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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Clarissas no Brasil



As Clarissas encontram em Santa Clara de Assis (1194-1253) a sua mãe, mestra e fundadora. Seus escritos e suas palavras são uma herança riquíssima, um tesouro vivido e transmitido através dos séculos, em inúmeras fundações, e que possuem uma indiscutível atualidade. A marcante espiritualidade clariana exerce uma força de atração significativa em todos os continentes. Através da mística clariana e de seu caminho de espiritualidade compreendemos nossa missão como um serviço à Igreja. Somos “colaboradoras do próprio Deus e sustentáculo dos membros vacilantes de seu inefável Corpo”. Nossa vida claustral clariana continua o empenho de irradiar o testemunho da Pobreza, da vida orante e contemplativa, da sororidade e da clausura. Foi o que Clara, em seu tempo, irradiou com uma claridade nítida e visível. Nestes quatro elementos fundantes se articula toda a experiência humana e espiritual da Clarissa, hoje e sempre. A caminhada profético-mística de Clara lança luz e matizes sobre o caminho de espiritualidade da Clarissa, para o nosso hoje histórico, pleno de desafios rumo ao futuro. Temos consciência de que a vida contemplativa é vital para a Igreja e para a humanidade. A vocação contemplativa clariana se move dentro desta perspectiva de certeza e de fé. Uma fé que se sente responsável por fazer contínuas retomadas de seu vigor fontal, de sua raiz batismal e de sua caminhada no decorrer da história. Há momentos propícios para essa revisão enriquecedora, esse olhar retrospectivo, que pode ajudar a iluminar o que vem adiante. Quando comemoramos os 500 anos da presença franciscana no Brasil, as Clarissas, que são chamadas de II Ordem Franciscana, encontram seu espaço para dizer algo de seu fecundo avanço histórico e presença no Brasil. Além disso, para expressar a essência de sua caminhada e espiritualidade hoje. Tentaremos fazer a exposição, embora brevíssima, desses temas em duas partes. Primeiro, uma visão geral da presença e da história das Clarissas no Brasil. Em seguida, a espiritualidade clariana como fator de renovação, empenho e essencialidade na vida claustral da Clarissa hoje.

