sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Seguimento de Cristo à maneira de Clara

Estamos sempre com os olhos voltados para as celebrações dos oitocentos anos do carisma clariano que se darão em muitos espaços  no mês de  agosto de 2012.  Temos em mente, de modo especial, o Congresso Clariano de Canindé  (CE) de 9 a 11 de agosto de 2012.
Debruçamo-nos agora sobre o tema do seguimento de Cristo, que outra não é senão a contemplação e imitação da altíssima pobreza do Filho de Deus. Francisco e Clara se comprazem em associar Maria, a Paupercula,  ao mistério da pobreza de Deus.
1. Falar em Francisco e Clara é pensar em pessoas profundamente tocadas pela figura de Cristo pobre, crucificado, encarnação da bondade extrema de Deus.  Falar em franciscanos e clarissas é referir-se a pessoas que foram se deixando formar, modelar e plasmar  pela pobreza do Cristo.  A melhor palavra não é formar, mas deixar-se seduzir por esta pobreza que tem um nome:  Jesus Cristo.  Estamos conscientes que a pobreza não significa apenas uma sobriedade nas vestes, na comida, no uso das coisas materiais. Tem ela a ver com desprendimento, despojamento,  não posse. Não somente de bens materiais mais do velho homem que tenta sobreviver em nós. Não se trata apenas de um seguimento externo, mas de uma  identificação de vida a vida entre o discípulo e o Cristo pobre.  Na verdade,  não podemos nos ater ao Cristo histórico, encerrado nas páginas dos evangelhos, mas a esse Ressuscitado  que nos convida a entrar em comunhão nupcial com ele. Seguir Cristo à maneira de Clara será efetivamente estabelecer liames vitais e “virginais”,  totais com esse Esposo que aparece no espelho. O incontido amor por Cristo faz com que Clara se torne sedenta de amor do Esposo feito pobreza.
2. Clara, como Francisco, começa e termina a Regra com uma declaração programática: “A forma e a vida  da Ordem das Irmãs pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta:  Observar o  santo evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo”  (Regra I,1). “Observemos para sempre a santa pobreza e humildade de  Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe e o santo Evangelho que prometemos firmemente” ( Regra XII).  Estas palavras abrem e fecham o texto da Forma de Vida escrita por Clara. Não constituem elas uma simples moldura, mas o fundamento que a tudo dá sustento.
3. “Por isso, de joelhos dobrados e prostrada, recomendo a todas as minhas irmãs atuais e futuras à Santa  Igreja romana, ao Sumo Pontífice e principalmente ao  senhor cardeal que for encarregado da Ordem dos Frades Menores e de nós, para que, por amor daquele Deus que pobre foi posto no presépio, viveu pobre no mundo e ficou nu no patíbulo faça com que sempre seu pequeno rebanho  que o Senhor gerou em sua Igreja pela palavra e o exemplo de nosso bem-aventurado Pai São Francisco para seguir a pobreza e a humildade de seu Filho dileto e da Virgem, sua gloriosa Mãe, observe a santa pobreza que prometemos…”  (Testamento 44ss).  Clara quer levar suas irmãs ao essencial.  Se o Filho de Deus escolheu o caminho da pobreza e do despojamento, então este é o caminho real que nos leva à Terra da Promissão.
4. Misturam-se nos escritos de Clara a imagem do Cristo rei  (2CtIn) e a imagem do Cristo caminho.  Clara  emprega as duas imagens em suas cartas a  Inês de Praga. Ela distingue os aspectos  do mistério total de Cristo que habita na alma.  A imagem do Cristo rei, reinando agora gloriosamente no céu, é a imagem do Esposo e objeto primário de seu desejo. Porém, a imagem do Cristo visto no contexto do mistério da Encarnação, o Cristo na sua humanidade, pobre e humilde, é o  caminho  para a desejada união.  Os desponsórios místicos têm seu fundamento no aniquilamento amoroso do amado.
5. Com toda evidência, Clara exorta implicitamente a Inês a seguir aquilo que a literatura espiritual da Idade Média chama de  caminho real. Para São Bernardo, a “via real”  é aquela que se faz sem desvios,  sem delongas  desnecessárias. A pobreza é caminho real para a união esponsal porque elimina as causas de dissipação que nascem do apego aos bens terrenos. O caminho da pobreza, o caminho que o Senhor manifestou em sua  humanidade: o caminho da pobreza e da humildade que levam à posse do Reino dos céus: “Ó bem-aventurada pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas! Ó santa pobreza, aos que a tem e desejam, Deus prometeu o reino dos céus e são concedidas sem dúvida alguma a glória eterna e vida feliz.  Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo se dignou abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito  (1CtIn 15-17). “O reino de Deus só é prometido e dado pelo Senhor aos pobres”  (1CtIn 25). Este é o caminho duro e a porta estreita. Por meio de uma tal porta  realiza-se a união mística com Cristo, o início do reino celeste já nesta terra.  O caminho que Cristo nos mostra durante a sua vida terrena é o mesmo caminho que Francisco ensinou a Clara.  Com sua palavra e seu exemplo,  Clara orienta Inês e as Irmãs a percorrerem esta  via regia. Durante toda a sua vida, Clara lutou para que ninguém a retirasse de tal caminho. No Testamento, ela escreve: “O Filho de Deus se fez para nós o caminho, que nosso bem-aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos  mostrou e ensinou  por palavra e pelo exemplo”  (Test, 5).
6. Podemos dizer que  Clara, na qualidade de guia espiritual, indicou e continua indicando para nós um só caminho que leva à união com Cristo, a via regia, o caminho percorrido primeiro  por Cristo e Maria e depois por Francisco, seguimento do Cristo esposo, pobre e humilde. Nas palavras que ela empresta da Regra Bulada de São Francisco, Clara  reforça  que este é o caminho real:  “Como peregrinas e forasteiras neste mundo… esta é a sublimidade da altíssima pobreza que vos fez, minhas caríssimas irmãs,   herdeiras e rainhas do reino dos céus… Esta seja a vossa porção que nos leva à terra dos vivos”  (RCl 8).
7. Clara interpreta  o seguimento essencialmente em termos de amor  sensível pela humanidade de Cristo -  humanidade esta que é o caminho que nos leva ao Pai -  e imitação das virtudes que o próprio Cristo viveu, principalmente a pobreza e a humildade. A prática destas virtudes místicas não se limita a uma imitação exterior de Cristo,  mas um modo concreto de  entregar-se  totalmente a Cristo e abraçar misticamente sua humanidade e desta forma aprofundar a união esponsal com ele.  Podemos avaliar a sensibilidade do amor de Clara para com Cristo no uso frequente de palavras que aludem ao seguimento em termos de abraço.  Trata-se do abraço místico ou da união mística com a humanidade de Cristo mediante   a prática das virtudes  por ele santificadas:
“Ó bem-aventurada  pobreza, que àqueles que a amam e abraçam concede as riquezas eternas!”(1CtIn 15). “Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre. Veja como por você ele se fez desprezível e siga-o sendo desprezível por ele nesse mundo” (2CtIn 18-19). “Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza  que a levaram a abraçar o tesouro incomparável e escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual se compra aquele por quem tudo foi feito”(3CtIn 7).
8. O seguimento de Cristo para Clara  comporta o abraço místico da humanidade de Cristo; em outras palavras, o caminho da imitação exterior da humanidade de Cristo e a conformidade (o entregar-se) interior da vontade à vontade de Deus levam ao amor puro, ao coração dos esponsais místicos entre a alma humana e o Verbo.  “É essa a perfeição que vai uni-la ao próprio Rei no tálamo celeste, onde se assenta glorioso sobre um trono estrelado. Desprezando o fausto de um reino da terra, dando pouco valor à proposta de um casamento imperial, você se fez seguidora da santíssima pobreza em espírito de grande humildade e do mais ardente amor, juntando-se aos passos daquele com quem mereceu unir-se em matrimônio” (2CtIn 5-7).
9. Maria Victoria Triviño,  clarissa espanhola, numa belíssima obra sobre os temas espirituais de Clara,  conclui assim o capítulo a respeito da espiritualidade nupcial de Santa Clara, que outra coisa não é senão esse enamoramento da alma virginal pelo Esposo.  Os temas do seguimento e da virgindade se entrelaçam: “Clara  sente-se fortemente atraída  – carisma de virgindade – e corre no encalço de  Jesus Cristo empenhando todo o seu afeto, todos os sentidos e faculdades.  Sua ascética consiste em “correr” impulsionada “pela violência do desejo”. Sua mística é o abraço esponsal. Sua bem-aventurança é a doçura escondida.
Não quer que seu pensamento se afaste da lembrança do Senhor, e o adivinha presente sob as mais diferentes aparências. Ama de todo o coração.  Comove-se e chora quando fala da paixão  (Proc XI,2), fica   fora de si quando o contempla sozinha (ProcIII,25), treme quando recebe o Corpo do Senhor… Exulta ao escutar o Vidi aquam… Uma tal  integração da afetividade  faz dela uma mulher ardorosa e apaixonada.
Pode-se dizer que Clara nada fez sem entusiasmo.  Basta recordar a fuga noturna, o desejo do martírio, o episódio dos sarracenos, o assédio de Vital de Anversa. No grande e no pequeno, no ordinário e no extraordinário sempre em tudo colocou um grande amor.
Mente, faculdades, coração, instinto… Tudo está polarizado num amor exclusivo. Assim  todos os níveis do ser unificam no amor a Jesus Cristo. A vivência da maternidade espiritual  faz com que ela se realize plenamente como mulher que se sente mãe, para Jesus Cristo e para com as irmãs.
Fruto desta unidade, em nível psicológico, é o equilíbrio, a harmonia. O que os autores modernos chamam de  psicologia dinâmica. O divino se enraíza no psicológico.  No plano espiritual, o fruto é um estado de bem-aventurança, a coroa da santidade: “.. estava sempre alegre no Senhor e jamais era vista perturbada, e sua vida era toda angélica” (Proc  III,6).
O tema nupcial, tão explícito na primeira carta, foi avançando com o clamor de Raquel (“Lembre-se da sua decisão como um segunda Raquel; não perca de vista seu ponto de partida…” (2CtIn 11) e com a adesão à Mãe dulcíssima que a ama, acompanha e cuida,  reaparece no começo do espelho.  Contemplando os mistérios no espelho  Clara se aprofunda no mistério do Amado. No final, a esposa repousa e descansa no beijo e no abraço da esposa do Cântico dos Cânticos (4CtIn 30-32).
Tudo o que disse Clara  foi revestido de delicadeza e de beleza. Para viver o que foi dito necessário foi muita fortaleza.  Estamos numa sociedade em que a virgindade é flor rara. Mal se fala dela.  Muitos são os que acreditam que ela não pode ser guardada. Sempre houve quedas e abandonos  que fizeram com que ela fosse menos digna de crédito. Quem não a acolheu não tem ouvidos para entendê-la, mesmo querendo discutir a seu respeito. A virgindade é um carisma que sempre ornou, orna e ornará a Igreja cristã.
É um carisma, um presente do Espírito  do qual se deve dar testemunho diante do mundo que não tem dele alta cotação.  A prudência humana não deve nos impedir de dar testemunho de sua beleza” (La vía de la beleza. Temas espirituales de Clara de Asís,  BAC  46,  Estudios y ensayos, p. 181-183).
10. Frei Herbert Schneider, OFM, refletindo sobre o tema Claire d’Assise, école de vie spirituelle,   in Quaderni dell’Ufficio pro monialibus, n. 46, dicembre  2010,  fala da espiritualidade como transformação: “Santa Clara exorta Santa Inês de Praga em sua segunda carta a realizar o tríplice passo da vida espiritual (2CtIn 20): olhar (intuere), considerar (considerare), contemplar (contemplare). É, por assim dizer, um tríplice passo do exterior para o interior para as profundezas lá onde ela se sente possuída pelo desejo amoroso (desiderare) de imitar (imitare). É o caminho da transformação em Cristo:  trata-se de, pelo olhar,  experimentar com ele o sofrimento, na  consideração de morrer com ele e a partir desse momento acontece a transformação numa vida nova  com Cristo. É a mudança em Cristo.  Na espiritualidade  da transformação/mudança, a forma de Cristo passa a manifestar-se no homem. O que é realidade no Cristo torna-se também pela transformação e a título de dom realidade no homem”.
11. Basta.  O seguimento de Cristo na vida contemplativa significa transformar-se me Cristo. O amado de tanto se espelhar no Amante ganha  seus traços e vive em comunhão com ele.
Autor: Frei Almir Ribeiro Guimarães
fonte:http://www.franciscanos.org.br/n/?p=19652

