Jesus. Necessito unicamente de ti. salva-me e ajuda-me a viver santamente. Amém.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Laicato maduro e significativo para novos tempos


Frei Almir Ribeiro Guimarães (*)
A Ordem Franciscana Secular é a mais antiga forma de organização de leigos que, guiados pela Igreja, unidos em fraternidade e inspirando-se no ideal de São Francisco de Assis, se empenham em testemunhar com a vida o Evangelho de Jesus Cristo e se dedicam ao apostolado no estado laicalPalavras de João Paulo II dirigidas aos franciscanos seculares)
Os franciscanos seculares encontram na Regra o projeto evangélico e o auxílio necessário para poderem se tornar efetivamente instrumentos da reconciliação universal operada por Cristo. Tal projeto franciscano supõe a colaboração com a ação de Deus no interior das estruturas humanas. A expressão “no interior” é de fundamental importância porque afirma que a santidade, a “perfeição da caridade” que os franciscanos seculares são chamados a realizar, não passa “acima” de sua condição humana, tanto individual como social, não se realiza “apesar” de viverem em família, de trabalharem, estudarem, lutarem por uma sociedade mais justa, pela justiça, pela paz…, mas – essa é a grande verdade que Francisco intuiu – tal santidade é alcançada precisamente pelo fato de viverem fiel e evangelicamente todas as situações próprias da condição secular (Manuale per l’assistenza all’OFS e alla GiFra, p. 89).
1. A Ordem Franciscana no Brasil tem refletido sobre muitos temas importantes que visam alimentar a vida dos irmãos e das irmãs. Nos últimos tempos temos estudado a questão do senso de pertença à Ordem, as características de nossa identidade, a ação concreta no mundo, a presença dos irmãos no mundo, o senso missionário, a revitalização de nossa vida fraterna e das reuniões gerais, o cuidado pelo criado. Duas questões parecem nos preocupar no momento: Como formar na OFS um laicato vigoroso e maduro? Que expressão têm os franciscanos seculares em nossas dioceses e no mundo?
2. Não há dúvidas. Os franciscanos da Terceira Ordem são seculares. Secular não quer dizer pessoa que adota o secularismo, ou seja, exclusão do mistério da Transcendência. Os terceiros vivem no mundo. Casam-se, trabalham, empenham-se por viver o Evangelho na sociedade dos emergentes, do neoliberalismo, do consumismo, da comunicação e da exclusão. Inquietam-se com tudo aquilo que, no mundo, é contra o espírito cristão, a espiritualidade franciscana e a Regra que professaram. Inquietando-se com isso, dão testemunho do contrário. São seres leves, alegres e transparentes.
3. Nas últimas décadas falamos sempre em Ordem Franciscana Secular. Insiste-se, portanto, no secular. Esse secular é para valer. Documentos exarados de Capítulos da Ordem em diferentes níveis nos últimos tempos insistem na presença dos irmãos no mundo. Na medida em que os candidatos à vida franciscana secular forem sendo formados no espírito da Regra, esperamos poder ter em nossas fileiras um laicato maduro e nossas fraternidades serão significativas, ou seja, irradiarão o Evangelho no meio das realidades terrestres.
4. Teoricamente estamos todos de acordo que a OFS seja caracterizada pela atuação no mundo. Uma coisa é a teoria e outra, a prática. Os membros da Ordem não são franciscanos “apesar” de serem casados, de terem filhos, de trabalharem na abertura das estradas ou na bolsa de valores. Estamos diante de leigos corajosos que implantam o Reino nas realidades terrestres e suas primeiras e fundamentais preocupações não podem ser as atividades litúrgicas e os serviços religiosos “ad intra”. Estão postados diante de um mundo cheio de desafios e têm a missão de torná-lo cristão. Haverão de se constituir numa laicato maduro e significativo para os novos tempos.
5. Vivemos tempos novos na Igreja e no mundo. Não nos cansamos de dizer isto. O mundo destes primeiros anos do novo milênio tem pouco a ver com a década de 40 ou 50 do século passado. Na Igreja e no mundo não podemos nos aferrar a posicionamentos que se tornaram obsoletos, anteriores a toda a uma série de reformas e atualizações (aggiornamento) da Igreja. O passado e a maneira de viver o cristianismo e o franciscanismo ficaram estreitos e não cabem mais em nós como uma roupa que ficou apertada. Não podemos nos enclausurar no passado e viver da nostalgia. Temos que olhar para frente e imaginar um amanhã conforme o desejo do Espírito. Estamos terminantemente proibidos de viver a vida cristã franciscana como mera repetição do passado. Seria faltar com a coragem de acolher a novidade do Espírito. A Regra que a Igreja nos deu aponta para tempos novos.
6. A Ordem Franciscana Secular, de modo especial pela “modernidade” de sua Regra, é constituída de homens e mulheres dos tempos novos. Algumas de nossas fraternidades ainda respiram os ares anteriores à promulgação da Regra e de sua assimilação. Estamos convencidos de que as fraternidades novas que vão surgindo serão grupos que darão substanciosa contribuição para tornar o mundo mais humano e a Igreja mais e mais sacramento, sinal do mundo novo. Imaginamos os franciscanos seculares leigos maduros e em franco processo de amadurecimento.
7. O tema de um laicato maduro se une ao de um grupo que tenha significação, que seja expressivo no atual contexto do mundo e da Igreja. Que visibilidade têm as fraternidades franciscanas seculares? Que influência têm os membros na Ordem nas paróquias, na dioceses e na vida da cidade? O simples fato da existência de uma fraternidade é levado em consideração, reconhecido, pelos membros de uma paróquia? Que influência exerce a OFS na Igreja do Brasil? Será que está desempenhando, nos diferentes níveis, um papel decisivo de reconstrução da Igreja no começo deste novo milênio? De que visibilidade gozamos? Leigos, bispos e sacerdotes esperam de nós colaboração na transformação da realidade e da Igreja? A OFS deverá ser constituída de um laicato maduro e expressivo.