1. Uma visão histórica da presença clariana no Brasil
As Clarissas, desde a fundação da Ordem em 1211, possuem uma interessante característica missionária de estabelecer-se em lugares de fronteira e de vanguarda. Assim ocorreu já nos inícios, com fundações em territórios próximos dos muçulmanos, no Oriente Médio, onde muitas morreram martirizadas. No século XVI, com a descoberta das Américas, houve um intenso desejo de estabelecerem fundações neste “Novo Mundo” recém encontrado pelos europeus. A primeira fundação de Clarissas ocorreu nas Antilhas, em 1552, na Ilha de Santo Domingo. Em seguida nasceram outros mosteiros de fundação espanhola no Peru, México e Colômbia. Mais fundações acompanharam o processo de colonização nos séculos seguintes. Algumas, com fatos muito originais, como uma na cidade do México em 1724, que foi realizada por iniciativa de um Cacique indígena, somente para acolher nativas indígenas e negras, em contraposição aos demais mosteiros que não as aceitavam. Isto representa um belíssimo momento de dignificação da psicologia indígena e negra, que eram vítimas de preconceito na época da colonização.Dentre as várias fundações clarianas na América Latina nestes séculos, o Brasil acolhe a sua primeira fundação em 1677.
1.1. A primeira fundação brasileira
Ocorreu na Bahia, na cidade de Salvador e recebeu o nome de Mosteiro do Desterro. Existe por detrás desta fundação um contexto social, político e econômico. As jovens nascidas na Colônia, ao serem destinadas à vida religiosa por sua opção ou por decisão familiar, eram obrigadas a ingressar em mosteiros portugueses. Numa época de crise para os senhores de engenho, com a concorrência do açúcar do Caribe, era difícil assumir as despesas necessárias para enviá-las a Portugal. Isso significava empobrecer a Colônia e, além disso, a viagem era perigosa, levando-se em consideração o assalto de piratas e os perigos de naufrágio. A Câmara de Salvador e os nobres empenharam então esforços para obter a fundação de um mosteiro feminino. O pedido foi feito à Coroa portuguesa em 1664. Depois de inúmeras vicissitudes históricas, somente em 1677, no dia 9 de maio, chegaram a Salvador quatro Clarissas Urbanistas do Mosteiro de Évora, Portugal. Por mais de setenta anos, este foi o único mosteiro reconhecido na Colônia. O objetivo das fundadoras era implantar a vida clariana no Mosteiro do Desterro, segundo a Regra de Urbano IV (1263), dar formação às noviças brasileiras e dirigir a comunidade nos primeiros anos; depois retornariam ao seu local de origem. Foi o que realmente aconteceu em 1687, dez anos depois de sua chegada. Consta que as clarissas fundadoras foram de um idealismo, santidade e vida bastante exemplares. Foi louvável seu espírito de abnegação e seu zelo. No início não puderam receber noviças, enfrentaram sérias dificuldades com a construção do mosteiro e necessidades materiais. Porém, nos anos seguintes, ingressaram muitas noviças e a fundação foi se consolidando. À partida das fundadoras, assumiu o serviço de abadessa a primeira brasileira, Irmã Marta de Cristo. Neste período, o número de irmãs chegou a cinquenta, além das vinte e cinco noviças e outras irmãs “conversas”. Segundo a mentalidade da época, o mosteiro manteve um regime de classes: coristas, conversas, recolhidas e escravas (ou servas pessoais das irmãs). Em 1764, por exemplo, havia noventa e quatro coristas, uma noviça, vinte e três recolhidas; em 1779: setenta e cinco irmãs, quatrocentas escravas e criadas. Isso fez decair enormemente a vida religiosa no mosteiro. O Bispo, nesta época, chegou a proibir o uso de ouro e prata para o adorno das escravas ou servas das irmãs. Isto tudo, apesar das determinações inicias para a fundação dadas pelo Papa Clemente IX em 1669, que limitava o número de irmãs para cinquenta e o número de criadas para quinze, ficando proibida a entrada de escravas para o serviço particular de cada irmã. Entretanto, apesar desta decadência do verdadeiro espírito cristão e clariano, do contratestemunho de pobreza evangélica, nos dois séculos de existência desta fundação destacaram-se algumas irmãs por seu exemplo de santidade. Entre elas, a Venerável Vitória da Encarnação, baiana, cujo processo de canonização está em andamento. Ela dispensou o serviço da escrava, viveu em grande despojamento e espírito de serviço, elevando a vivência espiritual do mosteiro, especialmente no período em que foi abadessa. Nos últimos dois séculos, um fenômeno social de tendências anti-religiosas, que tentava suprimir aos poucos a vida claustral, proibindo o ingresso de novos membros, veio agravar a situação da primeira fundação brasileira. Após a proibição de novos ingressos na vida religiosa, decretada para Portugal e a Colônia pelo Marquês de Pombal, o número de irmãs no Mosteiro do Desterro foi decrescendo. No início do século XX foram feitos esforços para a comunidade não se extinguir. Na época só restavam três irmãs bastante idosas, a madre era inválida e doente. Elas pediam que viessem Clarissas de outro país ou que alguma Congregação religiosa assumisse o mosteiro. Foi assim que as Irmãs da Pequena Família do Sagrado Coração consolidaram no local sua obra de assistência e educação cristã. Parte do prédio é patrimônio histórico, onde se conservam as relíquias da Venerável Madre Vitória da Encarnação, os documentos históricos e crônicas da fundação e um museu com riquíssimos objetos religiosos da época colonial, que pertenceram ao mosteiro.
1.2. No século XX, um fecundo reflorescer
Após a extinção do Mosteiro do Desterro, as Clarissas iriam consolidar novamente a sua presença em terras brasileiras, somente em 1928, através da fundação do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, no Rio de Janeiro. As irmãs fundadoras, em número de oito, provinham do Mosteiro de Düsseldorf, Alemanha. Em sua história, tem marcado uma presença fecunda em novas fundações. Somente mais de vinte anos depois desta nova implantação clariana, é que iria surgir, em 1950, o Mosteiro de Santa Clara de Campina Grande, Paraíba, com irmãs de Cleveland - EUA. No mesmo ano, o Mosteiro do Rio de Janeiro realizava a sua primeira fundação em Belo Horizonte. Poucos anos depois, Clarissas de Gand, Bélgica, realizam uma nova fundação em Porto Alegre (1953). Dez anos se passaram, até o surgimento da quinta fundação deste século. As Clarissas fundadoras provinham da Federação Santíssimo Nome, dos Estados Unidos, e ocorreu em Anápolis, Goiás. Está fundação foi assumida e continuada a partir de 1987 pelas irmãs do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos e é, atualmente, um dos mosteiros do Brasil onde há maior ingresso de vocacionadas, vindas sobretudo de Brasília. Em 1964, é a vez da segunda fundação filial do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos, que implanta o primeiro mosteiro contemplativo em Santa Catarina, na diocese de Tubarão, em Forquilhinha. Em 1977 esta fundação seria transferida, por diversos fatores, para a cidade de Lages, no planalto catarinense. O Mosteiro Santa Clara, de Belo Horizonte, em 1970, realizou sua primeira fundação em Araruama, no Rio de Janeiro, que foi posteriormente assumida pelas Clarissas de Campina Grande (1984). Em 1977, chegaram ao Brasil as primeiras Clarissas Capuchinhas, provenientes de alguns mosteiros da Itália, sobretudo de Veneza-Mestre. A fundação tornou-se realidade na região serrana do Rio Grande do sul, em Flores da Cunha. A terceira fundação do Mosteiro Nossa Senhora dos Anjos ocorreu em 1984, no interior do sertão nordestino, em Caicó, Rio Grande do Norte. Ali já ingressaram muitas jovens irmãs no decorrer desses anos. Em 1985, foi fundado o Mosteiro Monte Alverne, em Uberlândia, Minas Gerais, pela comunidade de Clarissas de Belo Horizonte. E no ano seguinte (1986) as Clarissas portuguesas da Ilha da Madeira realizam a fundação do Mosteiro Santa Clara de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. As