domingo, 8 de julho de 2012

A transbordante alegria de Francisco de Assis

.

Por Frei João Mannes, OFM
Os antigos biógrafos e hagiógrafos de São Francisco de Assis atestam que a sua vida caracterizava-se por uma manifestação de intensa alegria. Segundo Tomás de Celano, a “costumeira alegria” (1Cel 2,5) de Francisco era tão intensa que, para extravasá-la, “de vez em quando, colhia do chão um pedaço de pau e, colocando-o sobre o braço esquerdo, mantinha um pequeno arco curvado por um fio na mão direita, puxando-o sobre o pedaço de pau como sobre um violino e, apresentando para isto movimentos próprios, cantava em francês” (2Cel 90,127). Assim, através de muitos outros relatos semelhantes, explicita-se que Francisco era “naturalmente sorridente e jovial”.
O semblante de Francisco irradiava uma indizível alegria, inclusive nos momentos mais difíceis e até dramáticos de sua existência (1Cel 5,10). Conta-se que um dia, ao caminhar alegremente por um bosque, de repente, foi atacado por ladrões. Bateram nele e o atiraram em um barraco, cheio de muita neve. Mas ele, assim que os ladrões se retiraram, saltou para fora da fossa e, com alegria redobrada, começou a cantar em alta voz louvores ao Criador de todas as coisas (1Cel 7,16). Relata-se também que Francisco conservou sua alegria mesmo no cárcere, em Perúgia. Os seus companheiros de prisão o consideraram um louco porque, “enquanto eles estavam tristes, ele [...] não parecia entristecer-se, mas de certo modo [parecia] alegrar-se” (3Soc 4).
No entanto, relata Celano, que Francisco inflamou-se de peculiar alegria, a ponto de não caber mais em si (1Cel 3,7), ao descobrir a sua razão principal de viver, ou melhor, quando “mostrou-lhe o Senhor o que convinha fazer” (1Cel 3,7). Em outras palavras, alegrou-se sobremaneira quando o Altíssimo “fixou sobre ele o seu olhar” (2Cel 10,12) e lhe revelou que a felicidade (beatitudo) não está no âmbito da fortuna, isto é, na ordem do ter, do poder, do saber, das honras e dos prazeres do corpo, mas do ser. O Altíssimo lhe mostrou que “muito mais felizes são aqueles que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28). E à medida que Francisco dispôs-se a obedecer à Palavra de Deus, revelou ao mundo que o Evangelho é fonte de inesgostável alegria e que a felicidade nasce da conformidade íntima entre o que se quer e o que se vive.
De fato, o Pobre de Assis alegrou-se muito com a descoberta do dom de sua vocação de ser feliz na sequela Christi. E essa alegria se intensificava sempre mais cada vez que alguém o procurava com o desejo de ser feliz à maneira dele e, “levado pelo espírito (cf Mt 4,1) de Deus, vinha para receber o hábito da santa Religião” (1Cel 12,31). Ele recebia cada irmão benignamente, isto é, como dádiva divina. Basta recordar aqui a peculiar alegria que tomou conta de Francisco quando Frei Bernardo associou-se a ele, pois, “o Senhor parecia ter cuidado dele, dando-lhe o companheiro necessário e o amigo fiel” (1Cel 10,24).
A fraternidade é, portanto, um dom de Deus, bem como é dádiva divina a alegria que extravasam os irmãos à medida em que se unem e, em comunhão dialógica, respondem ao chamado do Senhor de viver e anunciar o Evangelho de Jesus Cristo. A vida em fraternidade é fonte de alegria porque a felicidade está arraigada em ter a quem amar e amá-lo efetivamente. Por conseguinte, na vida humana, ou melhor, na vida em fraternidade existe tanto de alegria quanto há de amor. A caridade é realmente fonte e expressão de alegria, conforme atesta o seguinte relato de Tomás de Celano: “Com quanta caridade os novos discípulos de Cristo se abrasavam! Quão grande amor de companheirismo vigorava neles! Pois, quando se reuniam em algum lugar, ou se encontravam no caminho, como acontece, resplandecia o fogo do amor espiritual, espargindo sobre todo amor as sementes da verdadeira afeição. Como? Abraços castos, afetos suaves, ósculo santo, conversa agradável, riso modesto, fisionomia alegre, olhar simples (cf. Mt 6,22), ânimo suplicante, língua que abranda, resposta delicada (cf. Pr 15,4.1), o mesmo propósito, pronto serviço e mão infatigável” (1Cel 15,38).
O pai Francisco deu tanta importância à atitude de permanente alegria dos frades que a colocou como preceito em sua primeira Regra: “E cuidem [os frades] para não se mostrar exteriormente tristes e sombriamente hipócritas; mas mostrem-se alegres no Senhor (cf. Fl 4,4), sorridentes e convenientemente simpáticos” (RnB 7,16). E os irmãos que apresentavam um rosto desanimado, cabisbaixo, sisudo e triste eram severamente admoestados por Francisco (2Cel 41,128), pois, considerava essas expressões de vida incompatíveis com uma opção de vida segundo o Evangelho de Cristo. Além disso, um irmão acabrunhado, choroso e desolado é facilmente levado a alegrias vãs (2Cel 88,125). Esse torna-se presa fácil dos demônios, visto que, diz Celano, “o demônio exulta acima de tudo, quando pode [roubar] ao servo de Deus a alegria de espírito” (2Cel 88,125).
Por conseguinte, a melhor arma ou o remédio mais eficaz contra toda espécie de vício é a alegria espiritual. E a alegria espiritual radica-se na virtude da caridade. Quem a possui é feliz e “os demônios não podem ofender o servo de Cristo, quando o virem repleto de santa alegria” (2Cel 88,125). Francisco, na Saudação às Virtudes, enfatiza que “a santa caridade confunde todas as tentações diabólicas e carnais e todos os temores (cf. 1Jo 4,18) da carne” (SV 13). Quem possui uma virtude e não ofende as outras tem todas e com elas confunde todos os vícios e pecados. Foi, portanto, dessa forma que Francisco manteve-se sempre na alegria do coração (2Cel 88,125).
A alegria do coração puro de Francisco e dos seus companheiros transborda para fora dos limites da Fraternidade constituída pelos irmãos na Ordem. Os irmãos, extravasando de alegria divina, vão ao encontro de todos os seres humanos, especialmente dos mais necessitados. É um dever alegrar-se junto aos menos favorecidos, conforme lê-se na Regra não Bulada: “os irmãos devem alegrar-se quando conviverem entre pessoas insignificantes e desprezadas, entre os pobres, fracos, enfermos, leprosos e os que mendigam pela rua” (RnB 9,2).
Todavia, a alegria franciscana deve estender-se natural e necessariamente a todos os seres do universo. Pois, todos têm a sua razão de ser em Deus que os cria livremente e, por isso, são diferentes manifestações da potência, da sabedoria e da suprema bondade de Deus. O sol, a lua, as estrelas, a terra, a água, o fogo e o vento são fontes de admiração e de inefável alegria para Francisco, porque cada criatura, na sua irrepetível singularidade, é conhecida, amada e criada no Filho e pelo Verbo eterno de Deus Pai. Enfim, Francisco, após um longo e gigantesco esforço de purificação, exultante de alegria, compôs os louvores ao Criador: “Louvado sejas meu Senhor, com todas as tuas criaturas”.
No entanto, a alegria franciscana somente chega ao ápice da perfeição no cumprimento das santíssimas palavras e obras do Senhor: “Amai vossos inimigos e fazei o bem àqueles que vos odeiam” (cf. Mt 5,44) (RnB 22,1). Nosso Senhor promete a eterna alegria como recompensa àqueles que acolhem com amor aos seus inimigos: “Felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem e, por minha causa, disserem todo tipo de calúnia contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus” (Mt 5,11-12). A alegria consuma-se, portanto, num amor tão intenso que não apenas suporta, mas abraça pacientemente e de bom coração as injúrias, os opróbrios e desprezos “por causa de Jesus Cristo e da caridade de Deus”.
No diálogo de Francisco com Frei Leão acerca da Perfeita Alegria, evidencia-se que o ser humano recebeu do Espírito Santo o carisma de “vencer-se a si mesmo” (Fior 8) até o total abandono de si: “Pai, em tuas mãos entrego meu espírito” (Lc 23, 46). O amor de Deus expresso na Cruz de Jesus Cristo é, portanto, o mistério íntimo da Perfeita Alegria de Francisco e seus primeiros companheiros.
Por fim, evocamos a inaudita alegria que Francisco experimentou nos momentos mais agudos de sofrimento que precederam sua morte corporal. Na iminência da morte, já com o corpo bastante debilitado pela enfermidade, “rindo e alegrando-se, tolerava de muito boa vontade o que era a todos penoso e insuportável olhar” (1Cel 8,107). De fato, a real proximidade da hora extrema da morte não lhe causou tristeza, pois, “tendo amado até o fim os frades seus filhos, recebeu a morte cantando” (2Cel 162,214). Assim, Francisco, no auge de sua maturidade humana e espiritual, cheio de esplendor e alegria, de que os irmãos muito se maravilharam, passou da presente à bem-aventurada vida (Fior 6).
Portanto, Francisco possuía, sim, uma índole alegre. Porém, transbordou realmente de “alegria espiritual” (2Cel 88,125) ao optar livremente pelo Evangelho de Jesus Cristo, fonte de genuína e inesgotável alegria. A alegria plena encontra-se na interioridade mais íntima da alma humana, isto é, na “inocência matinal” do total desprendimento e na posse de Deus. A existência de Francisco foi expressão de “inaudita alegria” (2Cel 137,181) porquanto deixou-se impregnar e enlevar pelo espírito da jovialidade de Deus, que amorosamente se humanizou em Jesus Cristo, para que pudéssemos encontrar em sua Cruz a nossa perfeita e eterna alegria.