8. Laicato – Não é aqui o lugar de fazer um tratado sobre esse tema vasto e complexo. Não pretendemos entrar em polêmicas. Documentos sérios e sólidos da Igreja tratam do assunto. Mencionamos aqui apenas dois deles: a Exortação Apostólica sobre a Vocação e a Missão dos Leigos de João Paulo II (Christifideles laici) e o Documento de Aparecida. Muitos outros deveriam ser mencionados. Os leigos são cristãos incorporados a Cristo pelo batismo. Formam com bispos, padres, diáconos, religiosos e religiosas o povo de Deus. Participam das funções de Cristo sacerdote, profeta e rei. No dizer do documento de Puebla são homens da Igreja no coração do mundo e homens do mundo no coração da Igreja. Sua missão própria se realiza precisamente no mundo e não nas atividades internas da Igreja mais vinculadas ao ministério dos pastores. Sua presença e sua ação visam transformar o mundo. Ajudam no nascimento de estruturas justas no meio do mundo.
9. Evangelii Nuntiandi: “A sua primeira e imediata tarefa (dos leigos) não é a instituição e o desenvolvimento da comunidade eclesial – esse é o papel específico dos Pastores – mas sim, de pôr em prática todas as possibilidades cristãs e evangélicas escondidas, mas já presentes e operantes nas coisas do mundo. O campo próprio de sua atividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos meios de comunicação e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização, como seja, o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento (Evangelii Nuntiandi, n . 70).
10. Os leigos cristãos através de sua vida haverão de tornar crível a sua fé de modo especial através de uma conduta humana e cristã marcadas pela coerência. Serão chamados a participar na ação pastoral primeiro pelo testemunho de vida, pela atuação nos campos assinalados por Evangelii Nuntiandi e, segundo lugar, com ações no campo da evangelização da animação liturgia e orante das comunidades.
11. Não podemos deixar de mencionar, no contexto deste tema, uma das prioridades do apostolado evangelizador dos leigos: a ação evangelizadora da família. Novamente é Evangelii Nuntiandi que insiste. Fala da Igreja doméstica. A família, como a Igreja, tem por dever ser um espaço onde o Evangelho é transmitido e donde o Evangelho se irradia. Belamente assim se exprime o documento: “No seio de uma família que tem consciência desta missão, todos os membros da mesma família evangelizam e são evangelizados. Os pais não somente comunicam aos filhos o Evangelho, mas podem receber deles o mesmo Evangelho profundamente vivido” (n. 71).
12. Quando falamos da realidade e missão dos leigos não podemos deixar de mencionar a força das imagens do sal da terra, luz do mundo e fermento da massa. Christifideles Laici assim se exprime: “As imagens evangélicas do sal, da luz e do fermento embora se refiram indistintamente a todos os discípulos de Jesus, têm uma específica aplicação nos fiéis leigos. São imagens maravilhosamente significativas, porque falam, não só da inserção profunda e da participação plena do fiéis leigos na terra, no mundo, na comunidade humana, mas também e sobretudo, da novidade e da originalidade de uma inserção e de uma participação destinadas à difusão do Evangelho que salva” (n. 15).
13. Laicato maduro – Maduro é um termo que vem da botânica. Os frutos começam a aparecer depois da floração. Com o sol, a chuva, os cuidados do agricultor vão se desenvolvendo e chegam a ficar maduros. Trata-se de um processo que, caso por caso, demanda tempo. Podemos falar de um laicato maduro em muitos sentidos e desdobramentos que não podemos esmiuçar no limite desta reflexão. Trata-se de termos na Igreja e na Ordem uma plêiade de leigos e leigas em nítido processo de amadurecimento. Não há pessoas completamente maduras, mas em processo de amadurecimento. Para os cristãos, a verdadeira maturidade se chama santidade. Podemos falar de uma maturidade humana, afetiva, cristã, franciscana e missionária.
14. No frenesi das coisas e da pressa de nossos tempos, na aceleração de tudo notamos que as pessoas querem tudo muito rapidamente. Não dão tempo ao tempo e o processo de maturação. Imaginemos, caricaturalmente, uma situação. Um moço tem seus 15-16 anos. Estuda sem estudar de verdade. Tem pai e mãe, mas não é de fato envolvido por eles num processo de educação. Encontra-se com uma menina, vive um envolvimento amoroso, abandona essa, se casa com outra, faz faculdade, exerce a profissão, mas não visita seu interior. Casa-se e se separa. Passa a pagar pensão para o filho. Depois é convidado a frequentar uma dessas igrejas novas. Como é que esse moço pode crescer em maturidade? Nota-se que muitos se tornam maduros, desenvolvidos em partes de sua vida e não realizaram uma maturação global e integrada. São técnicos de informática mas não têm domínio algum sobre outros aspectos de sua personalidade. São infantis e imaturos. Não nos esquecemos que muitos desses podem ser membros de nossas fraternidades e eventualmente serem escolhidos para fazerem parte do Conselho. Não se compra maturidade nas gôndolas e prateleiras dos centros comerciais.
15. Traços humanos de maturidade
>> O homem é mais do que sua aparência. Uma pessoa adulta ou em processo de maturação não julga pelo exterior. Sabe que os verdadeiros valores pessoais e dos outros estão no interior.
>> É sobretudo um ser de relações. Será maduro quando souber viver serenamente os relacionamentos entre as pessoas.
>> Maduro é aquele que vai organizando um projeto de vida, tendo um buquê de convicções, não se deixando atropelar por emoções e pelos caprichos dos acontecimentos.
>> Maduro é aquele que consegue desenvolver boa parte das dimensões de seu ser: inteligência, vontade, afetividade, profissão, arte da convivência. Adulta é a pessoa que sabe realizar projetos com outros.
>> O adulto não é marcado pela agressividade e susceptibilidade. Possui serenidade e segurança interiores.
>> A pessoa em processo de maturação  não se considera o centro do mundo e das atenções e vai aprendendo a fazer o êxodo de si e ser solidária.
>> Dizemos que o adulto é pessoa em processo de maturação e, persistente, sem ser teimosa.
>> É criativo: não se contenta a repetição do que foi visto e vivido.
>> Sabe recolher as lições do passado e adivinha os passos a serem dados amanhã.
>> É capaz de buscar o silêncio, a reflexão. Viaja ao fundo do coração.
>> Não é ingênuo, mas  tem senso crítico e sabe discernir.
>> Tem senso de responsabilidade e aprendeu a assumir compromissos.
>> Tem senso de humor: é capaz de rir de si mesmo. Sabe conjugar alegria e seriedade.
>> Madura é a pessoa que não é doentiamente dependente, mas autônoma. Sabe respeitar as pessoas. Não tem desejo de posse.
>> Tem flexibilidade de julgamento, guardando distância entre a dureza ou a teimosia e o deixar que as coisas corram por correr.