duas mais recentes fundações ocorreram nesta década de 90. Trata-se do Mosteiro Santíssima Trindade, fundado em Colatina, Espírito Santo, pelas Clarissas de Belo Horizonte, em sua terceira experiência de fundação. E a última, realizada na cidade de Canindé, Ceará, durante o ano comemorativo do 8º centenário de nascimento de Santa Clara (1994), com Clarissas de Campina Grande, que já inauguraram o seu mosteiro definitivo. Destaca-se especialmente que todas as fundações clarianas implantadas neste século no Brasil, têm a Regra própria de Santa Clara como base de sua vivência e possuem as mesmas Constituições Gerais aprovadas por João Paulo II em 1988, com exceção das Clarissas Capuchinhas, que observam Constituições próprias. Todos os mosteiros, exceto o de Capuchinhas (que pertence a uma federação italiana) são federados desde 1989. As federações de mosteiros tem por objetivo a ajuda recíproca, material e espiritual, especialmente na formação, o intercâmbio de experiências e de vida. A Federação Sagrada Família de Clarissas no Brasil é representada atualmente por Madre Maria Coleta, Abadessa Federal, residente no Mosteiro São Damião de Porto Alegre, já em seu segundo sexênio de serviço às Clarissas. O número de vocações tem aumentado consideravelmente nos últimos vinte anos, de modo particular em algumas regiões, como o nordeste, centro e sudeste. O sul tem tido menos número de ingressos. Entretanto, as fundações manifestam um reflorescer fecundo da vida clariana, com sinais evidentes e irradiantes de experiências vitais, que desejam ao máximo aproximar-se da vivência fontal de Clara e das primeiras Clarissas do Mosteiro de São Damião, de Assis.
2. Espiritualidade e vida das clarissas hoje
Atualmente, as Clarissas brasileiras empenham-se no sentido de aprofundar a sua vivência e espiritualidade clariana. É um esforço conjunto de mais de uma centena de irmãs, cada mosteiro ao seu modo, para avançar num caminho de renovação, de retorno às fontes, de aprofundamento da originalidade da contemplação e da mística clariana. Os mosteiros apresentam-se como “sinal forte” que atrai, que questiona, que fascina. As pessoas das cidades e mesmo das regiões onde se encontram os mosteiros, comumente os frequentam como um oásis de paz e de oração. Costumam interessar-se pela vida das irmãs, vir rezar com elas, divulgar seu estilo de vida. A Clarissa busca, através de sua formação e de sua vivência, aprender a ser verdadeiramente humana e cristã. O ponto de partida de nossa espiritualidade é o encontro pessoal com a humanidade de Jesus Cristo “Pobre e Crucificado”. Fazendo do Jesus histórico e do Evangelho o “espelho” do seguimento, colocamo-nos na estrada dura e concreta de um cristianismo encarnado, na dimensão do discipulado e do seguimento. Tentaremos expor, embora de forma breve, os aspectos essenciais da espiritualidade clariana, que fundamentam e caracterizam toda a vida das Clarissas em seu caminho de renovação e de resposta evangélica ao chamado de Deus.
2.1. Vida orante e contemplativa
As Clarissas, no seio da Igreja, têm a missão de ser a pulsação orante da vida eclesial e, em vista disso, se empenham para dar solidez ao caminho de oração e contemplação, através do contínuo confronto com a pessoa de Jesus Cristo. Um mosteiro clariano irradia sempre um forte clima de espiritualidade e oração. Hoje, sobretudo, os jovens têm sede de boa espiritualidade e precisam ser acolhidos e instruídos. As vocacionadas recebem um acompanhamento especial. As Clarissas fazem a experiência de deixar-se amar por Deus no cotidiano de sua vida simples e despojada. A meditação, o deixar-se iluminar pelo Evangelho, pela Igreja, por Clara e Francisco, vão firmando a linha de espiritualidade que dá às irmãs a prontidão para responder à graça. É através do “olha, considera e contempla, deseja seguir e imitar” que a Clarissa se volta inteiramente ao Cristo Pobre e Crucificado, penetrando no mistério da contemplação e da mística. Há elementos fundamentais de renovação nas comunidades, entre eles, a sincera e autêntica busca da dimensão contemplativa numa fundamentada preparação teológica, bíblica e mística. A liturgia, como lugar e modo de celebração, onde as pessoas possam ter a condição de acompanhar e participar; a espiritualidade e a experiência contemplativa como uma força e uma maneira de irradiar o nosso carisma e a experiência da contemplação de Cristo no monte.
2.2. A sororidade
Outro elemento fundamental de renovação atualmente é o próprio estilo de vida sororal (= de irmãs) nos mosteiros. Há tentativa de aproximar-se sempre mais de Clara e de Francisco, que se caracterizam por um modo cortês típico de relacionar-se com as irmãs e os irmãos. Cortês no relacionamento, na pedagogia, no educar e corrigir, no serviço, na solicitude, no respeito. Uma sororidade clariana realmente autêntica procura ser reflexo da comunhão que é a Igreja, por sua vez reflexo da própria comunhão trinitária. A sororidade é graça e bênção, onde se expandem os dons da simplicidade, alegria, amor e doação, humildade e solidariedade.
2.3. Pobreza e liberdade
A Pobreza, no caminho espiritual de Clara, é um elemento essencial e significa seguir o Filho de Deus que se fez pobre. É uma pobreza que liberta, despoja do supérfluo e do não essencial, abre para Deus. É uma pobreza fecunda, porque lança na fé e na confiança. A pobreza de clara conduz a um esvaziamento que é plenitude , pois abre espaço para acolher e gerar Cristo para o mundo.É também uma característica original e profética, na dimensão do nada possuir materialmente, que questiona continuamente e coloca as Clarissas no caminho de uma mística de “peregrinas e estrangeiras”, em ardente busca do Deus vivo.
2.4. Clausura, lugar da revelação de deus
A clausura é para as Clarissas o lugar da revelação de Deus, a terra prometida onde entram na posse da herança: viver com o Senhor, ser dele, relacionar-se face a face com Ele. O chamado a entrar num claustro clariano é um convite a penetrar no terreno da revelação de Deus, no “Jardim fechado” (Ct 4,12) onde Ele se manifesta na experiência místico-contemplativa. As relações normais que as Clarissas mantêm com o exterior do mosteiro, através da correspondência, do telefone e locutório, o contato com padres e religiosos, com grupos da paróquia e com pessoas diversas alarga a irradiação silenciosa da vida contemplativa e atrai outros ao seguimento de Jesus Cristo. O serviço do locutório é um serviço de escuta e misericórdia, acolhimento solícito, acompanhamento e orientação. A experiência da revelação de Deus se expande na solicitude de uma abertura ampla, eclesial. A Clarissa, em sua clausura, abraça o mundo. “O nosso claustro é o mundo”, dizia São Francisco.
Conclusão
Para estas colocações seria necessário alongar-se ainda muito. O objetivo não permite realmente ir adiante. São estas , portanto, como que linhas gerais, apenas pinceladas sobre a história das Clarissas no Brasil e seu empenho de vida hoje. O importante mesmo é perceber a dinâmica ação do Espírito Santo na vida das Clarissas, característica de toda a sua história, nestes quase oito séculos de fundação. Atuação que nos faz assumir sempre mais conscientes a nossa missão específica no seio da Igreja, na história deste continente latino-americano e neste país. A Clarissa é chamada, acima de tudo, a viver o amor de unidade e a prestar o serviço da oração e da intercessão, como uma irradiação que salva e recria, a partir de seu ser em Deus. Os mosteiros são sementeiras de vida espiritual, que oferecem o vigor de rebentos novos e renovados de vivência no Espírito. As Clarissas desejam permanecer abertas ao diálogo, à renovação, à reconstrução da dimensão contemplativa. Desejam viver o seu primeiro e fundamental apostolado, o de ser Igreja, de viver e ser comunhão na Igreja, de realizar sua missão na Igreja.
fonte: http://clarissasclarissas.blogspot.com.br/2010/10/clarissas-no-brasil.html