Extraído de http://www.franciscanos.org.br/v3/vidacrista/artigos/mannes_171008/ acesso em 22 out. 2008.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O viver das irmãs em São Damião

Estamos nos abeirando  das comemorações dos oitocentos anos do carisma clariano que serão celebrados de modo particular da cidade de Canindé (CE),  nos dias 9  a 11 de agosto de 2012.  Fernando Felix Lopes, português, escreveu uma das encantadoras biografias de São Francisco que conheço.  Deu-lhe o título de  O Poverello. São Francisco de Assis  (Ed. Franciscana, Braga,  5ª. ed, 1996).  No intuito de nos colocar no espírito das comemorações clarianas transcrevemos umas poucas páginas deste autor que nos falam  da vida das irmãs em São Damião e dos últimos dias daquela que se definia como  “plantinha”  do Seráfico Pai. Os leitores não encontrarão novidade alguma, mas poderão saborear o jeito  charmoso português de dizer as coisas mais simples da vida. (Frei Almir Guimarães)
O que foi o viver das irmãs ali recolhidas em São Damião,  não é fácil de contar.  A Regra de vida era o Evangelho, nem Francisco soubera ditar outra.
Com as rezas, o trabalho para o pão de cada dia. E nos casos em que o trabalho não dava, sentavam-se a comer,  à “mesa do Senhor”, a caridade da esmola pedida de porta em porta. O ideal poeticamente exemplificado por Francisco nas avezinhas do céu e nos lírios do vale, traduziram-no as freiras em forma comum de viver.
Clara aos pobres mandara distribuir seu patrimônio, e as outras irmãs de modo semelhante procediam. Professavam a pobreza absoluta que liberta a alma, a desamarra do egoísmos que prendem e  dos cuidados que consomem.  Clara, a pobrezinha, era o modelo; quando Francisco a olhava, com certeza, via nela o rosto da madona  Pobreza.
O único privilégio que desejou dos Papas foi o privilégio de não ter nada. Quando o requereu a Inocêncio III, na chancelaria pontifícia nem sabiam como redigir o documento para satisfazer tão insólito e original pedido.
Esses passos da Regra escrita por Santa Clara e aprovada pelo Papa na véspera da sua morte, deixam-nos entrever a devoção com que ali se adorava  Sóror Pobreza, que  São Francisco fizera a sua dona.
“O Altíssimo Pai  celeste se dignou alumiar o meu coração para que, seguindo o exemplo e doutrina de nosso bem-aventurado Pai  (S. Francisco),  fizesse penitência; pouco depois da sua conversão, juntamente com minhas irmãs  voluntariamente lhe prometi obediência. E vendo o bem-aventurado Pai que nenhuma pobreza nem trabalho, nem tribulação, nem desprezo do mundo temíamos, mas antes com grande contentamento levávamos estas coisas, movido de piedade nos escreveu forma de viver em esta maneira:  Porque, por inspiração do Senhor, vos fizestes  filhas e servas do Altíssimo e Sumo Rei o Pai celeste, e por graça do Espírito  Santo destes de viver segundo a perfeição do santo Evangelho, quero e prometo, por mim e por meus frades, sempre  ter de vós, como deles, cuidado diligente e especial solicitude.”
“E assim como fui sempre solícita, juntamente com minhas irmãs, em seguir a pobreza que prometemos ao Senhor e ao bem-aventurado  São Francisco, assim observem as abadessas que depois de mim vierem:  a saber,  que não recebam nem tenham possessões  ou propriedades por si nem por interposta pessoa, nem qualquer outra coisa que possa chamar-se de propriedade, se não somente quanta terra se requer para honestidade e conserto do mosteiro, e essa terra não se lavre  como horta  para as necessidades das irmãs”.
Quarenta anos ali viveu Clara. O coração anda-lhe cheio do Evangelho.  Tanto, que é nele que  São Francisco procura alumiar de certezas os caminhos da vida, nas horas aflitas de suas dúvidas.  Vem-lhe o desassossego  ao coração, e já não sabe que mais agrade ao Senhor: se a recolhida oração longe do mundo, se o apostolado entre os homens. Por sua ordem vai Frei Masseu ler no coração de Santa Clara os desígnios da Providência e torna com a resposta: – “Vai pelo mundo anunciar aos homens o Reino dos céus”.
Por longe, outros mosteiros vão surgindo a recolher donas e donzelas que trocam as riquezas e os gozos do mundo pelas alegrias  simples do Evangelho. Clara traduz para o feminino os ideais largos e viris do Poverello, e no seu pobrezinho mosteiro de São  Damião é ela o modelo e forma de vida que todas procuram imitar.
A piedosa caridade doméstica, esta virtude que muitos, em família,  julgam cumprir borrifando de fel a vida de todos, praticava-a com requintes de ternura:  as ocupações mais humildes da casa eram para ela momentos de oração, lavava os pés das irmãs serventes quando chegavam dos trabalhos por fora, cuidava das enfermas, nas noites frias do inverno andava solícita a agasalhar as irmãs, era ela quem despertava à noite para  matinas, e ela mesma acendia as luzes das escadas e espevitava a lâmpada da capela. Doente  desde os trinta e um anos, nunca perdeu o hábito do trabalho, nunca amaciou os rigores da pobreza, nunca perdeu a coragem nem a alegria de viver.
Em 1228, o papa Gregório IX vem a São Damião a teimar com ela para que amenize os rigores da pobreza, e oferece-lhe rendas para sustentar o mosteiro. Recusa com vigoroso respeito as solicitudes do papa; e quando este  lhe propõe que se os escrúpulos lhe vêm do voto que fizera, dele a desliga dispensando-a, ei-la que responde: – “Santo Padre, desligue-me dos meus pecados, isso lhe peço; agora de seguir até à morte o Cristo pobre, de tamanho favor não desejo dispensa”.
Em setembro de 1240, os sarracenos dos exércitos imperiais, passando por Assis, escalam os muros do mosteiro. Clara levanta-se de seu leito de enferma, manda às irmãs que lhe tragam a custódia com o  Santíssimo Sacramento, e todas de joelhos, implora ela:  -“Guarda, Senhor, este pequenino rebanho  que os lobos assaltam, pois eu já não o posso defender”.  E Jesus responde:  “Sossega, filha, que sempre o guardarei”. E os sarracenos fogem em debandada.
Um  ano depois, Vital de Anversa torna com os exércitos imperiais a sitiar  Assis,  -  “Muitos benefícios devemos à nossa cidade, é agora o tempo de lhos pagar”, diz Clara.  Cobre-se de cinzas todas as irmãs com ela;  jejum a pão e água, sem outra coisa a comer, e ferventemente imploram a proteção de Deus para a cidade aflita. E no outro dia  Vital levanta o cerco e retira com seu exército.
No leito da agonia, trazem-lhe a bula de  Inocêncio IV a aprovar a Regra e a Pobreza. Pega dela e beija-a. Uma alegria imensa lhe inunda o rosto. À sua volta Frei Junípero, Frei Ângelo e  Frei Leão  são ali a presença de Francisco que há muito voara para o céu.  -  “Que notícias me trazes de Deus?” pergunta a Frei Junípero. E o frade simples, o jogral do Senhor, tem nos lábios palavras divinas que mais lhe enchem de alegria o coração.
É a hora extrema. Sente que a alma começa a ausentar-se:  – “Vai segura, tens bom guia para a caminhada. Quem te criou, Ele mesmo  te santificou e te amou mais do que a mãe ama o o seu filhinho.  Bendito, Senhor por me haveres criado!”
Era  11 de agosto de 1252  quando a sua alma partiu nos braços da morte, a cantar louvores ao Senhor que lhe dera a vida.
fonte:http://www.franciscanos.org.br/n/?p=19577

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Clara, a mulher da esperança