>> Maduro é aquele que tem critérios e não se deixa influenciar por modismos ou fanatismos que passam.
 >> Maduro é aquele que tem capacidade de escutar, de dialogar, saber esclarecer-se pela fala do outro, dar sua colaboração para que situações sejam revertidas.
16. Traços do leigo cristão  em processo de maturação
>> É fundamental que fique bem claro: clérigo é clérigo, religioso é religioso e leigo é leigo. Cada um destes tem sua especificidade e, consequentemente, terão expressões diferentes no mundo e na Igreja.
>> Pessoa cristãmente madura é aquela que se deixa guiar pelo Espírito e não pela carne, pelo desejo de aparecer e de atribuir a si o que é dom de Deus. O cristão é formado pela ação do Espírito em sua vida e na comunidade cristã que frequenta.
>> Trata-se de uma pessoa que vai dando uma resposta pessoal e comunitária ao Evangelho e suas exigências ao longo de sua vida, percorrendo um caminho constante  de busca do Senhor. Esse caminho podemos chamar de “conversão”.
>> Pessoa que tem senso de comunidade. Não vive uma religião privada e particular. Sabe que o Ressuscitado se manifesta no coração da comunidade cristã.
>> O cristão em processo de maturação leva uma vida de oração sólida. Tem aguçada preocupação com seu crescimento na intimidade com o Senhor. Vive alegria particular em rezar com os irmãos. Valoriza, de modo especial, a Eucaristia. Participa o mais que pode da missa.
>> Cristão leigo maduro é aquele que não se atém a aspectos menos centrais do cristianismo: procissões, devoções, apego exagerado aos santos. Maduro é o cristão que vive intensamente em sua vida pessoal o mistério da Páscoa: morte e ressurreição com  Jesus. A espiritualidade das espiritualidades é a do mistério pascal.
>> Pessoa cuja fé é centrada, efetivamente, na pessoa de Cristo que busca com ardor e constância. Frequenta o evangelho e tenta se revestir do espirito evangélico.
>> Está em processo de amadurecimento aquele que busca a unidade, na diversidade.
>> É capaz de se re-situar na vida. Enxerga os desafios e tem confiança de que poderá superá-los.Pensamos aqui no caso de alguém que perde um ente querido, que é tocado por uma grave enfermidade em casa.  Tem compreensão da dimensão luminosa do sofrimento e da cruz.
>> Mostra sintomas de amadurecimento o cristão que sabe colocar-se à disposição do Senhor em diferentes circunstâncias.
>> Na medida em que vai fazendo sua caminhada humana e cristã tenta poder dizer com Paulo: “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.
>> Não se deixa levar pelos carismas exteriores e vistosos.  Prefere  ocupar um lugar discreto.
>> É perseverante em seus propósitos. Seu sim e sim e seu não é não.
>> Tem um aguçado senso de Igreja, sobretudo do profundo mistério da Igreja que é criatura de Deus, esposa de Cristo, Corpo Místico de  Cristo.
>> Vive a dinâmica do ver-julgar-agir. “A missão do leigo na sociedade apresenta-se hoje à consciência cristã como uma forma de evangelização, em que aspectos diversos podem ser acentuados, conforme o apelo das circunstâncias e a vocação pessoal de cada um: quer na transformação das realidades terrestres, pela ação social e política, quer no anúncio da mensagem evangélica pela palavra, pelo testemunho de vida e pelo diálogo, sempre em atitude de serviço inspirada pelo Cristo que veio para servir” (Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas, Doc. CNBB 62, p. 103).
17. Maturidade franciscana
>> O franciscano está em constante estado de amadurecimento. Hoje, toda a Ordem anda preocupada com a formação permanente.
>> De alguma forma, com o decorrer do tempo,  o franciscano como que respira o ar dos primórdios do carisma franciscano e clariano. No tempo da formação, ele vai se identificando com o jeito franciscano de viver. Traz o carisma para os dias de hoje.
>> Cresce na intimidade do Senhor: frequência às páginas do Evangelho, familiaridade com o Evangelho vivo que se chama Jesus Cristo.
>> Vive um estilo de vida despojado: não gosta de ser protagonista de coisas grandiosas. É despojado no vestir, no uso das coisas, sem aferrar-se às suas opiniões.
>> Instaura a paz onde há querelas, divisões e partidos. É construtor da paz.
>> Sabe que a fraternidade é elemento importante em seu gênero de vida: fraternidade local, fraternidade com os membros da família franciscana, instauração de fraternidades cristãs por onde passa.  Coloca-se à disposição de sua fraternidade local. Inventa meios e modos de fazer com que as pessoas façam experiências solidas de verdadeira fraternidade.  Para o franciscano secular a fraternidade em que vive é parábola do reino.
>> Sabe subordinar seus projetos aos projetos de Deus em sua vida, na fraternidade e na comunidade.
>> Maduro quando tenta alternar de maneira equilibrada e sábia momentos de contemplação e ação no mundo.
 18. Por que se tornou difícil o processo de amadurecimento?
 >> Uma pessoa em sério processo de amadurecimento, em vias de tornar-se adulta de verdade, é uma preciosidade. As pessoas amadurecem ao longo da vida, percorrendo as estações da existência, na sucessão de experiências pessoais e comunitárias, na paciência do tempo.  Cada biografia tem suas marcas próprias de amadurecimento  existencial.
>> É preciso dar tempo ao tempo. O amadurecimento se faz através da lentidão do tempo. Andamos todos apressados, temos muito que fazer, fazer rapidamente e assim fica difícil que os amores, as falas, os escritos, a família, a fraternidade franciscana amadureçam.
 >> Sem uma verdadeira escala de valores e sem respeito pela transcendência fica difícil o processo de amadurecimento. Vivemos num tempo de profunda crise ética e assim muitos somos desarrumados interiormente.
 >> Há a prevalência da lei do menor esforço, do desejo de se obter aqui e agora e já o que se deseja.
>> Estamos no mundo do individualismo, marcado pelo desejo de aproveitar a vida. Multiplicam-se as experiências sexuais desde o tempo da adolescência.
>> Uma pessoa amadurece quando assume compromissos. Ora, vivendo compromissos “leves”, pulando de meta em meta sem esgotar as riquezas do primeiro compromisso,  o interior das pessoas não chega a se arrumar de verdade.  As pessoas têm medo de compromissos definitivos. Têm receio de serem escravizadas por camisas de força (casamento definitivo, vida religiosa, profissão).