sábado, 19 de janeiro de 2013

Silêncio e contemplação em Clara de Assis

Na esteira da comemoração dos oitocentos anos do carisma clariano, continuamos a refletir sobre a figura ímpar desta notável fundadora de um estilo original de vida evangélica e contemplativa na Igreja.  Apoiados no texto da Irmã Angela Emmanuela  Scandella, OSC,  Chiara ‘Alta donna di contemplazione’, Sette parole per il nostro ‘oggi’, in  Italia Francescana 2012/1, p. 17ss,  vamos refletir sobre o silêncio e a contemplação. Limitar-nos-emos a citar os elementos evidenciados pela autora.

Silêncio

Pensar em Clara é pensar numa  mulher envolvida pelo silêncio, não um silêncio ritual e forçado, mas buscado, cultivado, alimentado. Pode-se dizer que ela foi “habitada pelo silêncio”. Não podemos deixar de pensar, é claro, no silêncio exterior amplamente documentado pelas Fontes, mas, sobretudo, pensamos naquele silêncio interior, feito de solidão e de escuta, tecido do harmonioso equilíbrio entre o silêncio e a palavra. Bento XVI em sua Mensagem para a Jornada  Mundial da Comunicação  Social  (2012), recordando uma homilia sua de 2006, dizia: “Na loquacidade de nosso tempo, na inflação das palavras, urge tornar presente a Palavra, a Palavra que vem de Deus, a Palavra que é Deus”.  Isto só é possível com uma purificação de nosso pensar. Será urgente um trabalho de burilar  nossas palavras.  Necessitamos de um silêncio que se torne contemplação. Ora, a vida de silêncio das Irmãs Pobres de São Damião tinha, e tem, essa finalidade: permitir que o Deus-Palavra possa dirigir-se  ao fundo do coração dos que o ouvem. Não se trata, como foi dito, de um mero silêncio exterior, mas desta organização existencial de tal sorte que as antenas mais profundas da pessoa não estejam ligadas  a coisas, por vezes, tão desnecessárias, tão “desarrumadoras” da paz interior.  O silêncio exterior ajuda à amada do Amado a não se “distrair”. Respirando em casa um clima de recolhimento exterior, o coração começa a viver harmonia que é terra mais propícia para a contemplação.
Michel  Hubaut, refletindo sobre o tema do silêncio interior, lembra que quem quer fazer silêncio para ouvir a Deus  e unificar sua existência, aprende a descer até o  deserto interior de seu coração, onde o Espírito marca encontro. Aos poucos, o ouvinte do silêncio vai se dessolidarizando do que é fugaz e sem valor verdadeiro. Não despreza nada, mas tudo relativiza. Os santos  “profundamente presentes  à vida de seus contemporâneos são cidadãos de uma pátria invisível, mais real, no entanto, que qualquer realidade  humana. A experiência nos leva a  dizer que somente a graça de Deus  pode fazer da solidão um espaço de silêncio interior que abre a fechadura  da vida íntima do homem onde o Espírito murmura e Deus fala”.

Contemplação

Mais uma palavra de Clara para os tempos de ontem e de hoje: vida contemplativa como vigília, uma longa vigília que dura a vida inteira, esperando aquele que está para vir, esse alguém que feito de desejo, deixando ressoar em nós o desejo por ele como eco de seu desejo por nós.
Entrelaçam-se aqui os temas da vigília, do desejo que desemboca num estado de vida contemplativo. As Fontes  fazem alusão às vigílias noturnas de Clara, longas vigílias, longas e solitárias “vigilante e incansável”  segundo a Legenda (n. 19), para recolher o veio do sussurro  furtivo (cf  Jó 4, 12) que  Gregório Magno interpreta como o falar do Espírito. “É a experiência da presença e da ação  do Espírito que, em nós, nada mais faz do que repetir, desde o dia de nosso Batismo, aquele Verbum absconditum, para mencionar ainda aquele versículo de Jó,  Verbum que é Jesus Cristo”. Silêncio, Verbum e contemplação.  A Legenda continua: Clara “parecia sempre ter o seu Jesus entre as mãos”, porque o  Senhor é Espírito, recorda São Paulo (2Cor 3,17).  Trata-se do tema dos esponsórios que Francisco aborda  na Carta aos Fieis (1, 5-8).  A experiência espiritual de Clara é uma viva exegese de Francisco. Deus em nós pela presença e ação do Espírito.  Não se trata de uma atualíssima palavra  para nós que vivemos derramados nas coisas  como que vivendo exilados de Deus? Irmã Angela escreve:  “Nossos mosteiros, com sua pobreza  e  fragilidade, continuam sendo aquelas casas  (domus), mesmo deterioradas, mas consagradas à interioridade. Lugares em que restaurando o coração se restaura, tenaz e  humildemente, a Igreja, a Domus Dei em ruína”. Bento XVI, em visita às clarissas  por ocasião de sua visita a Assis, em 17 de junho de 2007, dizia: “Vós nos precedeis no caminho da conversão”. Quando a conversão é verdadeira, não faz barulho. Muitas vezes faz sorrir que  certamente é mais proveitoso do que ficar choramingando pelas contrariedades de cada dia. A ação do Espírito do Senhor purifica, ilumina, transforma  e aponta os  passos a serem seguidos para que seja bem percorrido o caminho da conversão.  Aqui ainda uma palavra atual e para o hoje: uma vida que se enfrenta o risco de  expor-se a Deus numa cultura que não quer correr  risco.
fonte: http://www.franciscanos.org.br/?p=29213
Frei Almir Ribeiro Guimarães

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Seguimento de Cristo à maneira de Clara