Com alegria estamos todos mergulhados na meditação dos passos dados por Clara de Assis no seguimento do Evangelho. Estamos vivendo esse tempo dos oitocentos anos da forma de vida da Senhora Clara. Temos diante dos olhos um texto  que aborda Clara, como mulher da esperança, da autoria de uma das mais conhecidas e eruditas filhas da santa. Trata-se de  Chiara Augusta Lainati.  São incontáveis as obras publicadas por esta clarissa. O texto de que dispomos  foi enviado para mosteiros das irmãs pobres de São Damião e é uma versão em espanhol de artigo que, provavelmente foi escrito em italiano (Clara, la mujer de la esperanza).  A autora se dirige às suas irmãs  fazendo um veemente convite a que voltem ao primeiro amor e sejam mulheres de esperança para um mundo sem esperança.  Mesmo sendo dirigidas para as irmãs, as palavras da Lainati servem para todos que vivemos o aperto no coração de ter perdido, em parte, a esperança.  Temos dúvidas, vivemos perplexidades, precisamos nos colocar entre os pobres que esperam a Deus. Fazemos uma tradução do texto com levíssimas adaptações. O presente artigo nos coloca, pois,  diante do ardente e urgente tema da esperança. Seu estilo é poético, mas também profético. Vale a pena ser meditado.
“Os pobres  têm o segredo da esperança.  Alimentam-se  dia após dia das mãos de Deus.  Os outros homens, desejam, exigem, reivindicam e a tudo isso chamam de esperança… Acrescente-se que  o mundo moderno vivendo a loucura da aceleração não tem tempo para esperar. A vida interior do homem moderno tem hoje um ritmo freneticamente veloz, impossibilitando que seu coração seja alimentado por  sentimento tão forte e tão  doce como o da esperança…  Somente os pobres  esperam por nós,  como somente os santos amam e expiam por nós…  Chegará o dia em que cumprirá  a palavra de Deus e os pobres possuirão a terra e a possuirão simplesmente porque não perderam a esperança nesse mundo de desesperados”  ( Georges Bernanos).
Uma imersão no incerto
O primeiro passo dado por Clara fora da segurança da casa,  rumo à Porciúncula envolta na obscuridade do bosque, um mergulho na incerteza é seu passo decisivo na caminhada  da esperança.
Um passo dado sem timidez (a filha de Favarone  nunca é tímida)  que será diferente, tomando um outro ritmo, quase passo de  dança  sob as asas do Espírito.  Ela mesma haverá de escrever: “Em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da perseverança” (2CtIn).
De fato, pouco a pouco, a mulher de Assis foi aprendendo em São Damião “a comer cada dia da mão de Deus”; uma mão que oferece, isto sim, e abundantemente,  “pobreza, trabalho, tribulação, humilhação e desprezo do mundo” (TestClara 27) e que converte tudo isso em “delícia” porque derrama sem medida nos sulcos do coração uma semente viva: a esperança.
Quase com os olhos se pode ver aprofundar, germinar e crescer a semente na vida de Santa Clara: uma árvore tenra, depois mais robusta, vigorosa sob o sol de São  Damião, finalmente  caminhando com segurança no céu eterno de Deus, como modelo de esperança de toda a Igreja, como a árvore de mostarda do evangelho que abriga nela numerosos pássaros dos céus.
Nas mãos de Deus
Toda a vida de Clara, na realidade,  se apoia na esperança.
Sozinha deixa para sempre a casa paterna para, aos dezoito anos, seguir os passos de um homem, de um burguês, Francisco, que  as pessoas tinham como  um louco.  Um salto no vazio. Contra a tradição da família. Contra as convenções sociais. Contra a prática normal da Igreja daquele tempo.  Um fechar os olhos e deixar-se conduzir pelo abismo da fé “contra toda esperança” (Rm 4,18). Péguy diz a Deus que a fé que ele ama é a esperança.
Um pouco depois vemos Clara deixar de lado a tranquila e organizada segurança do mosteiro beneditino no qual recebeu hospitalidade por uns poucos dias. Ali, ela resistiu à pressão e à violência  dos familiares. Recusa a segurança humana que torna a bater à sua porta.
Dirige-se a São Damião. Na incerteza.  Ali também está tudo para ser feito. Naquele lugar está sozinha  mas não fica espantada com a solidão.  Quanto mais profundo se faz seu despojamento, sua pobreza de seguranças humanas,  à imitação do Cristo pobre, mais canta com toda liberdade e brilha ao sol, sempre caminhando na esperança porque  permite experimentar  desde aqui a secreta doçura que Deus reservou desde o principio para aqueles que o amam (3CtIn).
Em São Damião há muito pouco ou quase nada. E o que é mais certo: não há perspectivas seguras.
Hoje  vemos a vida de Santa Clara à luz que aconteceu posteriormente… Clara, no entanto, ao entrar em São Damião,    naquele marcante março de Assis,  levava com ela somente a esperança. Contava unicamente com a promessa evangélica: “Vosso Pai sabe que tendes necessidade de todas essas coisas. Buscai em primeiro lugar o  Reino e todas as coisas vos serão dadas de acréscimo” (Lc 12,30-31).  Contava com uma outra promessa, a de Francisco, que havia predito que o Senhor haveria de multiplicá-las (TestCl).  Não confiava em nada a não ser nisso.  Não sabia o que seria dela, nem de sua irmã Inês que já se achava com ela…  Vive a experiência do “pássaro do céu” e sabe que, nas mãos de Deus, ela vale mais do que muitos pássaros (cf. Mt 6,26).  Alimenta-se com o que vem das mãos da Providência, dia após dia, como pobre.  Não sabe se o lugar em que se encontra, São Damião, terá futuro:  naquele momento estava vazio.  Não podia imaginar que depois de poucos meses  Deus, em sua misericórdia, haveria de multiplicar as andorinhas debaixo do sol.  No momento, humanamente falando, tudo é obscuro.
Como Abraão, Clara caminha na noite,  sustentada apenas pela confiança inquebrantável naquele que é o Senhor do impossível.  “O Senhor disse a Abraão: Sai da tua terra, do meio de teus parentes, da casa do teu pai e vai para a terra que te mostrarei  (Gn 12,1).  E  Abraão  “saiu sem saber para onde ia” (Hb  11,8).
Clara também ignorava para onde o Senhor a estava levando.  Era noite.  Na esperança, no entanto, tudo se arrisca.  “Olho confiante para o Senhor, espero no Deus de minha salvação; meu Deus me ouvirá”(Mq 7,7).  E, apesar disso, Clara sentia-se segura, mais segura do que no velho e protegido castelo de seus familiares.  Deus é fiel em suas promessas.  Clara espera em sua palavra.
Como uma agonia
“Tu és a nossa  esperança, grande e admirável Senhor,  Deus onipotente, misericordioso salvador”,  Estas palavras que Francisco escreveu para Frei Leão,  foram passando de mão em mão  e chegaram ao coração de Clara.  “Tu és a segurança, tu és  a riqueza que nos satisfaz. És o guarda e o defensor”  ( Bilhete de Francisco a Frei Leão).  Toda outra segurança fora do Senhor seria traição.
Clara lança-se no vazio: vende a herança e  o resultado dá aos pobres.  Faz aprovar de viva voz pelo Papa Inocêncio III  o surpreendente privilégio da pobreza  que seria concedido oficialmente em 1228.   Deus fará com que nada  falte às irmãs.  Quanta esperança para aquela mulher, a quem um filho espiritual, um futuro Papa, não duvidará de chamá-la  de “mãe da sua salvação” (Carta  “Ab illa hora”  do Cardeal  Hugolino).
Aqui em baixo é noite, noite mais profunda do que nos bosques em torno da Porciúncula. Noite também para Clara, noite em que somente a pura esperança pode entrever uma luz, noite em que a única salvação é “olhar-se” no “espelho” que é o rosto de Cristo, o Amor pobre, privado do esplendor humano, que está suspenso da cruz;  “Esperança de Israel que salvas no tempo da desgraça…”(Jr  14,8).
“Veja  como por você ele se fez desprezível e siga-o, sendo desprezível por ele neste mundo.  Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha,  olhe, considere, contemple o seu esposo , o mais belo  entre os filhos  dos homens, feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio de angústias na própria cruz… Se você sofrer com ele, na cruz e na tribulação, vai ter com ele na mansão celeste… e seu nome será inscrito no livro da vida” (2CtIn).
Como Clara  aprendeu a  “agonizar” com Cristo agonizante ( cf. LSC 31)? Somente pode responder a esta pergunta  Aquele que a ensinou.  Podemos, no entanto, exemplificar esses momentos de “agonizar com Cristo”:  ter cinquenta irmãs e não ter nada para matar sua fome (Proc 6,6); ter uma “irmã Andréia” que, desesperada, tem no coração propósitos insanos (Proc 3,16);  esperança de que tudo poderá se  viver olhando para o espelho e para aquele que está suspenso no madeiro da cruz…Papas, bispos, padres e leigos vieram mendigar esperança em Clara,  “mãe da salvação”.
Aqui, nesta terra de desterro, é noite. A salvação vem unicamente de Deus, do Deus pregado na cruz que se fez “a esperança de  Israel, seu salvador em tempo de angústia”. É extremamente cansativo, verdadeira agonia, caminhar nas areias ardentes deste deserto que nos conduz à terra prometida.  No entanto, está escrito: “O resto de Jacó será no meio de numerosos povos como o orvalho vindo do Senhor, como gota de chuva sobre a erva que não espera em ninguém nem conta com um ser humano” (Mq  5,6).
Há essa certeza: naquela terra não haverá mais noite (Ap 22,5).  Não estaríamos já vislumbrando aqui  uma aurora no horizonte?
Êxodo
Francisco  parte pelos caminhos do mundo sem bolsa, nem alforje, nem bastão. Clara também, com a percepção de ter deixado na outra margem do Mar Vermelho  a “vaidade do mundo” (TestCl), encerrada em São Damião, percorre os caminhos misteriosos de um êxodo no deserto, onde Deus é o único  guia (Dt 32.12), Javé, o “Deus da esperança” (Rm 15,13), o Deus que desde sempre fez palpitar no coração do homem o desejo da terra do sonho  que se acha para além das estepes e das dunas arenosas desse nosso viver cotidiano.
Clara entrevê esta terra: “Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na minha adega, até que a tua esquerda esteja sobre a minha cabeça, sua direita me abrace e toda feliz me dês o beijo mais feliz de tua boca”(4CtCl).  Nos seus escritos está sempre presente a “terra prometida”, reino de glória  rumo à qual estamos caminhando.
Na experiência espiritual de todos os tempos, como na história de Israel, o “deserto” é sempre cenário de encontro com o Senhor. “… em terra deserta o encontrou, na vastidão ululante do deserto. Cercou-o de cuidados e o ensinou, guardou-o como a menina dos olhos. Qual águia que desperta a ninhada, voando sobre os filhotes também ele estendeu suas asas e o apanhou (Jacó) e sobre suas penas o carregou”  (Dt 32, 10-12).