>> Diante de um leque imenso de possibilidades e eventualidades  as pessoas se acham perdidas e, indo de um lado para o outro, de Seca a Meca, não se aprofundam em nada.  Diante do imenso leque de possibilidades as jovens gerações têm dificuldade de amadurecer.
 >> Há a questão do amadurecimento cristão das novas gerações. Muitos são simplesmente  “catequizados” por um tempo e não vivem um contato permanente  com a fé e suas mais sólidas expressões. Falta uma catequese familiar, ou simplesmente uma família sólida. Nossas paróquias não conseguem fazer com que bom número de cristãos  conheçam um crescimento sistemático da fé.  Não favorece a maturação da fé uma sacramentalização  apenas com pinceladas de evangelização.
>> Sem visitas constantes e regulares ao interior as pessoas podem conhecer dificuldade de um crescimento mais sistemático.
 >> O mundo das imagens e do som pode ser obstáculo ao amadurecimento tomado globalmente.
 19.Desafios e urgências
>> Todas as reflexões que aqui foram feitas colocam os franciscanos seculares diante de urgências e de desafios.
>> Os franciscanos seculares experimentam alegria de serem leigos e não têm “saudades” ou “desejo” de serem clérigos. Mesmo quando prestam serviços à paróquia ou à diocese em diversos setores do culto e da evangelização são pessoas que experimentam alegria muito grande de serem fiéis cristãos leigos. Sabem que sua missão é colocar a força do evangelho nas coisas do mundo.
>> Os franciscanos seculares se aproximam bastante do modo de ser e de agir da Ação Católica com seu famoso e bem provado método do ver-julgar-agir. São peritos na arte de examinar a realidade e tentar impregná-la da espiritualidade evangélico-franciscana. Assim, dão largos passos na linha de sua maturação cristã.  Fala-se de uma militância dos leigos.
>> Fazem de sua casa uma verdadeira Igreja doméstica, com toda maturidade de uma espiritualidade leiga. Tudo leva a crer que as fraternidades franciscanas seculares, na medida do possível, deveriam poder contar com um número razoável de casais. Em muitos momentos no “território” e na vida das fraternidades  sejam promovidos encontros com as famílias. Dentro do espírito da secularidade os franciscanos seculares exercem grande apostolado no seio da própria família e junto a outras famílias. Vivem franciscanamente a espiritualidade conjugal e familiar.
>> Adotam uma postura de simplicidade e de pobreza evangélica num mundo de sofisticação, de esnobismo, de consumismo e de gastança. Assim “fermentam” evangelicamente a realidade. Visibilizam-se como seguidores do Francisco amante da pobreza.
>> Os franciscanos seculares estarão presentes com frequência e competência no bairro que moram, na rua onde residem. As alegrias e dramas de seus vizinhos são suas alegrias e seus dramas. Desta formam “exprimem” seu desejo de proximidade da vida das pessoas.
>> Adotam posturas de ética que transpiram convicções evangélicas. Tal se dá individualmente, no jeito como reagem em suas fraternidades. No dia a dia de suas vidas serão conhecidos como pessoas que tomam decisões na linha da justiça inspiradas no evangelho. Não é um jeito de tornar expressiva a OFS?
>> Sabem dialogar a respeito dos grandes temas da atualidade: novas formas de casamento, crise econômica, transformações na bioética. Por isso, os formadores saberão sempre trazer pessoas capazes de conversar com os irmãos sobre esses e outros grandes temas da atualidade.
>> Trabalham com lucidez nas diferentes frentes de pastoral. Os franciscanos seculares estão à disposição dos Conselhos de Pastoral. Estão dispostos a trabalhar na catequese, na evangelização, na animação de grupos de reflexão e mesmo na liturgia e  no serviço do alto. Fazem tudo sem perder sua “laicidade”. Não se deixam envolver por uma “promoção” ao estado clerical. Este aspecto é particularmente delicado. Os párocos e seus colaboradores  contarão com a colaboração dos terceiros desde que não percam sua características de cristãos seculares. A OFS  não é uma “pastoral” da paróquia, mas um movimento suscitado pelo Espírito para colocar alma nova em tudo, também na pastoral.
>> Os que trabalham na pastoral  querem uma conversão da pastoral. “A conversão pastoral de nossas comunidades exige que se vá além de uma pastoral de conservação para uma pastoral decididamente missionária. Assim será possível  que o único programa do Evangelho continue introduzindo-se em cada comunidade eclesial com novo ardor missionário, fazendo com que a Igreja se manifeste como mãe que vai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária” (Doc. Aparecida, n. 370).
>> Nunca trabalharão na linha de uma mera sacramentalização. Os franciscanos seculares precisarão “incomodar” no sentido de apontar para a necessidade de se refazer o tecido comunitário e fraterno e que se procure fazer uma evangelização que atinja o nó de cada pessoa e as insira na comunidade, na utopia da comunidade.
 Conclusão
“Os franciscanos seculares  estejam presentes… no campo da vida pública: colaborem, quanto lhes seja possível, na elaboração de leis e de normas justas (cf.Regra 15). No campo da promoção humana e da justiça, as Fraternidades devem empenhar-se com iniciativas corajosas, em sintonia com a vocação franciscana e com as diretrizes da Igreja. Tomem posições claras quando a pessoa humana é ferida na sua dignidade em virtude da opressão e da indiferença, qualquer que seja sua forma. Ofereçam seus serviço fraterno às vítimas da injustiça. A renúncia ao uso da violência, característica dos discípulos de Francisco, não significa renuncia à ação; os irmãos, porém, cuidem que as suas intervenções sejam sempre inspiradas no amor cristão” (CCGG Art. 22)
 Leituras
Exortação Apostólica Vocação e Missão dos Leigos, de João Paulo II
Missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas (Doc. CNBB  62).
Carta a Diogneto  (em torno de 150).
Questões e questionamentos:
O quem mais chamou sua atenção neste texto?
De modo geral  quando é que se pode dizer que um cristão-franciscano está em serio processo de crescimento?
Como aplicar à realidade o método  ver-julgar-agir?
Sinais de maturidade e de imaturidade no momento atual da vida da Igreja e de nossas fraternidades.
Que expressão tem sua fraternidade local na diocese, na paróquia e no mundo?