Estamos sempre com os olhos voltados para as celebrações dos oitocentos anos do carisma clariano que se darão em muitos espaços  no mês de  agosto de 2012.  Temos em mente, de modo especial, o Congresso Clariano de Canindé  (CE) de 9 a 11 de agosto de 2012.
Debruçamo-nos agora sobre o tema do seguimento de Cristo, que outra não é senão a contemplação e imitação da altíssima pobreza do Filho de Deus. Francisco e Clara se comprazem em associar Maria, a Paupercula,  ao mistério da pobreza de Deus.
1. Falar em Francisco e Clara é pensar em pessoas profundamente tocadas pela figura de Cristo pobre, crucificado, encarnação da bondade extrema de Deus.  Falar em franciscanos e clarissas é referir-se a pessoas que foram se deixando formar, modelar e plasmar  pela pobreza do Cristo.  A melhor palavra não é formar, mas deixar-se seduzir por esta pobreza que tem um nome:  Jesus Cristo.  Estamos conscientes que a pobreza não significa apenas uma sobriedade nas vestes, na comida, no uso das coisas materiais. Tem ela a ver com desprendimento, despojamento,  não posse. Não somente de bens materiais mais do velho homem que tenta sobreviver em nós. Não se trata apenas de um seguimento externo, mas de uma  identificação de vida a vida entre o discípulo e o Cristo pobre.  Na verdade,  não podemos nos ater ao Cristo histórico, encerrado nas páginas dos evangelhos, mas a esse Ressuscitado  que nos convida a entrar em comunhão nupcial com ele. Seguir Cristo à maneira de Clara será efetivamente estabelecer liames vitais e “virginais”,  totais com esse Esposo que aparece no espelho. O incontido amor por Cristo faz com que Clara se torne sedenta de amor do Esposo feito pobreza.
2. Clara, como Francisco, começa e termina a Regra com uma declaração programática: “A forma e a vida  da Ordem das Irmãs pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta:  Observar o  santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”  (Regra I,1). “Observemos para sempre a santa pobreza e humildade de  Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe e o santo Evangelho que prometemos firmemente” ( Regra XII).  Estas palavras abrem e fecham o texto da Forma de Vida escrita por Clara. Não constituem elas uma simples moldura, mas o fundamento que a tudo dá sustento.
3. “Por isso, de joelhos dobrados e prostrada, recomendo a todas as minhas irmãs atuais e futuras à Santa  Igreja romana, ao Sumo Pontífice e principalmente ao  senhor cardeal que for encarregado da Ordem dos Frades Menores e de nós, para que, por amor daquele Deus que pobre foi posto no presépio, viveu pobre no mundo e ficou nu no patíbulo faça com que sempre seu pequeno rebanho  que o Senhor gerou em sua Igreja pela palavra e o exemplo de nosso bem-aventurado Pai São Francisco para seguir a pobreza e a humildade de seu Filho dileto e da Virgem, sua gloriosa Mãe, observe a santa pobreza que prometemos…”  (Testamento 44ss).  Clara quer levar suas irmãs ao essencial.  Se o Filho de Deus escolheu o caminho da pobreza e do despojamento, então este é o caminho real que nos leva à Terra da Promissão.
4. Misturam-se nos escritos de Clara a imagem do Cristo rei  (2CtIn) e a imagem do Cristo caminho.  Clara  emprega as duas imagens em suas cartas a  Inês de Praga. Ela distingue os aspectos  do mistério total de Cristo que habita na alma.  A imagem do Cristo rei, reinando agora gloriosamente no céu, é a imagem do Esposo e objeto primário de seu desejo. Porém, a imagem do Cristo visto no contexto do mistério da Encarnação, o Cristo na sua humanidade, pobre e humilde, é o  caminho  para a desejada união.  Os desponsórios místicos têm seu fundamento no aniquilamento amoroso do amado.
5. Com toda evidência, Clara exorta implicitamente a Inês a seguir aquilo que a literatura espiritual da Idade Média chama de  caminho real. Para São Bernardo, a “via real”  é aquela que se faz sem desvios,  sem delongas  desnecessárias. A pobreza é caminho real para a união esponsal porque elimina as causas de dissipação que nascem do apego aos bens terrenos. O caminho da pobreza, o caminho que o Senhor manifestou em sua  humanidade: o caminho da pobreza e da humildade que levam à posse do Reino dos céus: “Ó bem-aventurada pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas! Ó santa pobreza, aos que a tem e desejam, Deus prometeu o reino dos céus e são concedidas sem dúvida alguma a glória eterna e vida feliz.  Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo se dignou abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito  (1CtIn 15-17). “O reino de Deus só é prometido e dado pelo Senhor aos pobres”  (1CtIn 25). Este é o caminho duro e a porta estreita. Por meio de uma tal porta  realiza-se a união mística com Cristo, o início do reino celeste já nesta terra.  O caminho que Cristo nos mostra durante a sua vida terrena é o mesmo caminho que Francisco ensinou a Clara.  Com sua palavra e seu exemplo,  Clara orienta Inês e as Irmãs a percorrerem esta  via regia. Durante toda a sua vida, Clara lutou para que ninguém a retirasse de tal caminho. No Testamento, ela escreve: “O Filho de Deus se fez para nós o caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos  mostrou e ensinou  por palavra e pelo exemplo”  (Test, 5).
6. Podemos dizer que  Clara, na qualidade de guia espiritual, indicou e continua indicando para nós um só caminho que leva à união com Cristo, a via regia, o caminho percorrido primeiro  por Cristo e Maria e depois por Francisco, seguimento do Cristo esposo, pobre e humilde. Nas palavras que ela empresta da Regra Bulada de São Francisco, Clara  reforça  que este é o caminho real:  “Como peregrinas e forasteiras neste mundo… esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas caríssimas irmãs,   herdeiras e rainhas do reino dos céus… Esta seja a vossa porção que nos leva à terra dos vivos”  (RCl 8).
7. Clara interpreta  o seguimento essencialmente em termos de amor  sensível pela humanidade de Cristo -  humanidade esta que é o caminho que nos leva ao Pai -  e imitação das virtudes que o próprio Cristo viveu, principalmente a pobreza e a humildade. A prática destas virtudes místicas não se limita a uma imitação exterior de Cristo,  mas um modo concreto de  entregar-se  totalmente a Cristo e abraçar misticamente sua humanidade e desta forma aprofundar a união esponsal com ele.  Podemos avaliar a sensibilidade do amor de Clara para com Cristo no uso frequente de palavras que aludem ao seguimento em termos de abraço.  Trata-se do abraço místico ou da união mística com a humanidade de Cristo mediante   a prática das virtudes  por ele santificadas:
“Ó bem-aventurada  pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas!”(1CtIn 15). “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre. Veja como por você ele se fez desprezível e siga-o sendo desprezível por ele nesse mundo” (2CtIn 18-19). “Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza  que a levaram a abraçar o tesouro incomparável e escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual se compra aquele por quem tudo foi feito”(3CtIn 7).
8. O seguimento de Cristo para Clara  comporta o abraço místico da humanidade de Cristo; em outras palavras, o caminho da imitação exterior da humanidade de Cristo e a conformidade (o entregar-se) interior da vontade à vontade de Deus levam ao amor puro, ao coração dos esponsais místicos entre a alma humana e o Verbo.  “É essa a perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 5-7).
9. Maria Victoria Triviño,  clarissa espanhola, numa belíssima obra sobre os temas espirituais de Clara,  conclui assim o capítulo a respeito da espiritualidade nupcial de Santa Clara, que outra coisa não é senão esse enamoramento da alma virginal pelo Esposo.  Os temas do seguimento e da virgindade se entrelaçam: “Clara  sente-se fortemente atraída  – carisma de virgindade – e corre no encalço de  Jesus Cristo empenhando todo o seu afeto, todos os sentidos e faculdades.  Sua ascética consiste em “correr” impulsionada “pela violência do desejo”. Sua mística é o abraço esponsal. Sua bem-aventurança é a doçura escondida.
Não quer que seu pensamento se afaste da lembrança do Senhor, e o adivinha presente sob as mais diferentes aparências. Ama de todo o coração.  Comove-se e chora quando fala da paixão  (Proc XI,2), fica   fora de si quando o contempla sozinha (ProcIII,25), treme quando recebe o Corpo do Senhor… Exulta ao escutar o Vidi aquam… Uma tal  integração da afetividade  faz dela uma mulher ardorosa e apaixonada.
Pode-se dizer que Clara nada fez sem entusiasmo.  Basta recordar a fuga noturna, o desejo do martírio, o episódio dos sarracenos, o assédio de Vital de Anversa. No grande e no pequeno, no ordinário e no extraordinário sempre em tudo colocou um grande amor.
Mente, faculdades, coração, instinto… Tudo está polarizado num amor exclusivo. Assim  todos os níveis do ser unificam no amor a Jesus Cristo. A vivência da maternidade espiritual  faz com que ela se realize plenamente como mulher que se sente mãe, para Jesus Cristo e para com as irmãs.
Fruto desta unidade, em nível psicológico, é o equilíbrio, a harmonia. O que os autores modernos chamam de  psicologia dinâmica. O divino se enraíza no psicológico.  No plano espiritual, o fruto é um estado de bem-aventurança, a coroa da santidade: “.. estava sempre alegre no Senhor e jamais era vista perturbada, e sua vida era toda angélica” (Proc  III,6).
O tema nupcial, tão explícito na primeira carta, foi avançando com o clamor de Raquel (“Lembre-se da sua decisão como um segunda Raquel; não perca de vista seu ponto de partida…” (2CtIn 11) e com a adesão à Mãe dulcíssima que a ama, acompanha e cuida,  reaparece no começo do espelho.  Contemplando os mistérios no espelho  Clara se aprofunda no mistério do Amado. No final, a esposa repousa e descansa no beijo e no abraço da esposa do Cântico dos Cânticos (4CtIn 30-32).
Tudo o que disse Clara  foi revestido de delicadeza e de beleza. Para viver o que foi dito necessário foi muita fortaleza.  Estamos numa sociedade em que a virgindade é flor rara. Mal se fala dela.  Muitos são os que acreditam que ela não pode ser guardada. Sempre houve quedas e abandonos  que fizeram com que ela fosse menos digna de crédito. Quem não a acolheu não tem ouvidos para entendê-la, mesmo querendo discutir a seu respeito. A virgindade é um carisma que sempre ornou, orna e ornará a Igreja cristã.
É um carisma, um presente do Espírito  do qual se deve dar testemunho diante do mundo que não tem dele alta cotação.  A prudência humana não deve nos impedir de dar testemunho de sua beleza” (La vía de la beleza. Temas espirituales de Clara de Asís,  BAC  46,  Estudios y ensayos, p. 181-183).
10. Frei Herbert Schneider, OFM, refletindo sobre o tema Claire d’Assise, école de vie spirituelle,   in Quaderni dell’Ufficio pro monialibus, n. 46, dicembre  2010,  fala da espiritualidade como transformação: “Santa Clara exorta Santa Inês de Praga em sua segunda carta a realizar o tríplice passo da vida espiritual (2CtIn 20): olhar (intuere), considerar (considerare), contemplar (contemplare). É, por assim dizer, um tríplice passo do exterior para o interior para as profundezas lá onde ela se sente possuída pelo desejo amoroso (desiderare) de imitar (imitare). É o caminho da transformação em Cristo:  trata-se de, pelo olhar,  experimentar com ele o sofrimento, na  consideração de morrer com ele e a partir desse momento acontece a transformação numa vida nova  com Cristo. É a mudança em Cristo.  Na espiritualidade  da transformação/mudança, a forma de Cristo passa a manifestar-se no homem. O que é realidade no Cristo torna-se também pela transformação e a título de dom realidade no homem”.
11. Basta.  O seguimento de Cristo na vida contemplativa significa transformar-se me Cristo. O amado de tanto se espelhar no Amante ganha  seus traços e vive em comunhão com ele.
Autor: Frei Almir Ribeiro Guimarães
fonte:http://www.franciscanos.org.br/n/?p=19652