Clara sabe bem disto.  É ensinada pelo Espírito.  No interior da clausura  organiza uma vida “nômade”, vida de povo que peregrina até à terra que está para além do rio.  “Como peregrinas e forasteiras neste mundo, servindo o Senhor em pobreza e humildade”, “de nada se apropriando, nem de casa, nem de lugares, nem de coisa alguma”  (Regra 8).
Nada.  Simplesmente um caminhar para frente rumo à terra prometida, como um povo em marcha, que não tem cidade aqui embaixo, nem tenda estável onde refugiar-se, à imitação do Filho do Homem que não teve onde reclinar a cabeça e quando a inclinou foi para entregar seu espírito(1CtIn).  Um “pequeno rebanho” que avança na esperança, cuja “porção” é uma  “altíssima pobreza”, que  “as faz pobres de bens materiais, mas ricas em virtude e as conduz até a terra dos vivos”. “Nada mais queirais ter debaixo do céu”  (Regra 8). Na verdade, porque parar?  Por que querer aqui embaixo uma morada? “Pois o Senhor teu Deus vai te introduzir numa terra boa, terra com águas correntes, fontes e lençóis de água subterrâneos que brotam dos vales e dos montes, terra de trigo, cevada, vinhas, figueiras e romãzeiras; terra de oliveiras, de azeite e mel; terra onde comerás pão em abundância… onde não te faltará nada” (Dt 8,7ss).
A esperança, escreve Péguy, leva Israel à posse da terra prometida. A esperança sustenta o povo a caminho  através de todas as dificuldades.  A esperança infunde coragem  diante da certeza de que um dia as promessas se cumprirão.
A mesma esperança que orienta Israel é a secreta dinâmica do Privilégio da Pobreza. Clara caminha na certeza de que Deus é fiel em suas promessas. “Não se assuste, filha, Deus,  fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras (Sl 144,13) vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor  consolador, porque ele é o nosso redentor e nossa recompensa eterna”(CtEr).  E a terra que se pode divisar para além do rio distante, é bela demais para ser trocada por um pedaço de terra avermelhada  de plagas áridas.  “Que troca maior e mais louvável: deixar as coisas temporais, merecer os bens celestes em vez de terrestres , receber cem por um  e possuir a vida” (1CtIn).
Um coração pobre
Estamos, portanto, sempre a caminho…  Não é fácil caminhar por este “deserto” é o que nos ensina a experiência de cada um. Agora parece mais difícil do que nunca porque parece que o vento árido que muda de perfil as dunas, arrancando as tendas pacientemente erguidas entre uma tempestade de areia e outra despedaça toda esperança renascida… Nesses momentos  nossos olhos ficam cheios de areia. Não podemos ver.
Para caminhar não basta o escudo da Regra que prescreve a pobreza absoluta.  Clara está bem consciente disto:” E como é estreito o caminho e apertada a porta por onde se vai e se entra na vida, são poucos os que por aí passam e entram. E se há alguns que nele andam  por um tempo,  são pouquíssimos os que nele perseveram.  Felizes, no entanto, são aqueles a quem foi dado andar por ele e perseverar até o fim” (TestCl).  Não basta um esforço de desprendimento renovado a cada dia…  Hoje, mais do que nunca, no “deserto”  resiste somente quem tiver um coração de pobre, quem viver a dinâmica da espera, quem se apresentar em estado de disposição, de fidelidade,  daquela confiança em tensão que é  precisamente a esperança…  Quando Israel se desvia, confiando mais  nas potências políticas e na segurança terrena  do que em seu Deus,  uma estranha certeza toma conta dos profetas: para que Israel volte a encontrar seu Deus será preciso perder tudo, quer dizer, todas as certezas terrenas, tudo o que insensivelmente foi ocupando em seu coração o lugar de Deus.
Ter um coração de pobre significa, nem mais nem menos, contar apenas com Deus. Portanto, não com meus talentos pessoais, nem com as reservas feitas, não com programas a realizar, não com a força do grupo, nem com o prestígio da Ordem ou do mosteiro, não com a força da tradição, nem com o passado glorioso, nem com a capacidade de organização dos outros e minha, não com o número, não com a qualidade, não com uma fonte que pode ser encontrada um pouco mais adiante na caminhada, não com a saúde de que gozo e que continuarei a ter nos próximos anos, não com a ajuda do exterior,  não com as ideias deste ou daquele.  Somente com Deus, como o “pequeno resto” da profecia: ”Deixarei no meio de ti um povo pobre e humilde: eles procurarão refúgio no nome do Senhor (Sf 3,12).
Senhor, somente tu. Tu és apoio e plenitude.  Fora de ti nada tem cor. Tudo tem tom cinzento que lembra a desesperança… “Senhor, meu coração não é pretensioso, meus olhos não são arrogantes.  Não ando à procura de grandezas, nem de maravilhas fora de meu alcance. Pelo contrário, estou sossegado e tranquilo: como criança saciada no colo da mãe, como criança saciada minha alma está em mim. Israel põe tua esperança no Senhor, desde agora e para  sempre  (Sl 130).
O “deserto”  queimou tudo em Clara. “Põe-me como um selo em teu coração, como um selo sobre teu braço” (Ct 8,6).  Depois que tudo foi queimado ficou apenas o semblante de seu Cristo,  pobre e crucificado. Nada mais.  Ele. Clara não se dispersa.  Só tem tempo para ocupar-se  com Cristo, Cristo Verbo Encarnado  que exige o amor daqueles que ele “separa” por amor.
Assim, também no “deserto”  surge um oásis que vivifica toda a Igreja.  “Já não te chamarão ‘Repudiada’ nem a tua terra de ‘Devastada’. Serás chamada, isto sim, minha querida e tua terra terá o nome de desposada. Pois como o jovem se casa com uma moça, assim o teu arquiteto te desposa, e como o noivo se alegra com a noiva, teu Deus se alegra contigo” (Is 62, 4-5). “Seu afeto comove, sua contemplação reconforta, sua benignidade sacia, sua suave plenifica, sua memória ilumina suavemente” (4CtIn).
Se Clara vivesse hoje, penso que ninguém duvidaria,  estaria muito ocupada em amar a Cristo (Verbo encarnado, criança, crucificado, próximo, que plenifica a sua vida, exige em troca o amor, um Deus que coloca sementes de escuta no coração).  Clara recriminaria menos passado que já não lhe pertence,  não  ficaria chorando o tempo presente  que só a força do amor pode redimir, não faria perguntas inúteis nem nutriria apreensões com respeito ao futuro. Estas posturas constituem  pecados contra a esperança.
Quando é que vamos compreender que não temos outra coisa a fazer senão ocuparmo-nos dele, do salvador do mundo, comprometendo-nos a fazer novas todas as coisas com aquela atenção, aquele amor, aquela fidelidade, aquela confiança que é própria de uma esposa, de uma mãe, de uma filha, de uma irmã que ama?  Quando?
Porque todo o resto,  todo,  virá por si mesmo para nós, para a Igreja e para o mundo inteiro: oráculo do Senhor (cf. Mt 6,33).
Tempo de esperar
“Há um tempo para cada coisa”, afirma o Eclesiastes (3,1): “tempo para nascer e tempo para morrer, tempo para chorar e tempo para rir, tempo para calar e tempo  para falar…”
Há também um tempo para esperar e esse tempo chegou. Agora é tempo de esperar, de esperar por todos, porque são muitos os que “experimentam o sabor” da angústia do deserto e depende em grande parte de nós, clarissas,  que escutem ou não a voz do Deus vivo.
Creio que não nos perdoarão muitas coisas; de uma certamente  pedirá contas Aquele que se  definiu como “esperança de Israel” e que nos tirou do nada para que fôssemos  filhas de Clara  nesses anos:  se soubemos ou não  manter viva a esperança no coração do mundo, no coração da Igreja, a esperança em nossa terra que parece estremecer de desesperança  em sua profundidade  e se  deixa levar por  “fugas” rumo a horizontes ilusórios; se soubemos ou não devolver o verde  à esperança desalentada dos homens,  a esperança da Igreja, a esperança franciscana, acovardada diante de enormes problemas de evangelização no exterior e de autenticidade no interior.  Quantas defecções, quantas quedas ou acomodações por falta de esperança!
 Sim, para nós, clarissas, é tempo de sustentar, com um coração pobre, apoiado  somente em Cristo, a esperança universal.
Não se nos perdoará o pecado contra a esperança, pecado que poucas vezes se manifesta em gestos trágicos, mas que atinge a vida de modo sutil, quase que sem nos darmos conta;  que nos paralisa, que nos faz perder tempo com problemas secundários (a única “questão”  não marginal é Ele).  Atinge também nossa vida quando buscamos  posições mais cômodas.  O pecado que lança sementes de  desilusão e desconsolo, que rói o entusiasmo do dom e o solapa com uma infinidade de “se”:  “se houvesse vocações”;  “se tivéssemos com que sustentar a casa”; “se tivesse saúde”. Esse pecado  tira a alegria de  ir adiante como peregrinos, numa caminhada cheia de confiança no  Deus da salvação, deixando-nos ser alavancados pelo Espírito; esse pecado nos faz regredir por meio de inúteis lamúrias. Esse  “antigamente sim que…” seca o canto nos lábios, extirpa a alegria do coração e onde há fervor, faz se instalar a apatia.
Não há vocações, não se tem saúde. Que importa? Será que por estas razões deixamos de estar nas mãos de Deus ou sua sombra deixou de nos cobrir?  Ou será que neste tempo, como aconteceu com Clara, o Senhor não estaria pedindo de nós  “um salto no vazio”, um abandono sem limites a seus desígnios misteriosos?
Senhor, confio em Ti!  Perdoa-me  por este meu duvidar, que marca minha vida de desalento e de tristeza.  Tu és a minha esperança!  “Tens na mão a minha sorte” (Sl 15,6).
Nós, clarissas, deveríamos ser, neste momento, aquelas que cantassem para o Povo de Deus, para Ordem Franciscana e para o mundo o  Cântico de Isaías (cap. 26). “Temos uma cidade forte, para segurança ele colocou muro e antemuro. Abri as portas para que entre uma nação justa que guarda a fidelidade… Confiai no Senhor sempre, porque o Senhor é uma rocha forte pelos séculos”.
Sim,  em nossas mãos está, desde que queiramos nos servir dela,  toda a força dos pobres, aquela força que  “obrigou” a Deus voltar-se para Clara, inclinar-se sobre sua  pobreza, sobre seu denso silêncio de espera e de confiança:
Dá-nos, Senhor, um coração de pobres e dilata  nossa capacidade de esperar, para que em nós possa  pulsar a esperança de todos os povos! Por nosso Senhor Jesus, Amor pobre, espelho da Senhora Clara.
fonte:http://www.franciscanos.org.br/n/?p=16361