(*) Frei Almir Ribeiro Guimarães, OFM
Assistente Nacional da OFS pela OFM e Assistente Regional do Sudeste III

Fonte: http://www.franciscanos.org.br/n/?p=12130

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

A Economia do Pobrezinho de Assis


São Francisco de Assis nasceu e cresceu em uma família rica, que comerciava tecidos finos, que seu pai trazia da França. Durante sua mocidade preocupou-se em viver intensamente sua virilidade ‘jogralesca’. Suas noitadas, suas festas, seus amigos, tudo viveu Francisco com muita intensidade. Seu pai Pietro Bernardone o educou para uma economia do lucro, fundamentada numa administração para o "cem por cento de lucro".
Após algumas experiências marcantes em sua vida começou a indagar-se, sobretudo em sua vida. E assim, o filho de Pedro Bernardone adentrou num processo de profunda reflexão sobre sua existência e, sobretudo, aquilo que até então acreditava ser os seus valores fundamentais .
Francisco de Assis a tudo possuía: prestígio, riqueza e amigos, no entanto, faltava-lhe algo extremamente necessário. Na tentativa por preencher este vazio sentido por ele é que o motivou a buscar incessantemente por algo. Depois de longa penúria encontrou seu tesouro, e que para adquiri-lo vendeu tudo o que tinha para comprar o terreno onde está o seu tesouro.
O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo, que um homem, ao descobrí-lo, esconde; então, movido de gozo, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” (Mt 13, 44).
O homem de Assis ao descobrir este tesouro lança-se em busca. O reino do céu, eis o grande tesouro encontrado e adquirido por Francisco. Ao que aqui chamaremos de Amor. Mas, o que seria este tesouro? Este Reino do Céu? Este Amor? E, eis que aos pouco o pobrezinho de Assis foi descobrindo que era o próprio Deus, este Deus que ora se mostra, ora se esconde.
Porém, Francisco não ficou só no primeiro contato para com Deus, para com o seu tesouro. Ele foi além. E indagou: “Senhor o que queres de mim?” Juntamente com esta pergunta, Francisco colocou-se inteiramente nas mãos do Amado e suavemente foi deparando-se que este Amor era o seu tudo. E durante toda a sua vida afirmou “Meu Deus e meu Tudo!
Se antes era o filho de um dos comerciantes mais ricos de Assis, tornou-se, então, o homem mais rico ainda, mesmo não possuindo nada, inclusive suas roupas (de baixo). Pois, descobriu o grande tesouro e por este tesouro teceu um compromisso com o verdadeiro amor, o próprio Deus, O Tesouro.
Então, por que Francisco foi e continua sendo este magno expoente para o mundo? Porventura seria pela razão de ter renunciado tudo por causa do Reino? Certamente que não, mas sim porque “verdadeiramente amou a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Cristo nos amou” e isto, com radicalidade. Aqui está a economia do pobrezinho de Assis.
A palavra Economia entre tantos significados que possui pode ser entendida como a administração da escassez. E, Francisco de Assis soube com maestria administrar suas mazelas para viver com radicalidade o mandamento do Amor; eis o segredo da economia do Poverello.
Francisco administra as suas misérias, suas mazelas humanas, e por isso é que ele apresenta um novo tipo de economia. A economia de sua vida; como? Atrás de seu segredo, o de amar o Amado, e antes mesmo de amar o Amado ele permite que o próprio Amado o ame. E só por isso é que o Poverello se torna capaz de opor-se aos erros do seu tempo e, superá-los na sua pessoa, na sua vida, nas suas ações.
Francisco “superou o ‘dinheirismo’, a idolatria da riqueza, a prepotência de quem possui, com a pobreza evangélica [...]” e que por isso “superou o consumismo daquele tempo, expresso no luxo e no refinamento de todas as formas do viver social, com a simplicidade mais radical, mas sem repudiar a civilidade, a cortesia e a gentileza para com todos”.
Francisco superou a discriminação social, que em sua época era extremamente visível, através das classes, aqueles que eram nobres, possuidores de bens, aqueles vassalos, serviçais. A todos o homem de Assis amava com o mesmo amor. Como pode ser percebido nas diversas hagiografias do santo.
O pobrezinho de Assis sentava-se a mesa com os nobres em seus magníficos palácios, mas também se sentava nas escadarias das igrejas junto com os mendigos. E tudo isto porque para Francisco a sua economia era fundamentada no Amor e não no lucro, ou no que os outros poderiam pensar dele. E que por isso a sua relação era sempre cordial para com todos sem distinção, uma vez que seu “olhar econômico” via a beleza de cada ser humano.
Francisco de Assis também superou “a violência, que serpeava na sociedade de então, vivendo como homem de paz, fazendo, desta maneira, resplandecer diante dos olhos o valor e a eficácia da paz de Cristo”.
Eis que o Pobrezinho de Assis com sua economia superou o “dinheirismo”, o “consumismo”, a “discriminação social” e a “violência”. Então, como nós hoje podemos colocar em nossa vida a vivência da Economia de São Francisco de Assis?
Primeiramente colocando no centro de nossas vidas o mandamento do amor. “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como Cristo nos amou”. Em segundo lugar, deixar ser amado pelo próprio amor; permitindo que o Amor nos envolva em todos os aspectos da existência humana, ou seja, na vida pessoa, comunitária; nas relações consigo, com o próximo; na dimensão financeira, sexual e emocional. Ao colocarmos no centro de nossas vidas o Amor, logo deixamos que este amor possa agir em nossa existência, consequentemente predispomo-nos a sair de nós mesmo e a perceber nos outros as qualidades, tornando-nos abertos para sermos cada vez mais cordiais para com quem quer que seja.
Na economia de Francisco Deus não é posto de lado, como fez o homem moderno, mas Deus ocupa a centralidade da vida.
Na economia de Francisco o Amor tudo passa pelo Amor, que é o Amado, ou seja, Deus.
Na economia de Francisco a vida ocupa grande relevância.
No entanto, não é o que se pode presenciar na atualidade, uma vez que o relevante é o ter, esquecendo-se de que este ter perpassa a dimensão do modo como ter e possuir.
Sendo assim, o que nos resta por fazer enquanto cristãos e franciscanos “é entender que a grandeza do homem se funda precisamente em Deus e na relação com ele”.
Lembre-se que a sua economia pode ser fundamentada no valor do Amor e não no valor monetário, como fez o Pobrezinho de Assis.