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O canto de uma vida

Os últimos momentos da vida de Clara de Assis

 Irmã Catherine Savey, clarissa, publicou  na revista Èvangile  Aujourd’hui  (n.194. 2002, p.6-11)  um texto  descrevendo os  últimos  momentos  de Clara e tecendo considerações a respeito da cultura da morte da Idade Média.  Querendo continuar nossa preparação para o oitavo centenário da forma de vida de Clara acreditamos ser proveitosa para todos  a leitura deste texto.  Substancialmente é o texto de  Irmã Catherine, com algumas modificações e adaptações.
 Para melhor captar o alcance  da frase de Clara:  “Obrigado, Senhor, por me teres criado”, necessário se faz colocá-la no seu contexto histórico.  Ela  é a conclusão  das palavras de encorajamento que Clara dirige a si mesma antes de morrer.  A morte na Idade Média tinha um alcance sociológico considerável, tanto por ser frequente, como também devido ao número de  pessoas que cercam  o  moribundo e todo o quadro ritual que acompanha o final da vida. Os últimos dias de Clara  e o relato que deles fazem as testemunhas estão impregnados desta cultura.  As últimas palavras de Clara constituem o fecho  desta liturgia num canto de louvor  que resume e dá sentido a toda sua vida.
“Obrigado, Senhor, por me teres criado”. Muitos citam esta frase de Clara e,  as mais das vezes, é a única palavra da Plantinha que conhecem. Um pouco como aquilo que acontece  com a imagem de Francisco com os passarinhos. De acordo que tudo isso  respire a alegria, o frescor, o louvor do Criador. Tudo pode ser correto, mas o contexto dá um peso diferente aos propósitos de Clara.  Estamos praticamente com suas últimas palavras.  Necessário situá-las em seu contexto.
Na verdade, a frase é conclusão  da oração pronunciada por Clara no fim de sua vida.  A passagem se situa em capítulos que relatam os últimos dias de Clara e comporta dez parágrafos do total dos vinte e nove de sua biografia, o que denota a importância desses  últimos instantes para seu biógrafo Tomás de Celano.  Uma tal constatação pode talvez nos causar surpresa.  Os hagiógrafos da Idade Média, no entanto,  tinham consciência de que a morte é mais do que o fim da vida. É, na verdade, sua conclusão, o instante que dá sentido a toda uma existência.
Para melhor compreender as páginas que cercam a frase “ Obrigado, Senhor, por me teres criado” e assim tentar compreender a plenitude de seu significado  parece oportuno  ver como se situava a morte na cultura da Idade Média.
A morte na Idade Média
Na Idade Média, a morte não causava surpresa.  Ele acontecia com  muita frequência ques que se tornava alguma coisa familiar.  Mesmo se o século XIII  tivesse sido uma época de prosperidade em que as epidemias perdiam  a amplitude que ganhariam no século seguinte,  podemos  dizer que Clara e Francisco viveram um tempo em que a realidade da morte estava sempre presente.  Muitas crianças morriam muito cedo, não poucas mulheres  morriam no parto. As doenças também ceifavam  adultos na plenitude de suas forças e homens sucumbiam em plena juventude nos campos das guerras.  Além disso, a morte  não era um acontecimento  pessoal e escondido como acontece em nossos dias. Tinha um cunho eminentemente social.  O moribundo era cercado de  orantes  (carpideiras), os funerais se revestiam de solenidade, o falecido era confiado à intercessão dos monges.
Nessa época em que a fé era inquestionável, o problema  não consistia em saber se existia vida após a morte, mas se a pessoa que morria estava em condições de  entrar no paraíso.  A representações do juízo que adornavam os portais das catedrais  construídas nesta época testemunham esta preocupação pela salvação eterna.  A angústia  que brota da morte corporal era potencializada com o medo do castigo eterno.
Tendo em mente o que dissemos,  compreende-se  a importância dos últimos instantes, ocasião em que o moribundo pode se reconciliar com a misericórdia divina.  Aconselhava-se que, então, ele  fizesse “donativos” para a celebração de missas e a recitação de orações pelos religiosos, que ele  fizesse  confissão geral de sua vida, recebesse o viático, “alimento para o caminho” até o paraíso e penhor de vida eterna, de ser acompanhado ao longo da agonia da oração ininterrupta da família e de pessoas que acorriam para  prestar assistência ao que morria.
Se todas as condições mencionadas fossem cumpridas, poder-se-ia mesmo esperar que uma legião de santos e anjos  viesse escoltar o defunto, ajudando-o em sua ascensão ao céu e assim atravessando ileso o ar enfestado de demônios.
Assim sendo feito, os funerais podiam se dar.  Mesmo  para   os pobres  os funerais eram solenes.  Havia festa para celebrar na alegria o começo de uma nova vida.
O que acabamos de dizer parece distante da ação de graças de Clara.  Em tal contexto, no entanto, é que devemos situar esse obrigado pela vida que sai dos lábios da santa.
Os últimos dias de Clara
A “Vita”  de Celano e os testemunhos do Processo de canonização de Clara estão, com efeito, impregnados desta cultura.
Certamente, a morte era familiar a Clara e seus contemporâneos:
• As taxas  de mortalidade não deveriam ser menores em São Damião  do que em outros lugares. Clara assistiu algumas irmãs  em seus últimos momentos. O  Processo  faz alusão a várias dentre elas.
• O Ofício dos Defuntos era recitado frequentemente em São Damião,  talvez mesmo todos os dias como faziam os cistercienses, mas certamente durante vários dias após a morte de uma irmã. Ele lembrava que a presente vida nada mais do que uma etapa para a eternidade.
• As cartas de Clara dirigidas a Inês de Praga  falam de seu desejo ardente de ir ter com o Senhor no Reino.  Tal pensamento era mais do que uma simples manifestação de fervor. Era, de verdade, uma  real probabilidade diante  da prolongada doença de Clara.  A morte poderia ser realidade  a se concretizar num breve espaço de tempo.  Por duas vezes (em 1224 e 1251),  as irmãs temeram pelo pior.