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O canto de uma vida

Os últimos momentos da vida de Clara de Assis

 Irmã Catherine Savey, clarissa, publicou  na revista Èvangile  Aujourd’hui  (n.194. 2002, p.6-11)  um texto  descrevendo os  últimos  momentos  de Clara e tecendo considerações a respeito da cultura da morte da Idade Média.  Querendo continuar nossa preparação para o oitavo centenário da forma de vida de Clara acreditamos ser proveitosa para todos  a leitura deste texto.  Substancialmente é o texto de  Irmã Catherine, com algumas modificações e adaptações.
 Para melhor captar o alcance  da frase de Clara:  “Obrigado, Senhor, por me teres criado”, necessário se faz colocá-la no seu contexto histórico.  Ela  é a conclusão  das palavras de encorajamento que Clara dirige a si mesma antes de morrer.  A morte na Idade Média tinha um alcance sociológico considerável, tanto por ser frequente, como também devido ao número de  pessoas que cercam  o  moribundo e todo o quadro ritual que acompanha o final da vida. Os últimos dias de Clara  e o relato que deles fazem as testemunhas estão impregnados desta cultura.  As últimas palavras de Clara constituem o fecho  desta liturgia num canto de louvor  que resume e dá sentido a toda sua vida.
“Obrigado, Senhor, por me teres criado”. Muitos citam esta frase de Clara e,  as mais das vezes, é a única palavra da Plantinha que conhecem. Um pouco como aquilo que acontece  com a imagem de Francisco com os passarinhos. De acordo que tudo isso  respire a alegria, o frescor, o louvor do Criador. Tudo pode ser correto, mas o contexto dá um peso diferente aos propósitos de Clara.  Estamos praticamente com suas últimas palavras.  Necessário situá-las em seu contexto.
Na verdade, a frase é conclusão  da oração pronunciada por Clara no fim de sua vida.  A passagem se situa em capítulos que relatam os últimos dias de Clara e comporta dez parágrafos do total dos vinte e nove de sua biografia, o que denota a importância desses  últimos instantes para seu biógrafo Tomás de Celano.  Uma tal constatação pode talvez nos causar surpresa.  Os hagiógrafos da Idade Média, no entanto,  tinham consciência de que a morte é mais do que o fim da vida. É, na verdade, sua conclusão, o instante que dá sentido a toda uma existência.
Para melhor compreender as páginas que cercam a frase “ Obrigado, Senhor, por me teres criado” e assim tentar compreender a plenitude de seu significado  parece oportuno  ver como se situava a morte na cultura da Idade Média.
A morte na Idade Média
Na Idade Média, a morte não causava surpresa.  Ele acontecia com  muita frequência ques que se tornava alguma coisa familiar.  Mesmo se o século XIII  tivesse sido uma época de prosperidade em que as epidemias perdiam  a amplitude que ganhariam no século seguinte,  podemos  dizer que Clara e Francisco viveram um tempo em que a realidade da morte estava sempre presente.  Muitas crianças morriam muito cedo, não poucas mulheres  morriam no parto. As doenças também ceifavam  adultos na plenitude de suas forças e homens sucumbiam em plena juventude nos campos das guerras.  Além disso, a morte  não era um acontecimento  pessoal e escondido como acontece em nossos dias. Tinha um cunho eminentemente social.  O moribundo era cercado de  orantes  (carpideiras), os funerais se revestiam de solenidade, o falecido era confiado à intercessão dos monges.
Nessa época em que a fé era inquestionável, o problema  não consistia em saber se existia vida após a morte, mas se a pessoa que morria estava em condições de  entrar no paraíso.  A representações do juízo que adornavam os portais das catedrais  construídas nesta época testemunham esta preocupação pela salvação eterna.  A angústia  que brota da morte corporal era potencializada com o medo do castigo eterno.
Tendo em mente o que dissemos,  compreende-se  a importância dos últimos instantes, ocasião em que o moribundo pode se reconciliar com a misericórdia divina.  Aconselhava-se que, então, ele  fizesse “donativos” para a celebração de missas e a recitação de orações pelos religiosos, que ele  fizesse  confissão geral de sua vida, recebesse o viático, “alimento para o caminho” até o paraíso e penhor de vida eterna, de ser acompanhado ao longo da agonia da oração ininterrupta da família e de pessoas que acorriam para  prestar assistência ao que morria.
Se todas as condições mencionadas fossem cumpridas, poder-se-ia mesmo esperar que uma legião de santos e anjos  viesse escoltar o defunto, ajudando-o em sua ascensão ao céu e assim atravessando ileso o ar enfestado de demônios.
Assim sendo feito, os funerais podiam se dar.  Mesmo  para   os pobres  os funerais eram solenes.  Havia festa para celebrar na alegria o começo de uma nova vida.
O que acabamos de dizer parece distante da ação de graças de Clara.  Em tal contexto, no entanto, é que devemos situar esse obrigado pela vida que sai dos lábios da santa.
Os últimos dias de Clara
A “Vita”  de Celano e os testemunhos do Processo de canonização de Clara estão, com efeito, impregnados desta cultura.
Certamente, a morte era familiar a Clara e seus contemporâneos:
• As taxas  de mortalidade não deveriam ser menores em São Damião  do que em outros lugares. Clara assistiu algumas irmãs  em seus últimos momentos. O  Processo  faz alusão a várias dentre elas.
• O Ofício dos Defuntos era recitado frequentemente em São Damião,  talvez mesmo todos os dias como faziam os cistercienses, mas certamente durante vários dias após a morte de uma irmã. Ele lembrava que a presente vida nada mais do que uma etapa para a eternidade.
• As cartas de Clara dirigidas a Inês de Praga  falam de seu desejo ardente de ir ter com o Senhor no Reino.  Tal pensamento era mais do que uma simples manifestação de fervor. Era, de verdade, uma  real probabilidade diante  da prolongada doença de Clara.  A morte poderia ser realidade  a se concretizar num breve espaço de tempo.  Por duas vezes (em 1224 e 1251),  as irmãs temeram pelo pior.
No dia 5 de novembro de 1251,  a corte pontifícia  chegava a Óstia.  Depois se dirigiria  a Perusa. O cardeal Rainaldo, bispo de Óstia e cardeal protetor da Ordem, ficou sabendo do agravamento da enfermidade de Clara. Veio fazer-lhe uma visita, trazendo-lhe a comunhão. Clara pede que ele consiga do Papa a aprovação da Regra.  No ano seguinte, o Papa e os cardeais  passam de Perusa a Assis.  Clara está cada vez mais fraca. “Juntou-se nova fraqueza a seus membros sagrados gastos pela velha doença…” (Legenda, 41).  Inocêncio IV  foi visitar  a serva de Cristo  e deu-lhe a absolvição  plena e a graça de uma ampla bênção.  Depois, a Plantinha recebeu a comunhão das mãos do ministro provincial.
A morte não deveria tardar.  Clara não se alimenta mais e sofre.  As irmãs  fazem vigília noite e dia, sempre chorando.   Clara pede a presença de padres e de santos frades para que lhe leiam a Paixão. Frei Rainaldo, sem dúvida seu confessor, e os primeiros companheiros de Francisco: Junípero, Leão, Angelo de Rieti acompanham os lamentos das irmãs e em suas preces.  Cercada de tão ilustres personalidades, irmãos sacerdotes, foi a Frei Junípero,  sabidamente homem de coração extremamente singelo, que  Clara pergunta “se existe alguma coisa nova para aprender a respeito do Senhor”.  Essa insaciável Clara!  “Ele abriu  a  boca e deixou sair centelhas ardentes da fornalha do fervoroso coração.  E a virgem de Deus  ficou muito consolada com suas parábolas”.
Não restava a Clara outra coisa senão, uma vez mais, recomendar  às suas irmãs o amor pela pobreza e lembrar-lhes os benefícios com os quais o Senhor as havia cumulado.
Clara parece  preparada para a grande partida. Tem consciência de que em poucos minutos estará sozinha, face a face com seu Senhor.  Há muito tempo ela desejava  que esta hora chegasse. Como muitos que estão às portas da morte, como o próprio  Jesus, parece que ela se vê tomada de angústia e ela mesmo se exortava  à confiança.  A virgem muito santa, voltando-se para si mesma, diz baixinho à sua alma: “Vá segura, que você tem uma boa escolta pelo caminho. Vá, diz,  porque aquele que a criou também a santificou e guardando-a sempre como uma mãe guarda o filho, amou-a com terno amor.  E bendito sejais, Vós que me criaste”
O canto de uma vida
Para ganhar confiança, Clara  repassa interiormente todo o desenrolar de sua vida, dando-se sempre conta da  presença  constante e amorosa do Senhor ao seu lado:
Foi ele que a havia tecido no seio de sua mãe (Sl  138,13), e que  antes de seu nascimento  garantiu a Ortolana angustiada com a proximidade do parto com todos os seus eventuais perigos  que tudo sairia bem. Esse Deus havia garantido a sua mãe que a criança que ela carregava em seu seio irradiaria a luz de Deus  (Legenda 2).
• Foi o Senhor que a fizera nascer  para vida divina no dia de seu batismo quando recebeu o nome de Clara, lembrando a graça recebida por sua mãe.
• Ele é que a ensinou  a conhecer e a amar quando Ortolana falava dos relatos evangélicos, envolvidos nas lembranças de sua peregrinação à Terra Santa.
• Foi o Senhor que havia colocado bem cedo no seu coração o desejo de lhe pertencer de maneira total.
Redigindo seu Testamento, alguns  meses antes, Clara já havia  evocado o encadeado da história maravilhosa de sua via com Deus  com o intuito de fazer sua ação de graças:
• Foi o Senhor que a chamara para esta vocação, da qual ela conhece a grandeza ( Test.  2 e 19-21).
• Foi ele, pelo Espirito Santo, que inspirara a Francisco quando o santo restaurava a igreja de São Damião, a predição de que ali viveriam religiosas que  glorificariam a Deus ( Test. 11-14 e 31).
• Foi o mesmo  Senhor que iluminou seu coração  para que ela abraçasse essa forma de vida segundo o exemplo e as palavras de  Francisco ( Test  24 e 26).
• Foi ele que a levou a São Damião ( Test  30).
• Foi ele que lhe deu irmãs  e as multiplicou constituindo “este pequeno rebanho”  na Igreja (25, 31 e 46).
• Esse mesmo Altíssimo sempre  atendeu às necessidades das irmãs  encaminhando-lhes esmolas (Test  64).
•Ele foi o seu consolador, seu apoio, através de Francisco  que foi jardineiro e cuidador da pequena plantação (Test  38 e 48).
• Foi ele que, na pessoa de Francisco,  foi o seu caminho e a ensinou as sendas da pobreza e da humildade ( Test  57 e 74).
• Ele, finalmente,  resume Clara, que deu o começo, o crescimento e a perseverança ( Test  78).
Quando lemos  assim o Testamento  ficamos impressionados em constatar a que ponto o olhar de fé faz com que Clara descubra em tudo  a presença amorosa de Deus  que ela encontra  nos pormenores da vida de todos os dias.
Poucos dias antes ela havia recebido do Senhor um último presente: a tão desejada aprovação de sua  Regra pelo Papa Inocente. Durante toda a sua vida, Clara batalhara para conseguir o direito de seguir o Cristo na pobreza (toda a luta para conseguir o privilégio de não ter privilégios).  Insatisfeita com as regras que sucessivos papas  lhes atribuíam sem o privilégio da pobreza, ela própria redigiu sua forma de vida.
Irma Filipa diz no  Processo:  “Como desejava ardentemente que a regra da Ordem fosse bulada, mesmo que tivesse que colocar esta bula um dia e morrer no dia seguinte, assim lhe aconteceu que veio um frade com a carta bulada, que ela tomou reverentemente e, embora estivesse à morte,  colocou ela mesmo aquela bula na boca para beijá-la.”  (Proc  3,32).  A bula pontifícia data de 9 de agosto, antevéspera da morte de Clara.
Na verdade, Clara podia partir com toda segurança  porque aquele que a acompanhará para além das angústias da morte e a protegerá das últimas invectivas do demônio, seu guia para o caminho, foi Aquele que a criou, santificou, guardou, amou ao longo de sua existência com um terno amor, como uma mãe ama seu filho!
Num último suspiro, Clara resume o canto de sua vida:  Obrigado, Senhor, por me teres criado”
fonte: http://www.franciscanos.org.br/n/?p=10528
Frei Almir Ribeiro Guimarães