Referência Bibliográfica:
ZAVALLONI, R. Pedagogia Franciscana. Petrópolis: Vozes, 1999.
Fonte WWW.reflexoesfranciscanas.com.br

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Os conselhos evangélicos, terapia espiritual?

"Vossa vida está oculta com Cristo em Deus” (Cl 3,3)

fonte: http://www.franciscanos.org.br/n/?p=9648

Por Frei Almir Ribeiro Guinarães

Aqueles que seguem os conselhos evangélicos, ao mesmo tempo que procuram a santidade para si mesmos, propõem, por assim dizer, uma “terapia espiritual” para a humanidade, porque recusam a idolatria da criatura e tornam de algum modo visível o Deus vivo. A vida consagrada, especialmente em tempos difíceis, é uma bênção para a vida humana e para a própria vida eclesial (Vita consecrata, n.87).
1. Uma religiosa e um religioso. Ela se trajava com simplicidade. Uma saia cinza e uma blusa clara. Tinha uma pequena cruz de madeira pendendo do pescoço. Saiu de seu quarto e foi para a cozinha. Queria fazer um doce de abóbora com coco para a comunidade. Vida simples e despojada. Uma religiosa. O coco ralado estava no armário da despensa e ela começou a descascar duas abóboras pequenas. Tudo com simplicidade. Uma mulher de seus 40 anos que fizera a promessa de vida religiosa com os votos de uma vida pobre e despojada, como esposa do Senhor e desejosa de fazer a vontade do Amado. Ele, um religioso, estava entrando em casa pelas dez da noite. Tinha acontecido mais uma quinta-feira de curso sobre a espiritualidade franciscana. Passa rapidamente pelo refeitório, toma um copo de suco. Troca uma palavra com um confrade. Entra na capela, reza completas, faz uns breves momentos de adoração e vai descansar. Um religioso. Vidas singelas e cheias de significado. Desde a juventude, tanto um quanto outro, compreenderam que haveriam de ser do Senhor e dos irmãos. Seguir o Senhor numa vida de pobreza, obediência e castidade. Seres que recusaram a idolatria da criatura e, pelo seguimento dos conselhos evangélicos, verdadeiras transparências do Altíssimo.
2. Na capela das irmãs carmelitas de Petrópolis (Rua Barão do Rio Branco), por sobre as grades que separam a comunidade da dita capela, há uma frase em latim: Vita vestra abscondita est cum Christo in Deo (Cl 3,3). Sempre me impressionou aquele rigor, aquela severidade. Mulheres frágeis, atrás das grades, que tinham sua vida escondida em Cristo. Sem vê-las sentia que elas eram importantes para a humanidade e para a Igreja. Depois compreendi que assim é que deve ser a vida de todo cristão: uma vida escondida com Cristo em Deus.
3. Em nossos dias, por vezes, em certos ambientes, pode-se ter a impressão que é meio fora de moda falar dos conselhos evangélicos. Os religiosos fazem a profissão, vivem os conselhos, mas preferem não falar muito a respeito de cada um deles. Parecem meio perplexos com tantas interpretações. Há muitas pessoas que desconfiam da eficiência de vidas que seguem os conselhos. Muitos religiosos mergulham em suas tarefas e isso parece bastar. Os que se debruçam sobre o tema da vida consagrada são unânimes em afirmar que ela é fundamental para a vida da Igreja. Ela torna viável e visível a radicalidade do Evangelho. As exigências mais radicais do Evangelho estão estampadas na vida dos religiosos. A Igreja necessita desses homens e dessas mulheres. Uma Igreja local sem vigorosas expressões de vida consagrada é uma Igreja empobrecida. Necessita desses homens e dessas mulheres que, vivendo reclusos em mosteiros ou em fraternidades atuando no meio do mundo, se tornam, no dizer de Congar, “parábolas do Reino”. Atestam que a radicalidade do evangelho está encarnada em suas vidas.
4. Miguel de Unamuno escreveu: “O ofício dos religiosos não é vender pão, mas ser fermento”. Gianluigi Pasquale, OFMCap, fala da vida consagrada como sintoma da verdadeira Igreja. Não há possibilidade na Igreja de visualizar a radicalidade evangélica sem a referência essencial à vida consagrada. Os fiéis cristãos, olhando a vida dos religiosos, mormente daqueles que já foram declarados santos, constatam que é possível viver a boa nova do Evangelho de maneira radical. A vida consagrada nunca faltou na Igreja. Os religiosos vivem no agora do mundo o mundo que vem. Trata-se do famoso argumento escatológico da vida religiosa e que daria, segundo muitos, sentido aos votos (Remetemos para o estudo do frade capuchinho “I consigli evangelici, guardiani della totalità del Vangelo”, in Verdad y Vida 255 (2009) p. 477-490). Curioso o título que o frade dá ao seus estudo: os conselhos evangélicos como guardiães da totalidade do Evangelho. O Autor é de parecer que o aspecto escatológico da vida consagrada, assinalado em Vita Consecrata, não foi suficientemente valorizado. No seu texto transcreve palavras do documento: “Dado que hoje as preocupações apostólicas se fazem sentir com maior urgência e o empenhamento nas coisas deste mundo corre o risco de ser cada vez mais absorvente, torna-se particularmente oportuno chamar a atenção para a natureza escatológica da vida consagrada (…) É nesse horizonte que melhor se compreende a função de sinal escatológico. De fato, é constante a doutrina que a apresenta como antecipação do Reino futuro” (n.26).
5. Anna Bissi, psicoterapeuta, escreve sobre os conselhos evangélicos como terapia espiritual para a humanidade (in Consecrazione e Servizio, n.10/2010, p. 71-75). Servimo-nos aqui, em parte, de suas reflexões. A autora começa sua reflexão retomando um famoso dito de Santo Inácio de Antioquia. O bispo suplicava que seus leitores ou ouvintes não impedissem o seu martírio. Para o velho bispo o sacrifício da vida correspondia à plenitude de humanidade. Somente passando pela morte a pessoa revela sua verdadeira grandeza. Essas palavras podem parecer exageradas, mas não devem ser interpretadas como masoquistas. Olhando mais profundamente elas rescendem verdade. A pessoa humana é somente humana quando aberta ao amor, capaz de relação e portanto de dom e de acolhimento. Aos olhos da Igreja o martírio sempre apareceu como sinal de um grande amor, portanto um lugar onde a dignidade do homem se manifesta em toda a sua plenitude.