No dia 5 de novembro de 1251,  a corte pontifícia  chegava a Óstia.  Depois se dirigiria  a Perusa. O cardeal Rainaldo, bispo de Óstia e cardeal protetor da Ordem, ficou sabendo do agravamento da enfermidade de Clara. Veio fazer-lhe uma visita, trazendo-lhe a comunhão. Clara pede que ele consiga do Papa a aprovação da Regra.  No ano seguinte, o Papa e os cardeais  passam de Perusa a Assis.  Clara está cada vez mais fraca. “Juntou-se nova fraqueza a seus membros sagrados gastos pela velha doença…” (Legenda, 41).  Inocêncio IV  foi visitar  a serva de Cristo  e deu-lhe a absolvição  plena e a graça de uma ampla bênção.  Depois, a Plantinha recebeu a comunhão das mãos do ministro provincial.
A morte não deveria tardar.  Clara não se alimenta mais e sofre.  As irmãs  fazem vigília noite e dia, sempre chorando.   Clara pede a presença de padres e de santos frades para que lhe leiam a Paixão. Frei Rainaldo, sem dúvida seu confessor, e os primeiros companheiros de Francisco: Junípero, Leão, Angelo de Rieti acompanham os lamentos das irmãs e em suas preces.  Cercada de tão ilustres personalidades, irmãos sacerdotes, foi a Frei Junípero,  sabidamente homem de coração extremamente singelo, que  Clara pergunta “se existe alguma coisa nova para aprender a respeito do Senhor”.  Essa insaciável Clara!  “Ele abriu  a  boca e deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração.  E a virgem de Deus  ficou muito consolada com suas parábolas”.
Não restava a Clara outra coisa senão, uma vez mais, recomendar  às suas irmãs o amor pela pobreza e lembrar-lhes os benefícios com os quais o Senhor as havia cumulado.
Clara parece  preparada para a grande partida. Tem consciência de que em poucos minutos estará sozinha, face a face com seu Senhor.  Há muito tempo ela desejava  que esta hora chegasse. Como muitos que estão às portas da morte, como o próprio  Jesus, parece que ela se vê tomada de angústia e ela mesmo se exortava  à confiança.  A virgem muito santa, voltando-se para si mesma, diz baixinho à sua alma: “Vá segura, que você tem uma boa escolta pelo caminho. Vá, diz,  porque aquele que a criou também a santificou e guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor.  E bendito sejais, Vós que me criaste”
O canto de uma vida
Para ganhar confiança, Clara  repassa interiormente todo o desenrolar de sua vida, dando-se sempre conta da  presença  constante e amorosa do Senhor ao seu lado:
Foi ele que a havia tecido no seio de sua mãe (Sl  138,13), e que  antes de seu nascimento  garantiu a Ortolana angustiada com a proximidade do parto com todos os seus eventuais perigos  que tudo sairia bem. Esse Deus havia garantido a sua mãe que a criança que ela carregava em seu seio irradiaria a luz de Deus  (Legenda 2).
• Foi o Senhor que a fizera nascer  para vida divina no dia de seu batismo quando recebeu o nome de Clara, lembrando a graça recebida por sua mãe.
• Ele é que a ensinou  a conhecer e a amar quando Ortolana falava dos relatos evangélicos, envolvidos nas lembranças de sua peregrinação à Terra Santa.
• Foi o Senhor que havia colocado bem cedo no seu coração o desejo de lhe pertencer de maneira total.
Redigindo seu Testamento, alguns  meses antes, Clara já havia  evocado o encadeado da história maravilhosa de sua via com Deus  com o intuito de fazer sua ação de graças:
• Foi o Senhor que a chamara para esta vocação, da qual ela conhece a grandeza ( Test.  2 e 19-21).
• Foi ele, pelo Espirito Santo, que inspirara a Francisco quando o santo restaurava a igreja de São Damião, a predição de que ali viveriam religiosas que  glorificariam a Deus ( Test. 11-14 e 31).
• Foi o mesmo  Senhor que iluminou seu coração  para que ela abraçasse essa forma de vida segundo o exemplo e as palavras de  Francisco ( Test  24 e 26).
• Foi ele que a levou a São Damião ( Test  30).
• Foi ele que lhe deu irmãs  e as multiplicou constituindo “este pequeno rebanho”  na Igreja (25, 31 e 46).
• Esse mesmo Altíssimo sempre  atendeu às necessidades das irmãs  encaminhando-lhes esmolas (Test  64).
•Ele foi o seu consolador, seu apoio, através de Francisco  que foi jardineiro e cuidador da pequena plantação (Test  38 e 48).
• Foi ele que, na pessoa de Francisco,  foi o seu caminho e a ensinou as sendas da pobreza e da humildade ( Test  57 e 74).
• Ele, finalmente,  resume Clara, que deu o começo, o crescimento e a perseverança ( Test  78).
Quando lemos  assim o Testamento  ficamos impressionados em constatar a que ponto o olhar de fé faz com que Clara descubra em tudo  a presença amorosa de Deus  que ela encontra  nos pormenores da vida de todos os dias.
Poucos dias antes ela havia recebido do Senhor um último presente: a tão desejada aprovação de sua  Regra pelo Papa Inocente. Durante toda a sua vida, Clara batalhara para conseguir o direito de seguir o Cristo na pobreza (toda a luta para conseguir o privilégio de não ter privilégios).  Insatisfeita com as regras que sucessivos papas  lhes atribuíam sem o privilégio da pobreza, ela própria redigiu sua forma de vida.
Irma Filipa diz no  Processo:  “Como desejava ardentemente que a regra da Ordem fosse bulada, mesmo que tivesse que colocar esta bula um dia e morrer no dia seguinte, assim lhe aconteceu que veio um frade com a carta bulada, que ela tomou reverentemente e, embora estivesse à morte,  colocou ela mesmo aquela bula na boca para beijá-la.”  (Proc  3,32).  A bula pontifícia data de 9 de agosto, antevéspera da morte de Clara.
Na verdade, Clara podia partir com toda segurança  porque aquele que a acompanhará para além das angústias da morte e a protegerá das últimas invectivas do demônio, seu guia para o caminho, foi Aquele que a criou, santificou, guardou, amou ao longo de sua existência com um terno amor, como uma mãe ama seu filho!
Num último suspiro, Clara resume o canto de sua vida:  Obrigado, Senhor, por me teres criado”
fonte: http://www.franciscanos.org.br/n/?p=10528
Frei Almir Ribeiro Guimarães