sexta-feira, 20 de abril de 2012

A figura de Nosso Senhor Jesus Cristo


A figura de «Nosso Senhor Jesus Cristo» é a chave para compreender todo o percurso de S. Francisco, bem como de todos os santos. O santo de Assis não teria sido o que foi, não teria feito o que fez, se Cristo não estivesse presente, operante, como amigo e companheiro.
O agir de Francisco não é filantropia, cálculo, programa; o agir do santo é Fé, adesão de todo o coração à Pessoa de «O Senhor». Sendo certo que o seu amor a todos os homens e a todas as criaturas, o ponderar do seu atuar e do todo da sua vida, o plano muito concreto e evangélico de vida, o seu ser e o seu trabalho são fé, expressão de fé, um abandono e confiança total n´Aquele que por nós morreu e ressuscitou. A primeira preocupação de Francisco não é o homem, a natureza, a Igreja ou ele mesmo; a primeira preocupação de Francisco é Cristo. Ele é o centro e por Ele chega a tudo o mais, aos homens seus irmãos, à obra da criação, à Igreja, e a ele mesmo. A razão do agir de Francisco é Cristo que o leva ao Pai, que lhe alarga os horizontes, rompe o tempo e o lugar, faz brotar desejos de eternidade e de a todo o lugar chegar para levar a boa nova, inclusive o desejo de se encontrar com o Sultão. É o Senhor o eixo à volta do qual tudo em Francisco gira, é a referência constante para agir, pensar, viver. É Ele o modelo supremo a imitar. Tanto assim que foi chamado «alter Christus» outro Cristo, tanto mais ele mesmo quanto mais próximo de Cristo.
O único mestre que orienta Francisco é Cristo: (cf. LM II, 1) «ninguém me dizia o que devia fazer, mas o mesmo Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do Santo Evangelho» (Test.14). As palavras, os gestos, o número de companheiros, o estilo de vida, bastam para perceber esta centralidade de Cristo na vida de S. Francisco; e se mais fosse necessário para provar este estilo de vida que quis para si e para os seus companheiros, lá estavam as chagas impressas no Monte Alverne a provar isso mesmo: identificação com Cristo pobre e crucificado.
Importa então saber que Cristo é este que move e polariza toda a vida e pessoa de Francisco. Quem é Este que enamorou Francisco e por quem Francisco se enamorou? Que imagem de Jesus se gravou fundo na mente e no coração do pobrezinho de Assis? Foi o Cristo do Evangelho que ele escutava religiosamente no Oficio Divino e na celebração da Eucaristia, o mesmo Evangelho que ele proclamava como diácono, crendo o que lê, ensinando o que crê e vivendo o que ensina. São os Santos Evangelhos a fonte do conhecimento de Cristo. Outra fonte é a Igreja na sua própria liturgia, os Santos Mistérios celebrados na catedral de Assis ou nas pequenas igrejinhas por onde passa e pernoita, e o grande Cristo em S. Damião. Um Cristo vivo de olhos grandes e abertos, centro de um mundo ordenado para a Paz, o Cristo da misericórdia, o Cristo da cruz e do deserto em fortes Quaresmas de intimidade com o Pai, um Cristo presente nos sacerdotes «que vivem segundo a norma da santa Igreja Romana, pelas ordens que têm» a quem Francisco quer temer, amar e honrar como a seus senhores, pois eles aos demais administram o santíssimo Corpo e Sangue, as santíssimas palavras divinas, os santíssimos mistérios que devem ser honrados e colocados em lugares preciosos. Um Cristo simples e trabalhador com as suas próprias mãos, que quer que todos os homens trabalhem, não pela cobiça de receber o preço do trabalho, mas para dar bom exemplo e para repelir a ociosidade, inimiga da alma. O Cristo humanado no seio da Virgem Maria, Senhora pobrezinha, nascido na doçura do presépio de Belém, um Deus próximo ao mesmo tempo que distante, o irmão e o Altíssimo, o pobre e o Rei do Reis. Nada disto é teórico, especulativo, puro fruto do pensamento desencarnado da realidade. É muito concreto, vivido, sentido na fragilidade da própria carne pecadora de Francisco.
O Cristo que se dá a conhecer a Francisco na Sagrada Escritura, na liturgia, nas igrejas, no crucifixo de S. Damião, nos pobres e nos irmãos, comporta em si a altura da sua Majestade Divina, «Altíssimo e Glorioso», e a sua humanidade crucificada, o Senhor Altíssimo (LD, 2): é o Cristo servo que se humilha, «cada dia vem até nós, pelas mãos dos sacerdotes, como quando baixou do seu trono real a tomar carne no seio da Virgem; cada dia desce do seio do Pai, sobre o altar». O Senhor «rei omnipotente» é o servo sofredor cantado no Ofício da Paixão e visto claramente no leproso; o Senhor da Glória é o Cristo da cruz, o «Soberano Deus» é o Cristo mendigo e peregrino que vive de esmolas com a Sua Mãe e os seus discípulos (1R9, 5.6). Estas duas realidades de Cristo, Francisco captou-as muitíssimo bem ao ver n´Ele o Altíssimo e o Baixíssimo.
O próprio modo como S. Francisco se refere a Jesus é, já por si mesmo, muito revelador da imagem que ficou gravada no seu espírito. Quase sempre lhe chama «Nosso Senhor Jesus Cristo». É nosso, porque Francisco sabe que não possui nada, muito menos Aquele que tudo possui e que o possui a ele. É nosso porque é de todos e para todos os homens; foi dado não ao anónimo da multidão mas a cada um em particular e a todos totalmente como filhos de um Pai comum no Filho. É Senhor, muito possivelmente à imagem dos senhores feudais da época, mas com um senhorio que vai para além desses senhores que são servos; é o Senhor dos senhores, a quem a reverência não anula a proximidade e quanto maior a reverência maior essa mesma proximidade. Não é um Senhor tirano e déspota que deseja a guerra, mas um Senhor revestido de mansidão e misericórdia, que é a justiça para lá de toda a justiça. O ideal do trovador cavaleiresco não se despegou da maneira de ser de Francisco, que continua a ser o servo do Grande Rei, escudeiro do Senhor Altíssimo, e esta referência de poder dá-lhe profunda liberdade, ao mesmo tempo que grande confiança na proteção daquele que vela pelos seus amigos. Outro tipo de obediência é devida a este Rei, outro tipo de rei. Onde a batalha não deixa de ser sumamente exigente, mas outro tipo de batalha, com outro tipo de armas, a mesma preocupação pela libertação de cada homem numa vida de santidade agradável a Deus. Outras armas, que não as da guerra, entre senhores temporais: as armas da mansidão e do Evangelho, da reconciliação e do anúncio de uma fraternidade de iguais, todos necessitados desta força salvífíca que reconstrói o homem. O termo «Jesus» nunca aparece nos escritos de Francisco isolado; ou está acompanhado do adjetivo «Senhor» ou na longa enunciação de «Nosso Senhor Jesus Cristo», a universalidade do senhorio de Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Não há cedências nem à humanidade que Cristo encarnou, nem à divindade que Jesus é. Não há uma espiritualidade fácil e simplista de divisão e de fuga, refugiada numa divindade distante e espiritualizada, alheia ou mesmo adversa à obra da criação, como não há um materialismo fechado no mundo infraceleste sem o horizonte da eternidade. Há uma continuação clara, uma ligação evidente, entre o Jesus, na sua mais doce humanidade, e o Cristo na sua mais luminosa divindade. Em tudo a proximidade do olhar de fé e do toque das mãos que cuidam.
Quanto mais Francisco se aproxima de Cristo, mais tem a perceção clara da sua distância e da altura d’Aquele que por nós, pobres pecadores, sofreu a paixão de cruz. Desta distância não brota a desconfiança, desapego, alheamento ou a rejeição de algo que nunca se pode alcançar, mas a reverência, o reverente temor de obediência filial. Quanto mais percebe a majestade de Cristo, mais se dá conta da sua pequenez, quanto mais medita no abaixamento do próprio Senhor, mais se dá conta da Sua altura. Esta aparente contradição: quanto mais próximo mais distante, quanto mais baixo mais alto.
Também sabe Francisco que quanto mais ele mesmo se humilha mais se levanta, quanto mais se abaixa mais é levantado, quanto mais reconhece a sua fragilidade mais é atraído pelo forte, «o mais forte» que é Cristo. É o mistério do abaixamento e exaltação que S. Paulo descreve no seu hino.
Em tudo a disponibilidade do encontro, o deixar-se guiar pelo Espírito que nele habita pelo «espírito de santa oração e devoção, ao qual todas as demais coisas devem servir». É conduzido pelo Espírito que Francisco entra e permanece dentro da Igreja, na comunhão como o «Senhor Papa» a quem promete obediência e reverência em fé verdadeira que é a fé da Igreja. Ele já tinha entrado, mas agora permanece, e quer que todos os seus irmãos permaneçam; ele permanece porque lhe foi dado um lugar, foi-lhe atribuída uma missão. A experiência de Cristo é também a experiência de Igreja que Francisco faz, do mais sublime e santo, do mais fraco e desprezível, a graça e o pecado, a graciosidade de Cristo contrastante com a fragilidade da carne sujeita ao pecado da desobediência, o afastamento do redil. Mas apesar do que parecia aos olhos da carne desprezível e vil, Francisco não abandona a Igreja, pois sabe que é nela que Cristo mora, ainda que essa igreja esteja tão em ruínas e abandonada como a velha e solitária igrejinha de S. Damião. É guiado pelo Espírito que Francisco entra um dia para orar em S. Damião. Todo ele reza, reza com o coração, com a mente e com o corpo, ora com o coração de forma devota, com a mente em fortes súplicas e com o corpo pela maneira como se prostra aos pés do Crucifixo. Esse grande crucifixo do grande Cristo rodeado dos santos abrangendo todo o mundo, vivo e com as marcas da paixão, que o invade «tomado de um modo extraordinário pela graça divina que o torna completamente diferente do que era momentos antes» (2C 10). Quando entra Francisco na Igreja para não mais sair? É demorado o seu processo de conversão, leva o tempo da purificação, o purificar a vontade e a inteligência, o sujeitar o corpo à disciplina do jejum, o limpar os sentidos para ver bem o que só bem se vê com a pureza de coração. É a própria imagem de Cristo que leva tempo a purificar pelo despojar dos fantasmas, das mundanas imagens de glória e vã glória. Quando entra Francisco na Igreja para não mais sair? Quando descobre que tem muito para descobrir na verdade do Senhor que o atrai a Si.
E o olhar olhos nos olhos, o face a face, de quem se deixa olhar e convocar pela voz de uns lábios despregados que falam, chamam, dirigem-se não a uma multidão anónima mas ao concreto de uma pessoa, «chamando-o pelo próprio nome: ´Francisco´». Porquê «Francisco» se o seu nome de Batismo era João? Que lhe reconhece Jesus para o tratar assim, «pequeno francês»? Como que o «crisma» de quem confirma a sua sensibilidade apurada e provençal herdada de sua mãe, o reconhecimento de uma radical transformação que comporta em si mesma a mudança de nome, já antes operado pelo desejo opulento de seu pai. Seria porque Francisco já não se identificava com o nome do Apóstolo ou do Batista, uma remota lembrança de um sacramento administrado na ausência paterna, de tão habituado que estava a ser tratado, chamado, pelo doce nome de sabor a terras distantes, conhecidas pelos seus comércios de finos panos e mornas melodias de amor cortês. Designado por um nome novo, confirmado na sua personalidade sensível, é uma nova criatura que nasce sob o olhar e a voz do Senhor.