6. Quando na Igreja cessa o martírio, seu lugar é assumido pela vida religiosa, chamada a viver a mesma tensão escatólogica, quer dizer o homem em sua completude, e por conseguinte, em sua dimensão transcendente, ou seja, a capacidade de não dobrar-se sobre si mesmo, mas dar-se ao outro no amor. Observados deste ponto de vista os conselhos evangélicos aparecem sob diferentes. Não são meios repressivos, e não constituem um obstáculo para a liberdade humana. Aparecem como remédio para o homem doente de egoísmo, e, portanto, não plenamente homem. Assim, como diz Vita Consecrata, eles aparecem como forma de terapia da pessoa humana. O coração de cada pessoa é um campo de batalha entre as forças egoísticas e aquelas que apontam para o amor. Somente quando vive no amor e para o amor, aceitando entrar na dinâmica de crescimento feita de morte e ressurreição, que vai tocar cada nível de sua existência, corpo, psique, espírito, somente então o ser humano se torna ele mesmo. Não somente o crescimento espiritual, na verdade, é estruturado como passagem da morte – dada pelo batismo, renovada através dos sacramentos, a oração, a ascese – à vida, mas também o desenvolvimento psíquico se inscreve no mistério da Páscoa. Ora, os conselhos evangélicos estão prenhes da força do mistério pascal. Os que perdem, ganham. O grão morre para dar fruto.
7. A evolução da pessoa é um caminho em que se alternam frustrações e gratificações, satisfações e privações. A única lei do aceitar, permitir, consentir ao que é solicitado mantém a pessoa num dobrar-se narcisista inicial e bloqueia sua humanidade, enquanto que o equilíbrio entre o receber e o dar, entre a plenitude e a falta abre o indivíduo ao desejo, o estimula ao dom, dilata seu universo. Pobres esses seres que vivem girando em torno de suas necessidades verdadeiras e falsas de coisas, do ter. Pobres e tacanhos seres que nunca conseguiram viver um relacionamento conjugal e familiar de dom límpido. Pobres os que ao longo da existência sempre se preocuparam em fazer valer sua vontade, seus desejos e que nunca, em todas as situações descritas foram capazes de morrer. Quem perde a vida, a encontra. Se o grão de trigo não morre não pode dar fruto.
8. Os conselhos evangélicos são terapêuticos porque se manifestam como um modo – não o único, mas sem dúvida muito importante – de entrar nesse dinamismo de plenitude e de falta, de morte e de vida, que permite que o ser humano cresça e o torna verdadeiramente humano, eliminando as falsas certezas, os ídolos através dos quais as pessoas pensam serem imortais, as máscaras que vamos usando para não enfrentar a verdade de nós mesmos. Os cristãos se convertem… Se não se convertem, perecem. Ora, a vivência dos conselhos evangélicos nos torna pessoas que apreciam o amargo e rejeitam o doce.
9. Por que os votos “entraram” em crise? Não é aqui o espaço para abordar em profundidade a questão. Fato que eles continuam válidos e são capazes de levar os que os professam a uma profundidade humana e cristã. Talvez se deva dizer que por vezes os que fazem os votos tenham perdido o fogo do começo. Num texto bastante instigante, Frei José Rodriguez Carballo, faz uma distinção entre uma formação para a observância e uma formação para a fidelidade. O texto não se refere em primeiro lugar aos conselhos, mas visa à formação do frade em geral. Os votos precisam ser vividos a partir de uma paixão por Cristo. Do contrário tudo é relativo, tudo é jurídico, tudo é seco. Há uma observância (quando há) fria. Assim o Ministro Geral se exprime no seu texto Com lucidez e audácia: “Mesmo sendo óbvio que seria errado contrapor a observância à fidelidade, seria também errado não distingui-las. A fidelidade inclui a observância, mas não se identifica com ela, supera-a. Em outras palavras, a observância é somente uma parte da fidelidade. Pode-se ser observante e não ser fiel, pois a fidelidade, como a fé, refere-se a uma pessoa: enquanto a observância faz referência a uma lei e consiste em seu cumprimento. Nossa vida tem como fim seguir “mais de perto a Cristo”. Uma primeira exigência de formação é, pois, formar na e para a fidelidade a uma pessoa: a pessoa de Jesus. Não queremos seguir uma ideologia, mas uma pessoa: Jesus Cristo”. O formador deverá levar o frade a descobri-lo como pessoa, para depois amá-lo como amigo. “Esse encontro pessoal com Jesus Cristo não deve ser dado como garantido na vida dos frades. Alguém pode fazer a profissão solene sem ter-se encontrado com pessoa de Jesus. Nesse caso a ideologia ocupará o lugar de Jesus. Mas uma ideologia pode trazer consigo: fundamentalismo, divórcio entre vida e doutrina e frustração (…) Só quem descobre Jesus como uma pessoa e como amigo poderá entregar-se totalmente a ele. Só assim as exigências mais radicais do seguimento de Jesus poderão ser fonte de alegria. Jesus não pode aparecer aos olhos dos frades como o rival de sua realização, mas como amigo que tudo pede porque antes tudo deu (…) Só uma pessoa que realmente se encontrou com Cristo, que se deixou seduzir pela beleza do Senhor e tenha provado sua amizade, estará disposta a vender tudo para seguir o Senhor com a radicalidade que tal seguimento exige: até a morte”. Votos sem paixão por Cristo é uma contradição. Emitir votos sem convivência com Cristo é mero legalismo e as interpretações passam a ser as mais díspares e controversas.
10. Xavier Pikaza Ibarrondo, professor em Salamanca, falando sobre a vida religiosa: “O Deus do evangelho não impõe obrigações legais, mas apresenta uma palavra simples de fidelidade diária. Damos demasiada importância a cerimônias externas dos votos religiosos, como ato social e oblação vitimista. Deus não exige vítimas, quer amigos. Não busca seres submissos mas fiéis que cresçam na liberdade. Os votos serão vividos como gestos de plena liberdade…”
11. Pobreza ontem, pobreza hoje. Quantos de nós, em nossa infância vivemos o duro da pobreza quase miséria que nos fortaleceu por dentro e nos fez menos moles. Aí está esse mundo do dinheiro, do lucro, das bolsas, das “bolhas”, do capital que foge, dos lucros astronômicos, mundo das roupas bonitas, dos carros suntuosos, da aquisição de tudo o que é produzido, sociedade do consumismo, da corrupção, da quebra de bancos… mundo em que as pessoas acreditam que são na medida de suas posses. A segurança do ser humano não está no dinheiro, nas aparências do ter. A pobreza faz com que o homem tenha consciência de não encontrar nem felicidade nem segurança no possuir. As pessoas, diante da precariedade da vida confiam nos bens. Exageram tal confiança. De repente o religioso sem dinheiro, sem posses, sem aparência, vivendo de seu trabalho é antídoto desse mundo de novos aparelhos, de carros novos, de casa sofisticada, de passeios em torno do mundo, seres vazios. O religioso se encanta com a singeleza do Filho do Homem que nasceu na singeleza de uma gruta e morreu na nudez da cruz. Os que fazem o voto de pobreza são uma terapia para a ímpia sociedade de consumo. Não vive de verdade quem não morre.