sábado, 31 de março de 2012

Clara de Assis: a coragem de uma mulher apaixonada


Leonardo Boff
 Há 800 anos, na noite de 19 de março de 1221, dia seguinte à festa de Domingos de Ramos, Clara de Assis, toda adornada, fugiu de casa para unir-se ao grupo de Francisco de Assis na capelinha da Porciúncula que ainda hoje existe. As Clarissas do mundo inteiro e toda a Família Franciscana, celebram esta data que significa a fundação da Ordem de Santa Clara espalhada pelo mundo inteiro.

Clara junto com Francisco - nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que "nunca mais se separariam” segundo a bela legenda época - representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade. É bom lembrá-la neste mês de março, dedicado às mulheres. Por causa dela, há milhões de Claras e Maria Claras no mundo inteiro. Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico e afluente mercador de tecidos, dos Bernardone.

Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212, Clara "foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências”. Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em seu livro Clara de Assis: a primeira mulher franciscana (Vozes 1994): "neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo, pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo”(p. 63). Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente, mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a "minha Plantinha”.

Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples.
A cena não tem nada a perder em criatividade, ousadia e beleza, das melhores cenas de amor dos grandes romances ou filmes. Como poderia uma jovem rica e bela fugir de casa para se unir a um grupo parecido com aos "hippies” de hoje? Pois assim devemos representar o movimento inicial de Francisco. Era um grupo de jovens ricos, vivendo em festas e serenatas que resolveram fazer uma opção de total despojamento e rigorosa pobreza nos passos de Jesus pobre. Não queriam fazer caridade para pobres, mas viver com eles e como eles. E o fizeram num espírito de grande jovialidade, sem sequer criticar a opulenta Igreja dos Papas.

Na noite do dia de 19 de março, Clara, escondida, fugiu de casa e chegou à Porciúncula. Entre luzes bruxoleantes, Francisco e os companheiros a receberam festivamente. E em sinal de sua incorporação ao grupo, Francisco lhe cortou os belos cabelos louros. Em seguida, Clara foi vestida com as roupas dos pobres, não tingidas, mais um saco que um vestido. Depois da alegria e das muitas orações foi levada para dormir no convento das beneditinas a 4 km de Assis. 16 dias após, sua irmã mais nova, Inês, também fugiu e se uniu à irmã. A família Favarone tentou, até com violência, retirar as filhas. Mas Clara se agarrou às toalhas do altar, mostrou a cabeça raspada e impediu que a levassem. O mesmo destemor mostrou quando o Papa Inocêncio III não quis aprovar o voto de pobreza absoluta. Lutou tanto até que o Papa enfim consentisse. Assim nasceu a Ordem das Clarissas.
Seu corpo intacto depois de 800 anos comprova, uma vez mais, que o amor é mais forte que a morte

quinta-feira, 8 de março de 2012

SANTA CLARA, MODELO FORTE DE MULHER

Frei Vitorio, ofm

Clara de Assis não é importante somente como a companheira de São Francisco, mas é um forte exemplo do Movimento Religioso Feminino dos séculos XII e XIII. Exerceu uma influência muito grande entre as mulheres de seu tempo a tal ponto que Hortolana, sua mãe, Inês e Beatriz, suas irmãs de sangue, Inês de Boêmia, e tantas mulheres a seguiram. Donato de Besançon foi o primeiro a escrever uma Regra de Vida para mulheres que viviam nos mosteiros; e a partir daí todas as Regras, por assim dizer, femininas, ou compilações de Regras, são feitas por homens. Clara foi a primeira mulher a escrever uma Regra própria para mulheres. Não temos o original com a chancelaria pontifícia, mas nos restou o texto de Clara com sua limpidez original.
 A firmeza de Clara causa certa perplexidade. Ela conduz vidas! Escreve um texto tendo como pano de fundo São Bento e a Regra não Bulada de Francisco; mas não deixa de ser original. Seu tempo é o tempo litúrgico. Seu tema mais importante é a Pobreza. Clara causa impacto! Pode uma mulher e seu grupo de mulheres viverem sem nada? Podem sim! Se há um intenso amor existe um desatrelamento do jurídico e a entrega à algo mais substancial: não preciso ter nada pois tenho uma riqueza essencial, a capacidade de amar o Amado!

Clara sempre falou mais que Francisco sobre a Pobreza. A sua fraternidade feminina de São Damião viveu radicalmente pobre e esta é a sua original irradiação. Clara pede o direito de não ter nenhum direito; quer ser livre para amar. É como se voltasse às fontes do feudalismo: autogerir-se!

Clara viveu tão coerentemente a sua vida que o Mosteiro passa a ser um lugar de irradiação: não é reclusão entre paredes, mas sim um ideal que voa para o mundo. Um ideal sai pelas frestas de São Damião e ganha corações. Em Clara todos podemos ser de Deus; todos podemos ser nobres de alma através de seu amor. Santa Clara, abençoai todas as Mulheres hoje, no dia dedicado a elas!
www.carismafranciscano.org,br

8 de março de 2012 - Dia Internacional da Mulher