Este ser objeto de uma voz, alvo de uma atenção, incidência de um olhar cheio de misericórdia, desmonta Francisco, deixa-o ele mesmo em ruínas, «pasma, treme, quase perde os sentidos e não atina resposta». As suas antigas seguranças desaparecem, deixa de se fiar de si para se voltar para Aquele que já não é somente uma imagem pintada num belo retábulo, ou uma ideia bonita numa letra impressa, mas Um que se desprende e se mexe, fala-lhe, sai uma Voz. Tem diante de si uma representação de Cristo, vê milagrosamente uma Pessoa. A iniciativa não é de Francisco, inaudito milagre. A novidade da ação do Alto, da pintura sai a Pessoa, da letra sai o Espírito, tem diante de si Cristo que se dirige a Ele. Num repente, um instante único, um momento de graça que deixa na sua alma a perfeita consciência de ser amado por Deus, olhado por Cristo, habitado pelo Espírito. Tudo o mais é busca e aprendizagem, isto é certeza de fé. Francisco passará toda a sua vida a reconstruir. Primeiro a reconstruir-se a si mesmo, ele que tinha ficado em pedaços com aquele encontro, passa a sua vida a recolher pedras para a igreja, ocupa-se em identificar-se cada vez mais com o Senhor. Quer ser como Cristo e por isso o imita na sua forma de vida simples, pobre, casta e obediente, toma Maria, «Senhora dos Anjos», por mãe do seu grupo também ele de doze, como os Apóstolos.
Francisco sabe agora que recebeu um encargo: ser colaborador de Cristo na obra da regeneração e restauração da Igreja, sabe também que a casa é d´Ele, do Senhor que nela mora. Francisco não é o dono da casa mas o servo do Grande Rei. Um encargo lhe foi dado, um sagrado e verdadeiro encargo, uma missão.
Do encontro uma coisa fica fortalecida em Francisco: a sua vontade. A vontade firme e tenaz de obedecer imediatamente à ordem recebida: «nada mais queiramos, nada mais desejemos, do que fazer a sua santa vontade». Não sabe bem por onde passa essa obediência, vai descobrindo com o tempo, falhando umas vezes, afinando outras, buscando sempre. Está interiormente fortalecido, e concentra todas as forças para executar essa vontade que não muda, mas que cada dia se vai descobrindo mais profundamente. É a espontaneidade de Francisco, a inspiração do momento, é a descoberta de cada vez dos contornos dessa vontade que não se coaduna com o já estabelecido, mas reveste-se de coisas sempre novas: «Eis que vou renovar todas as coisas». Francisco não se refugia na inteligência para perceber o que aconteceu e o que deve fazer. Não tematiza para se desculpar, não se senta à secretária para programar, reza e faz. «Nem ele mesmo conseguiu alguma vez exprimir a inefável transformação sofrida nesse instante». Há neste olhar um «segredo», qualquer coisa de indizível, secreto, íntimo sem ser intimista, guardado no coração do coração de Francisco que foi tocado, fortalecido, olhado, chamado e enviado. Uma intimidade de tal ordem que nem as palavras perturbam ou podem perturbar. A linguagem é agora ação obediente. E o diálogo sem mais palavras do que as que saem de Cristo. O Senhor fala e o servo que ouve responde não com frases, perguntas, objeções, questões ou outras teorias. A resposta de Francisco é feita de obra e louvor. Pedra sobre pedra, das pedras recolhidas do mendigar pelas portas, frases da Sagrada escritura recolhidas pela meditação e memorizadas, tudo posto e sobreposto, erguido até ao céu, para o alto, sem o cálculo de um engenheiro mas com a beleza de um poeta. A resposta de Francisco é a sua vida, o seu trabalho, o seu cantar melodioso de apaixonado, como aquele que sente em si a paixão.
Inaudito milagre. Nunca ouvido nem relatado acontecimento. Nunca se tinha ouvido tal coisa. Não se contou que alguma vez tal coisa tenha acontecido. Um milagre, a dúvida das explicações, a incerteza do acontecimento que escapa radicalmente à lógica natural das coisas. Não teria sido aquela voz, aquele mover de lábios, fruto da imaginação do penitente e macerado Francisco? Estava sozinho. Só. Não foi outro nem para outro. Não havia testemunhas, cronistas ou biógrafos que relatassem e testemunhassem a verdade do acontecimento. Ninguém para fazer suspeitar que tenha sido outro que não Cristo a falar, ninguém para lhe deixar a dúvida se seria mesmo para ele ou para outro que ali estivesse. E não havia testemunhas que o confirmassem no que acabava de ouvir. Não havia mais ninguém para o chamar ao mundo dos acordados, dos supostamente lúcidos e despertos. Uma solidão que não deixa marcas para a dúvida: «Francisco» é ele, não outro, não o seu vizinho, há mais Franciscos, mas não estão ali. É para ele, com certeza, a certeza da fé, que Alguém fala, é a ele que Alguém se dirige. Mas como, se não há mais ninguém por perto? Só Francisco e um vetusto crucifixo numa igreja abandonada e de todos esquecida, ameaçando ruínas. «Onde houver dúvida que eu leve a fé»; perante tantas e tão grandes dúvidas, duvidando do seu próprio juízo, Francisco convoca a fé e acredita que Alguém lhe fala, a ele, só a ele, para ele. Acredita n´Aquele que o crucifixo pintado evoca e que tantas vezes lhe falou nas letras dos Evangelhos. Talvez estas dúvidas o voltem a assaltar e Francisco se pergunte da razão de ser que move a sua vida. Tentado nos momentos de desânimo e desapontamento, talvez dê ouvido a estas dúvidas, e baixando os braços deseje uma outra coisa mais lógica, mais realista ou convencional. É nestes momentos de densas trevas que brilha a ténue luz da fé, uma certeza de confiança n´Aquele que tem nas suas mãos o governo deste mundo, o sustento de todo o ser vivo.
Algo se enraíza tão entranhadamente em sua santa alma, Alguém tomou conta de Francisco e se entranhou nele, Cristo. Ficou tomado, a partir de dentro, pela paixão do Crucificado, uma paixão pela Paixão, uma entrega ao Entregue, no segredo daquele que todo inteiro se entregou nas mãos do Pai.
Fortalecido na vontade de seguir o Senhor para onde quer que Ele vá, não se sente dispensado de usar todas as potências da alma. A vontade fortalecida pelo olhar do Cristo que o olha impele-o a também ele abrir bem os olhos: «vai e repara a minha casa que, como vês...». Olhar e ver, a atenção ao Cristo que passa, e ao que se passa à sua volta para tudo ver com os olhos interiormente renovados, os olhos do Crucificado, um olhar de paixão sobre tudo e todos. Francisco, mais do que um contemplativo, é um atento «olhador» das realidades que o circundam e que o remetem para o próprio Cristo. Por isso tudo lhe falava de Cristo e ele a todos falava do «amor que não é amado». A pedra, a fonte, a ovelha, o pastor, o burro e a vaquinha, tudo, naquele olhar interiormente purificado, o remete para o Senhor. É um altíssimo contemplador das coisas criadas, porque para tudo e todos olha com o olhar com que foi olhado, o da misericórdia. Aquele «segredo» que o envolve num instante sublime, «inaudito milagre», trespassa-o e entranha-se para não mais o largar. É a experiência da misericórdia que está para lá de todas as formalidades, juízos humanos e aparências. Um encontro que lhe fica gravado a fogo no coração para não mais se apagar, a que Francisco recorre constantemente no fortalecimento da sua vocação e missão.
Francisco não tem do mundo uma imagem exagerada. Não é ingénuo pensando que tudo é bom e inofensivo. Ele sabe que há lobos que necessitam de reconciliação. Não é um otimista desencarnado, nem tão-pouco um pessimista desesperado, incapaz de reconhecer os sinais da bondade divina que tudo preparou para os seus filhos. Há o perigo de pintar o mundo a preto e branco, os bons e os maus, os que são a favor e os que são contra, os amigos e os inimigos, os cristãos e os muçulmanos. Há também a tentação de pintar o mundo com as cinzentas cores da indiferença, um crepúsculo sem cor, uma uniformidade no grisalho medíocre, pesado e triste. O mundo de Francisco é colorido, como são fortes e luminosas as cores do Cristo que o olha no crucifixo de S. Damião. Está longe de Francisco a nossa visão da Idade Média como um tempo de trevas e escuridão obscurantista, uma quase civilização mergulhada no nevoeiro da sujidade, doença e ignorância. Ali há cor, alegria, vida, cântico e louvor. Francisco é realista, esperançadamente realista. Com a sabedoria do Pai das luzes ele sabe ver o negro do pecado, o vermelho da paixão de Cristo, e todas as cores que o rosto radiante do Senhor põe a descoberto. Percebe claramente que a situação do homem está longe da perfeição, que o homem ameaça ruínas: «está quase em ruínas» ouviu ele da boca de Cristo. E por isto, todos sem exceção, e ele mais do que todos, precisam de conversão, do remédio da penitência que opera a transformação, abre os olhos e dá sabor à vida: «Deus, nosso Senhor, quis dar a sua graça a mim, o irmão Francisco, para que começasse a fazer penitência (...) e o que antes me parecera amargo converteu-se para mim em doçura de alma e de corpo» (T 1, 3).
É a «casa» que está em ruínas. O lugar do encontro e do acolhimento dos que chegam como hóspedes, mas a quem importa dar um lugar à mesa. A casa da humanidade que é o mundo, a ecologia, a casa dos cristãos que é a Igreja, a casa do Espírito que é o próprio homem. É a casa que está em ruínas. São as relações do homem com o outro homem, do homem com Deus, que ameaçam fendas, desmoronar, cair, o caos da desordem, a confusão da loucura, o emaranhado de interesses. Repara, como quem para para rever, olha e vê, vê para reparar e refazer o que o abandono desfez. Restitui ao uso para o qual foi feito o que estava em desuso, devolve à memória o que tinha caído em esquecimento, volta a colocar no roteiro dos povos um lugar de encontro que tinha estado abandonado. São as divisões dentro da Igreja e do próprio homem, é a consequência do pecado, é a guerra que o homem trava dentro de si mesmo. «Iluminai as trevas do meu coração». Francisco pede um olhar limpo e límpido que lhe permita reconhecer as belezas de que está envolvido, pede a clarividência, o discernimento e a ciência, a sabedoria do coração para ver bem, ver claramente à plena luz do dia, a sua própria realidade, sem defeito de visão, sem aumento de exagero, sem defeito de olho míope e curto. Ver bem com o coração para saber onde está a ruína, onde é preciso atuar. Ele sabe que o homem está doente, sabe qual é a sua doença, e, sabedoria dos santos, sabe qual é o seu remédio: o amor de Deus.
A perfeita saúde do corpo e da alma dá Francisco um nome, Paz. Paz e Bem, a reconciliação dos homens irmãos juntos ao mesmo Senhor que a todos atrai. Faz disto também a sua bandeira: «esta saudação me revelou o Senhor que disséssemos: O Senhor te dê a paz» (Test. 23). O reconhecimento das diversidades cromáticas de cada um como uma riqueza para o mundo. A diversidade de sentires, o complemento de todos que fazem o frade perfeito, a humanidade capaz de avançar num progresso humano, verdadeiramente humano porque divino.
Mas o trabalho de Francisco é animado pela certeza da fé de ver um dia a pobre e abandonada igrejinha de S. Damião, a Igreja e o Homem, perfeitamente reconstruída, limpa e habitada, cumprindo a missão para a qual foi construída e sonhada. Francisco, mais do que otimista, é homem de esperança, quer levar a bom termo o sagrado encargo que recebeu. Sabe e sente que isso é possível e por isso deita mãos à obra. Não há nada que o homem não possa fazer com as suas mãos se tiver a força do Alto e a graça de Deus. O trabalho que lhe é pedido é possível de acabar, talvez seja demasiadamente pesado para um só homem, mas ele tem tempo e o Senhor dá-lhe companheiros. Homens de todo o tempo e lugar, povos, línguas e nações se juntam a Cristo, por Francisco, na construção de uma nova fraternidade.
Tudo partiu e parte de um olhar que a cada momento nos chama pelo nome e nos envia: «Vai e repara a minha casa».
Fonte: http://www.ofm.org.pt/index.php/espiritualidade/106-cristo-e-francisco
Frei Gonçalo de Figueiredo, ofm