12. A posse não é o único ídolo que construímos na tentativa de encontrar a felicidade evitando a frustração. Outra grande tentação que cada ser humano experimenta é a sede do poder, da ilusão que, afirmando a própria vontade, seremos vitoriosos e fortes. A sedução da onipotência acompanha o homem desde as suas origens, levando-o a um jogo perverso do qual nunca sairá vitorioso. Tal tentação torna a pessoa cega e incapaz de ver a própria mesquinhez de sua sede de poder: ambição por cargos, afirmar sempre seu ponto de vista, marcar os relacionamentos fazendo que os outros se subordinem, praticamente querer ter preeminência em tudo. O conselho da obediência aparece como uma terapia que tenta não morrer sempre impondo sua vontade. Enquanto a pobreza lembra ao homem que não vale a pena preocupar-se com a própria vida, pois temos um Pai que sabe do que precisamos, a obediência chama atenção para uma Vontade capaz de realizar nossos anseios mais profundos para além de nossas pequenas e grandes expectativas. Terapia da vontade de poder, do individualismo, da imposição de nossos caprichos. Não ter medo de deixar uma posição e viver a singeleza do lava-pés. Os religiosos, ao longo de sua vida, estão preocupados em fazer em suas vidas a vontade de Deus. Felizes aqueles que, em suas casas, na Leitura orante da Bíblia e no cultivo da delicadeza de consciência, dizem sempre que vieram para fazer a vontade do Pai. Há religiosos que são exemplo de fidelidade a Deus. Todas essas palavras, no entanto, sem paixão por Cristo são flatus vocis…
13. Finalmente o mundo dos relacionamentos, da valorização ou da coisificação do outro, mundo dos relacionamentos sexuais de qualquer jeito e de qualquer modo, aberrações e dramas, infidelidades e duplicidade de vida… e os religiosos emitem um voto de castidade consagrada. A castidade é a terapia dos relacionamentos. Todo amor seja ele religioso ou conjugal deve crescer na transcendência, na capacidade de esquecer-se para fazer-se dom para o outro. Como são miseráveis essas relações sexuais de qualquer jeito. O mistério pascal está inscrito em toda forma de vida, na do casado como na do celibatário. O celibato é terapêutico porque tende a transformar o amor egocêntrico num amor dom. “Através da renúncia à vida conjugal e à paternidade-maternidade opera-se na vida do religioso aquela transformação que se opera no interior do matrimônio através da acolhida da diferença do cônjuge, realidade pela qual o eu narcisista é crucificado e faz prevalecer o dom de si.
14. Os conselhos evangélicos, que se destinam a todos os cristãos, mas que de modo particular informam a vida dos religiosos, são uma terapia capaz de salvar o homem das tentações mais profundas e perigosas, que o levam à verdadeira morte, para restituir-lhe a dignidade de filho de Deus. Por ter a convicção de ser um filho amado que o cristão pode não se deixar levar pela tentação da posse, do poder e do amor captativo e egoísta para empreender a aventura do amor verdadeiro. Precisamente porque filho o ser humano pode descobrir que a passagem através da ausência, da falta, do vazio, das coisas pequenas são experiências apenas aparentemente limitadoras, quando na verdade se revelam como meios através dos quais a capacidade de desejar se dilata, e a de amar se regenera. Para tanto, os que querem seguir os conselhos precisam ter experimentado a paixão pela pessoa de Jesus, o pobre feliz, o obediente delicado e o amoroso para com o Pai, seu único amor… Quem puder compreender, que compreenda…
15. Os conselhos evangélicos não podem, pois, ser interpretados e compreendidos fora da dinâmica das relações. Não são apenas meios de cultivo de espiritualidade. Constituem uma modalidade através da qual é possível viver como batizados, como seres ressuscitados, para sermos assim introduzidos naquela “vida escondida com Cristo em Deus” (Cl 3,3) de que fala São Paulo. Somos convidados a viver em fraternidade, a usar dos bens na singeleza, a não sermos superiores a ninguém e a viver um amor especialíssimo com o Esposo.
16. Espero que a irmã que estava preparando o doce de abóbora com coco tenha sido bem sucedida em seu labor. Pode ser que ele tenha ajudado a fazer com que a reunião das irmãs à noite tenha tido um ar de maior cordialidade. Talvez alguns possam olhar para aquela fraternidade e simplesmente dizer: “Como as irmãs se estimam!” Espero que o religioso que chegou a casa depois do curso de espiritualidade torne Deus mais visível para nós. Espero que a vida as irmãs carmelitas de Petrópolis, vida escondida com Cristo em Deus, seja também nossa vida de franciscanos da Imaculada. Os que seguem de verdade os conselhos evangélicos não são funcionários de uma organização mas seres felizes e leves que enfeitam a vida da Igreja.
Questões que ficam… e que podem ser debatidas
1. Será que realmente os conselhos evangélicos são uma terapia para o mundo de hoje? Há pessoas interessadas em tal tratamento? Quais as doenças dos nossos tempos que são curadas com os conselhos? Quais são as doenças e como podem ser curadas?
2. O que significa, de fato, viver pobremente numa fraternidade?
3. Podemos dizer que andamos perscrutando a vontade de Deus em nossas vidas? Como ela anda se manifestando? Francisco dizia que não queria viver fora da obediência. O que isso quer dizer?
4. No mundo há aberrações no campo da sexualidade, seduções estranhas e assédios a crianças. O que colocamos, de verdade, atrás do voto de castidade consagrada? Como uma fraternidade é enriquecida com a vivência do conselho de castidade perfeita?